5 de junho de 2026

A fantástica fábrica de desqualificar o BNDES, por Luís Nassif

É hora das federações industriais sairem da defensiva, abrindo espaço para uma brilhante geração da economistas desenvolvimentistas, que são mantidos calados pela mídia.

A manchete principal do jornal fala em “inchaço” do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Crescimento e Social). Poderia falar em crescimento, fortalecimento, mas fala em “inchaço”. A matéria diz que o banco não ajudou no aumento da produtividade da economia e vai colecionando argumentos produzidos pela fantástica fábrica de sofista, valendo-se da capacidade que têm alguns economistas de extrair lama de pedra. E ainda acusa o banco de tirar espaço do setor privado.

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Como assim? A maioria dos clientes do banco é do setor privado, são empresas industriais e comerciais com acesso a crédito para crescer, gerar empregos, montar redes de fornecedores e pagar impostos. Como é que o “inchaço” do BNDES significa tirar negócios do tal “setor privado”?

O setor privado a que a reportagem se refere é exclusivamente o setor financeiro.

A lógica é simples:

  1. Um empresário industrial consegue recursos para sua empresa.
  2. A empresa tem uma curva de crescimento e de valorização. Quanto mais barato o recurso, maior a curva de valorização da empresa.
  3. Em algum momento, com mais musculatura, ele poderá abrir capital e ir até o mercado vender participação. Quanto mais forte for o seu caixa, maior será seu valor de mercado. Quanto mais necessitada de capital, menor o valor.
  4. O comprador é o mercado. Por isso, interessa-lhe empresas com boas perspectivas e baixa capitalização. Quanto mais a empresa precisar de capital, mais barato será seu preço.

Essa é a lógica da reportagem, de sobrepor os interesses do mercado aos interesses das empresas do setor real da economia, uma caça do lobo aos cordeiros, usando a mesma lógica das fábulas de Esopo.

Quando a indústria naval começava a ganhar musculatura, almocei com um desses malabaristas da lógica. E ele me dizia que o setor não aumentou em nada o número de funileiros da economia. Ou seja, ele comparava o funileiro de oficina de automóveis com funileiro da indústria naval, como se o salto tecnológico na formação do funileiro não fizesse a menor diferença.

Os recursos anunciados para o Programa de Neoindustrialização serão de R$ 100 bilhões em 5 anos. Para o Plano Safra, de R$ 442 bilhões em um ano. As taxas para a indústria ainda não foram definidas, mas não ficarão abaixo da Selic. Para trabalhos irrigados, as taxas de juros do Proagro e do Proagro Mais são de 2%. Para soja em sequeiro, a taxa é de 5% do Proagro e 3,8% do Proagro Mais. As culturas zoneadas demais (em sequeiro) possuem 4% de taxa no Proagro, e 3% no Proagro mais.

Sem BNDES, abre-se o mercado para debêntures de infraestrutura, por exemplo – e aí beneficia-se diretamente o “setor privado” financeiro.

O rendimento das debêntures de infraestrutura é definido pelo emissor da debênture, mas geralmente é composto de uma taxa de juros fixa e de uma parcela variável, que pode ser atrelada a um índice de referência, como a taxa Selic ou o IPCA. Em geral, as debêntures de infraestrutura oferecem rendimentos mais elevados do que os de outros títulos de renda fixa, como os títulos públicos. 

Ou seja, o setor privado da economia real pagará mais para financiamento de obras de infraestrutura para permitir ao setor privado financeiro ganhar mais. Ou seja, a mídia trata o setor real como se fosse um mero instrumento de ganhos do setor financeiro. E o desenvolvimento brasileiro, a geração de empregos, a melhoria da economia depende do setor real.

Lula ainda não se deu conta que sua grande batalha, a bandeira capaz de unificar a Nação é o discurso em favor do setor real da economia, das pequenas, médias e grandes empresas, do cooperativismo, da agricultura familiar. É hora das federações industriais sairem da defensiva, abrindo espaço para uma brilhante geração da economistas desenvolvimentistas, que são mantidos calados pela mídia.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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4 Comentários
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  1. RENATO DAGNINO

    30 de janeiro de 2024 10:58 am

    elogio a lucidez costumeira, mas destaco q a ideia de um “setor real da economia, das pequenas, médias e grandes empresas, do cooperativismo, da agricultura familiar” sendo apoiado pelas “federações industriais” nao me parece realista.
    acho tambem q é necessario “abrir espaço para … economistas” de esquerda q criticam o neo-desenvolvimentismo (da NIB, inclusive) “que são mantidos [ainda mais] calados pela mídia”.

  2. Jicxjo

    30 de janeiro de 2024 3:35 pm

    Gozado, nunca li nessa mídia porca qualquer crítica ao inchaço dos bancos privados, esta sim uma ameaça à livre concorrência e à democracia. Inchaço do poder privado nas mãos de poucos, que continuam a se valer da imprensa corporativa para adestrar otários em sua ideologia funesta.

  3. Marcelooopontooojotaaa

    30 de janeiro de 2024 8:00 pm

    Nassifão quase todis os empresários só querem meter a mão no dinheiro.do governo e o.bom são eles não valorizam nem seus colaboradores diretos num pensamento escravista,o governo não pode dar de mão beijada dinheiro a eles precisa.primeiro.receber uma contrapartida(o governo)ai depois luberar recursos pq ao.final.se.nao tiver isso vão bater no peito e dizer q são bonzao e o governo nao oresta!!!
    Obs:Países estrangeiros orecisam saber q nosso agro tá empesteado de veneno e é necessário uma.rx de exportação boa oara q não pensem só em enricar e sim alimentar o seu próprio povo abaixo à especulação alimentar,financeira e de recursos energéticos essenciais !!!

  4. Jicxjo

    31 de janeiro de 2024 9:56 pm

    Gozado, nunca li nessa mídia porca qualquer crítica ao inchaço dos bancos privados, esta sim uma ameaça à livre concorrência e à democracia. Inchaço do poder privado nas mãos de poucos, que continuam a se valer da imprensa corporativa para adestrar otários em sua ideologia funesta…

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