4 de junho de 2026

Por que os professores das Federais vão entrar em greve?, por Luis Felipe Miguel

O que é negado para professores, funcionários das universidades e às categorias do serviço público foi concedido às bases do bolsonarismo.

Por que os professores das Federais vão entrar em greve?

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por Luis Felipe Miguel

Os professores da Universidade de Brasília, assim como de muitas outras instituições federais de ensino superior, entram em greve na segunda-feira. Os servidores técnico-administrativos já estão em greve há quase um mês.

Temos perdas salariais acumuladas da ordem de 30%, mas o governo nos ofereceu um reajuste redondo – de exatamente 0%.

Zero. Nada. Nem um centavo.

E promete 4,5% para os próximos dois anos – algo insuficiente até mesmo para repor a inflação oficial de cada ano.

Tudo isso de um governo que se elegeu prometendo a valorização do funcionalismo público, ciente de que políticas bem planejadas e bem executadas dependem de pessoal respeitado e remunerado condignamente.

Tudo isso para categorias profissionais que estiveram na linha de frente da defesa da democracia e da resistência aos retrocessos.

Tudo isso embora a arrecadação esteja em alta e haja margem para o reajuste.

O que é negado para professores, funcionários das universidades e quase todas as categorias do serviço público foi concedido generosamente às bases do bolsonarismo. Polícia Rodoviária Federal (aquela que foi mobilizada para melar as eleições) e Polícia Federal foram contempladas com reestruturação da carreira e aumentos que dão perspectiva de salários superiores a 40 mil mensais. O Banco Central também foi beneficiado com reajustes na faixa dos 23%.

Para o resto, zero.

Qual a justificativa para esse duplo padrão? Nenhuma. Só um oportunismo político muito míope.

Na quarta-feira passada, a pressão grevista fez com que o governo reabrisse a mesa de negociação com os trabalhadores.

Mas, na verdade, sem nenhuma disposição para negociar. Horas antes, o ministro Fernando Haddad declarou, taxativo: “Não tem reajuste pro funcionalismo. O orçamento está fechado”.

Fechado só para alguns, na verdade. Ao mesmo tempo em que nega diálogo com o funcionalismo, o governo se prepara para acomodar a liberação de mais cerca de 6 bilhões de reais em emendas do Centrão.

Para o Centrão, para as igrejas, para as grandes corporações – para esses o orçamento sempre tem elasticidade. Abre-se mão de receita, concedem-se benefícios, subsidia-se tudo.

Já para o funcionalismo, para a educação, para as políticas sociais, a ordem é “austeridade”. É ferro no lombo.

Mas a greve, instrumento legítimo de luta dos trabalhadores, cumpre seu papel.

O presidente Lula desautorizou aqueles que, de dentro do governo, ameaçavam grevistas. A ministra Esther Dweck, contrariando Haddad, disse lutar por uma solução negociada. O governo abriu mesas setoriais para tratar das demandas de cada segmento do funcionalismo.

Fazer greve é ruim, ainda mais para quem se sente envolvido com o trabalho que faz. Prejudica o andamento das aulas, desorganiza a vida pessoal.

Porém, ao contrário de quem diz apenas que “greve na educação” não presta, acredito que assumir nossa posição como trabalhadores e mostrar que devemos lutar por nossos direitos tem também um caráter pedagógico.

Há colegas que temem, sinceramente, que fazer greve contra o governo Lula fortaleça a extrema-direita. Falam até em “desestabilização” do governo.

Não creio. É um discurso cujo horizonte é entregar o governo à direita, sem disputa, e conduzi-lo à derrota, por ser incapaz de promover as políticas necessárias para a reconstrução do Brasil.

Somos – tenho certeza – suficientemente maduros para lutar por nossos direitos sem descuidar da luta pela democracia.

Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Luis Felipe Miguel

Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular).

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5 Comentários
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  1. Marcus Lopes

    13 de abril de 2024 9:32 am

    Os funcionários estão certíssimos em seu direito de greve. Se há dinheiro para deputado fazer campanha com o orçamento da União, antes deve haver União, possível apenas com funcionalismo capacitado e remunerado dignamente.
    Todo apoio ao movimento.

  2. Fabio

    13 de abril de 2024 10:55 am

    O governo Lula é uma decepção!
    Populismo, demagogia, gente incompetente.
    Está abrindo caminho para o retorno da direita raivosa.

  3. Anônimo

    13 de abril de 2024 4:34 pm

    Boa tarde,

    de fato, é preocupante a “seletividade” de com quem e como negocia o governo em algumas situações políticas chave à ampliação democrática da vida dos cidadãos. Num governo que tem sido obrigado até mesmo a ceder em conflitos expressamente apontados e lamentados pelo próprio Lula, e parece-me que o caso emblemático foi a limitação imposta pelo discurso do teto-de-gastos apregoado e a manutenção dos juros pelo BACEN, com prejuízos para o programa do PT na eleição e nos primeiros meses de empossado o presidente. Lembro de Lula criticar e lamentar, pois entendemos que não dava para fazer nada, “eles é que vão ter de responder mais adiante”.

    Aposentado desde 2015 na Universidade Federal, a UFSJ, os vencimentos da categoria acumularam em torno de 30% de defasagem salarial desde o último reajuste (e aumento?) há 8 ou mais anos. De volta aos bancos universitários no Departamento de Ciência Política da UFPR, vou me inciando nos problemas, debates, teorias e perspectivas da democracia no seu evoluir, um sem número de vezes com regressões severos. E, de fato, o alargamento ou estreitamento da participação do cidadão na política e, portanto, no que e para quem ela decide nos arranjos da vida em sociedade para cada um e todos, mais ou menos equitativamente. Assim, ela decide, numa ou outra direção, o acesso e exercício aos mais fundamentais direitos do cidadão, e que cabe ao Estado garantir. E, na história brasileira onde costuma ser escassa, deve ou deveria, e tal se espera, sempre apoiar a necessidade e desejo da ampliação à população brasileira, sobretudo na existência e rendas do trabalho. Onde tudo se inicia, e, também, muitas vezes, apenas garantindo e avolumando continuidade de exclusão.

    E, por fim, concordo com o que transparece da vontade do jornalggn e do jornalista Nassif, de reconhecer a relevância do governo vitorioso das eleições de 2022, sem deixar, entretanto, de manifestar as preocupações com as opções e decisões deste governo. Este, sem dúvida, tem obstáculos grandes, principalmente pelo recente quadro político de direita, relativamente recete no país, mas, igualmente, por carências mais antigas e permanentes, desde 2018-2022 agravadas. Isso vale, como o professor escreve, também e de modo relevante para o setor da educação superior pública. Trata-se de se retomar o impulso do desenvolvimento econômico e, com ele, em coordenaçao com a ampliação da Democracia mediante lutas e decisões que terão o apoio desses trabalhadores à medida em que o governo co-responder positivamente para suas justas demandas econômicas e políticas.

    Obrigado

    1. Anônimo

      15 de abril de 2024 7:37 pm

      Por que a anonimidade?

  4. ana emilia fajardo turbin profa let UNB

    13 de abril de 2024 6:46 pm

    não compreendo e me indigno ver o rebaixamento dos professores deixarem nos com um salário pífio enquanto outros servidores já tiveram seus reajustes considerando a inflação. Admiro a coragem de meu colega Luiz Felipe Miguel e apoio todos que se aliam aos professores das federais!
    Vamos gritar por nossos direitos ou seremos massacrados

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