4 de junho de 2026

É preciso enfrentar a chantagem dos militares, por Luis Felipe Miguel

Os chefes militares brasileiros de hoje não participaram do golpe. Mas são incapazes de fazer a autocrítica institucional.
Ricardo Stuckert

É preciso enfrentar a chantagem dos militares

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por Luis Felipe Miguel

É difícil combinar o Lula que fez a denúncia tão corajosa do genocídio do povo palestino e o Lula que parece ter pânico de melindrar os generais de seu próprio país.

Sua declaração sobre o golpe de 1964 – de que se trata algo que pertence exclusivamente ao passado e sobre o qual não vale mais a pena falar – é absolutamente irresponsável com a tarefa, que ele tem, de restaurar as condições para a retomada democrática no Brasil.

Lula disse que está mais preocupado com a tentativa de golpe do 8 de janeiro de 2023 do que com o golpe bem-sucedido de março e abril de 1964. Parece, por sua fala, que não há nenhuma relação entre um e outro.

Parece que a falta de enfrentamento das consequências da ditadura e, em particular, a falta de punição para todos os responsáveis pelos crimes nela cometidos não estão entre os fatores principais da debilidade da democracia no Brasil. Parece que aqueles que estavam dispostos a golpear novamente a Constituição e perpetuar Bolsonaro no poder não se inspiravam na ditadura que vivemos entre 1964 e 1985.

Lula diz que os generais de hoje não são os generais que deram o golpe em 1964. Diz que eles não eram nem nascidos então, o que é um certo exagero, mas tudo bem, eram crianças. Não passavam de oficiais de baixa patente ao final da ditadura.

Mas o que ele faz questão de não dizer é que, embora os generais sejam outros, a mentalidade militar é a mesma.

Décadas se passaram desde o retorno dos civis ao poder, décadas da vigência de uma constituição formalmente democrática, mas nada se fez para adaptar a corporação militar seja à convivência na democracia, seja ao primado do poder civil.

Os chefes militares brasileiros de hoje não participaram do golpe. Mas são incapazes de fazer a autocrítica institucional. Continuam cultuando torturadores e julgando que sua intervenção ilegítima no jogo político é justificável por um motivo ou por outro.

Muitos deles não quiseram embarcar na aventura que o bolsonarismo lhes propôs (nem por isso combateram ativamente a conspiração golpista). Na verdade, tendo ou não simpatizado com o plano arquitetado por Bolsonaro, por Braga Neto e por Heleno, nenhum deles abre mão de continuar controlando os recursos de poder que lhes garantem a possibilidade de manter o sistema político brasileiro sob permanente chantagem fardada.

Não é só ideologia, a vontade de manter o Brasil livre da “ameaça comunista”, seja lá o que isso for. É o que lhes garante benesses imorais – impunidade para seus crimes, vantagens financeiras extravagantes, oportunidades para corrupção, mordomias, a absoluta falta de qualquer exigência de mínima competência profissional.

A desmoralização profunda das Forças Armadas, por seu envolvimento nas lambanças bolsonaristas, abre a chance de agir – punir golpistas e corruptos, mexer na formação, reafirmar valores básicos (como o que diz que militares não se metem em política), reforçar o poder civil. Infelizmente, viciado em apaziguar, capitular e recuar, o governo despediça a oportunidade.

Ao contrário do que disse o presidente, é absolutamente necessário lembrar do golpe e da ditadura. Seria necessário mesmo que fossem passado, pois temos que aprender com a história.

Mas nem passado são.

Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

Luis Felipe Miguel

Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular).

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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2 Comentários
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  1. Fabiana Horn

    1 de março de 2024 5:23 pm

    Texto irretocável.
    Entendo que todos os militares que sabiam dos crimes em curso para consumar o golpe do Bolsonaro, mesmo que não tenham apoiado, deveriam ter denunciado. Não o fazendo, são cúmplices dos criminosos.
    O que ocorreu em Brasília no 8 de janeiro reflete bem a falta de respeito dos militares por tudo o que é brasileiro.

  2. Moacir Rodrigues de Pontes

    1 de março de 2024 7:39 pm

    A desigualdade de riqueza e renda e consequente concentração de poder econômico, social e político também nem passado são. Qualquer possibilidade de superação dessa realidade (ainda que por meio de simples reformas) constitui a “ameaça comunista”.

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