10 de junho de 2026

Guerra Civil: Alerta contra a polarização intolerante, por Fernando Nogueira da Costa

O alerta do filme recém-lançado com grande sucesso de público –“Guerra Civil” (com Wagner Moura) –, é fantasioso ou alarmista?

Guerra Civil: Alerta contra a Polarização Intolerante

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por Fernando Nogueira da Costa

O alerta do filme recém-lançado com grande sucesso de público – “Guerra Civil” (com Wagner Moura) –, inclusive nos Estados Unidos, onde se passa a distopia (lugar ou estado imaginário onde se vive em condições de extrema opressão e desespero), é fantasioso ou alarmista? Não se posiciona diante da presente realidade de polarização, provocada pelos populistas extremistas de direita?

Populismo é “falar em nome do povo”. Isso mesmo com uma pequena maioria de eleitores desinformados ou manipulados por rede social ou seitas religiosas.

Houve guerras civis ao longo da história em diferentes países.

A Guerra Civil Americana (1861-1865) ocorreu entre os Estados do Norte (União) e os Estados do Sul (Confederação) nos Estados (des)Unidos. Discordavam sobre a extinção de escravidão e os direitos estaduais no federalismo.

A Guerra Civil Russa (1917-1923) foi uma série de conflitos, após a Revolução Russa de 1917, entre os Bolcheviques, de um lado, e seus opositores, incluindo militares do antigo exército tsarista, conservadores e liberais favoráveis à Monarquia, além de grupos ligados à Igreja Ortodoxa Russa e a correntes socialistas minoritárias (mencheviques), de outro lado. Agravou a situação de um povo já empobrecido por séculos de czarismo e seu envolvimento na Primeira Guerra Mundial.

A Guerra Civil Espanhola (1936-1939) foi uma luta armada entre as forças republicanas democráticas e as nacionalistas de militares fascistas, resultando na ditadura de Francisco Franco como chefe de Estado vitalício entre 1939 e 1975. Por causa disso, a Espanha foi isolada por muitos outros países, durante quase uma década após a Segunda Guerra Mundial, enquanto a sua economia autárquica, ainda tentando se recuperar da guerra civil, sofria de depressão crônica.

A Guerra Civil Síria iniciou em 2011 – e ainda perdura. É um conflito prolongado entre o governo sírio, liderado por Bashar al-Assad e vários grupos rebeldes, incluindo organizações jihadistas e forças curdas, além de intervenções de potências estrangeiras. A guerra deixou de ser apenas uma “luta por poder” e passou também a abranger aspectos de natureza sectária e religiosa, com diversas facções da oposição combatendo tanto o governo quanto umas às outras.

A (Segunda) Guerra Civil na Líbia explodiu após 2014, quando os derrotados não aceitaram os resultados das eleições – e a nação ainda não se pacificou. Este conflito entre diferentes facções e grupos armados pelo controle do país existe desde a queda do líder Muammar Gaddafi em 2011. Ele se tornou o ditador da Líbia, em 1969, depois de liderar um grupo de jovens oficiais do Exército Líbio contra a Monarquia em um golpe de Estado em favor de uma República dita socialista.

Cada uma das guerras civis é única em suas causas e dinâmicas. Mas todas têm consequências calamitosas para o povo atônito.

No Brasil, existem vários tipos de conflitos como os seguintes. Os conflitos agrários são disputas sobre a posse da terra entre proprietários rurais, povos indígenas, comunidades quilombolas e trabalhadores sem-terra. Os conflitos ambientais são disputas relacionadas à exploração de recursos naturais, como mineração, agropecuária e construção de infraestrutura, capazes de impactar o meio ambiente e as comunidades locais.

Há conflitos entre gangues, facções criminosas (PCC, Comando Vermelho, Terceiro Comando etc.) e forças de segurança oficiosas, como milícias, em áreas urbanas. Essa violência urbana ocorre, especialmente, em regiões metropolitanas com altos índices de criminalidade.

Os conflitos étnicos e raciais são tensões decorrentes da discriminação racial, xenofobia e preconceito étnico. Eles se manifestam em confrontos e protestos.

Os conflitos ideológicos são disputas entre diferentes partidos políticos, grupos de interesse e movimentos sociais em torno de questões políticas, econômicas e sociais. Diante da polarização, propagada por extremistas de direita, alguns “pastores” manipulam politicamente o “rebanho” religioso, iludido em sua boa fé.

Esses conflitos se agravam quando são interligados, refletindo desigualdades estruturais e históricas na sociedade brasileira. Desrespeitam o pacto social-constitucional democrático com alternância de poder em eleições periódicas.

O PCC (Primeiro Comando da Capital), a maior organização criminosa do Brasil, assim como as igrejas pentecostais, ambas as organizações procuraram administrar o caos social nas periferias e produzir ordem entre os seus membros. O papel principal da facção era atuar como uma agência reguladora do mercado do crime, para criar ordem e previsibilidade em um mundo violento e desgovernado. Elaborou e divulgou suas regras, para montar uma estrutura e punir os desviantes, dentro e fora do sistema penitenciário, e o mercado criminal se tornar previsível.

Via controle violento da matança mútua, criou objetivos para jovens  com risco de vida a partir de estratégias e de estruturas organizacionais, inclusive voltadas para micro empreendimentos. Os templos, por sua vez, ofereceram oportunidades para a criação de uma rede de apoio mútuo nesses seus negócios e a sensação de pertencimento para seus membros antes com sentimento de abandono social.

Uma reflexão provocativa é: os “Faria Limers” espraiaram sua doutrina neoliberal até a periferia? De outra forma, uma aluna me lançou a pergunta aparentemente singela: por qual razão o Brasil costuma liderar o ranking dos juros reais no mundo?

No fim do ano passado, o Brasil deixou o topo da lista. A combinação de inflação menor e câmbio sob controle ajudou no fechamento de uma taxa real de juros mais baixa, hoje, em 5,9% aa. O líder se tornou o México, com taxa real de 7,5% aa.

A Argentina ficou em último lugar no ranking com -42,9% aa, apesar de ter a taxa nominal mais alta do mundo acima de 80% ao ano. O país enfrenta uma hiperinflação, derrubando as taxas reais e provocando desintermediação bancária com a fuga de capitais para o dólar.

Diante desse quadro distinto entre as maiores economias latino-americanas – Brasil com PIB de US$ 2,13 trilhões, México, US$ 1,81 trilhão, Argentina US$ 621,83 bilhões, Colômbia US$ 363,84 bilhões, Chile US$ 344,4 bilhões – pergunto-lhe: o regime de meta inflacionária, praticado no Brasil com uma taxa de juro básica de referência disparatada, não visa apenas controlar a inflação via política monetária recessiva, mas também via política cambial com uma moeda nacional apreciada, diante o risco de uma inflação importada?

Esse “pacto econômico” não é satisfatório para as elites socioeconômicas porque propicia a concentração da riqueza financeira sem necessidade de assumirem risco em empreendimentos inovadores ou disruptivos?

A “estagdesigualdade” corrente, com uma taxa de inflação inercial sob controle (IPCA acumulado dos últimos 12 meses em 3,93%) e uma taxa de crescimento econômico anual estagnada na faixa 2%-3%, aproxima a economia brasileira de indicadores dos países de capitalismo maduro, embora tenha renda média bem inferior à dos ricos acima da linha do Equador. O rendimento médio real de todas as fontes cresceu 7,5% em relação ao ano anterior, atingindo R$ 2.846 em 2023 e se aproximando do maior patamar da série histórica, registrado em 2014 (R$ 2.850).

Os 10% da população com maiores rendimentos recebiam, em média, 14,4 vezes o rendimento dos 40% da população com os menores rendimentos, o menor múltiplo da série histórica da pesquisa. Houve aumento da ocupação (taxa de desocupação em 8% está baixa em termos históricos), da renda do trabalho e da renda proveniente de outras fontes, especialmente de programas sociais.

Quando é considerado o 1% das pessoas com maiores rendimentos, em 2023, a média recebida era de 39,2 vezes o rendimento dos 40% com menor renda. Esse grupo tinha rendimento médio per capita de R$ 20.664, em 2023.

Portanto, o pacto social vigente no Brasil representa acomodação diante da desigualdade, caso ocorra o combate à pobreza. Aquela está em elevação em todo o mundo. A expressão “pacto da mediocridade” pode designar a situação na qual os empresários fingem empreender e os trabalhadores fingem estar satisfeitos.

As motivações para oferta de ocupações são independentes das necessidades de educação de qualidade, ocupações satisfatórias em rendas, capazes de propiciar a acumulação de riqueza habitacional e financeira para melhor qualidade de vida das famílias e dos aposentados. Necessitamos da “financeirização” da riqueza dos trabalhadores dotados de educação financeira!


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Obras (Quase) Completas em livros digitais para download gratuito em http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/). E-mail: [email protected]

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Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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  1. ALEXANDRE OLIVEIRA FERREIRA

    29 de abril de 2024 2:56 pm

    Me perdi em algum momento do texto. O artigo começa falando de um filme e da possibilidade de uma guerra civil e acaba discutindo a taxa de juros.

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