Em meio ao atual genocídio em Gaza, o jornalista israelense Gideon Levy retoma a proposta inicial do movimento de libertação da Palestina de um único Estado democrático.
Durante a entrevista realizada pelo programa Agenda Mundo, da nossa TVGGN, o jornalista israelense e colunista do jornal Haaretz, Gideon Levy, declarou que a única alternativa para a questão palestina seria o estabelecimento de um único Estado. “Um Estado entre o rio e o mar, com direitos iguais para todos. Uma pessoa, um voto. Essa é a única solução que resta”, afirmou Levy.
Apesar de impactante, esta proposta não é inédita, pois já havia sido defendida pelo programa fundacional da Organização de Libertação da Palestina (OLP), em 1968. O princípio foi abandonado pela OLP apenas na década de 1980, resultando na ratificação dos Acordos de Oslo (1993) que apontavam para a existência de dois Estados no território da Palestina histórica. Nesse sentido, o futuro Estado palestino seria formado nos territórios ocupados por Israel em 1967 (Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental), correspondendo somente a 22% do território palestino original.
No entanto, para Levy, que é filho de refugiados judeus que não faziam parte do movimento sionista, a solução de dois Estados foi inviabilizada na prática pela ocupação israelense ao assentar ilegalmente cerca de 700 mil colonos na Cisjordânia. Considerando o alto grau de violência organizada e poder dentro da política israelense dos colonos, Levy tampouco acredita que esses serão removidos. Para ele, “sem a evacuação, não existe um Estado palestino. Podem haver bantustões, como havia na África do Sul, mas não é um Estado”.
Citando o historiador israelense Ilan Pappé, que há anos menciona que a solução de dois Estados equivaleria a legitimar o apartheid, assegurando apenas um bantustão palestino, a jornalista e ativista palestina-brasileira Soraya Misleh endossa a declaração de Gideon Levy.
“Vamos imaginar a solução de dois estados como uma alternativa. Desocuparia todas as terras, retiraria 700 mil colonos, desmantelaria todo o aparato do apartheid (muro com mais de 700km de comprimento e ainda em construção, centenas de checkpoints, estradas exclusivas para colonos, diferenciação de identidade e documentos)? Com um projeto colonial cujas bases de sustentação são essas, seria ilusão imaginar que a resposta seria sim, Israel faria isso”, afirma Misleh em entrevista ao GGN.
Reconhecido como um estado de Apartheid por organizações internacionais como Anistia Internacional e Human Rights Watch, assim como pela organização israelense de direitos humanos BT’Selem, Israel conseguiu instituir-se enquanto poder de facto na Cisjordânia. Embora, teoricamente, seja função da Autoridade Palestina administrar a região, Israel controla as fronteiras, espaço aéreo, recursos naturais, comunicação e infraestrutura de transporte e sistema financeiro em prol do favorecimento de seus colonos judeus israelenses.

A influência de tal controle sob os palestinos da Cisjordânia se reflete, por exemplo, em escassez de recursos hídricos, impedimento de livre trânsito devido aos postos de controle, detenções arbitrárias recorrentes, inclusive de crianças e adolescentes, assim como demolição de casas e escolas. Desse modo, Israel e os Territórios Palestinos Ocupados já constituem um único estado, em que palestinos são regidos por lei militar e são constantemente discriminados, enquanto israelenses de origem judaica respondem a um regime civil.
No caso da Faixa de Gaza, a retirada dos colonos judeus israelenses em 2006 e o suposto auto-governo escondem o fato de que esse continua sendo um território ocupado. Durante o genocídio em curso desde outubro de 2023, podemos observar que o espaço aéreo e as fronteiras do estreito litorâneo estão sob controle israelense.
Gaza têm sido alvo de um brutal embargo, em que a maior parte dos produtos que chegam precisam ser contrabandeados de forma subterrânea; o mesmo bloqueio impede que os palestinos do enclave possam transitar até mesmo pela Cisjordânia.
Sequer dentro das fronteiras do que hoje é considerado Israel se garante igualdade de direitos aos palestinos com cidadania israelense. Misleh nos recorda as “65 leis racistas” que determinam diferenças substanciais na vida dos portadores de cidadania israelense a depender de sua origem étnico-religiosa. Entre essas leis está a Lei da Terra (1960), que institui o controle das terras ao Estado israelense, podendo ser transferidas apenas para cidadãos judeus.

Filha de um sobrevivente da Nakba, catástrofe palestina que gerou a destruição de 800 aldeias e a expulsão de 800 mil palestinos para a criação do estado de Israel, Soraya Misleh adverte na conversa com a reportagem que a solução de dois estados foi convertida em um discurso ideológico, pois a “única solução justa para a totalidade do povo palestino é o fim da colonização e do apartheid, em um estado único palestino laico, livre, democrático, não racista, com direitos iguais para todos que queiram viver em paz”.
Como forma de organizar as vozes que buscam a criação de um único estado no território da Palestina histórica, ativistas e acadêmicos palestinos e israelenses lançaram a campanha “Um Estado Democrático” (One Democratic State Campaing, em inglês).
Desde 2018, a iniciativa criada em Haifa estimula o diálogo sobre um futuro compartilhado baseado em uma carta programática de dez pontos. Entre eles estão: a defesa de uma constituição única e democrática; a garantia da igualdade entre todos os cidadãos, independente de qual grupo étnico-político-social-religioso pertençam; compromisso com os direitos humanos, justiça e paz, respeitando a lei internacional e buscando a solução pacífica para os conflitos; justiça social e econômica para dar equidade aos grupos étnicos após mais de sete décadas de exploração; direito de retorno aos refugiados palestinos na diáspora, com ressarcimento de propriedade perdidas durante seu deslocamento forçado e incorporação efetiva nesta nova sociedade compartilhada.
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Jicxjo
7 de março de 2024 10:20 pmA solução do apartheid sul-africano, outra herança maldita do império britânico, demandou muita pressão internacional, o surgimento de uma liderança como Mandela (que logrou mais êxito que Gandhi) e uma habilidosa construção de identidade, que permitiu romper a lógica da opressão e instaurar um único Estado comum.
Infelizmente, no caso de Israel, isso continua muito distante; sem pressão internacional, dificilmente haverá espaço para o surgimento de uma liderança capaz de magnetizar as massas dos dois lados e construir a necessária identidade, um sonho de futuro comum.
É a melhor solução, sem dúvida, mas creio que o desfecho ali está mais para aquele das Índias Britânicas, da divisão Índia x Paquistão, com fronteiras até hoje em disputa e armados até os dentes, inclusive com ogivas nucleares.
De onde se deduz que, sem pressão internacional, isolamento e boicote ao Sionistão que criem as condições para uma unificação justa, o Estado Palestino só será reconhecido no dia em que o Irã conseguir a bomba e repassar algumas unidades para os palestinos, equilibrando o jogo.