13 de junho de 2026

Avanço do Poder Privado sobre a Economia Global, por Fernando Nogueira da Costa

Quando o juro local aumenta, ganha relativamente a outros países, porque capitaliza mais a renda fixa com juros compostos.

Avanço do Poder Privado sobre a Economia Global

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por Fernando Nogueira da Costa

O Global Wealth Report 2023 do Credit Suisse/UBS indica, na virada do século, os ativos financeiros representarem 55,3% dos ativos brutos das famílias. Essa participação caiu até 2008, brevemente, abaixo de 50%, quando os ativos não financeiros (propriedades imobiliárias e bens de consumo duráveis) apresentaram crescimento, em todo o mundo, em contraste com a riqueza financeira sob forma de ações e títulos. Os ativos financeiros reassumiram a liderança e, em 2020, já representavam 53,9% do ativo bruto de US$ 454,4 trilhões.

Essa participação dos Haveres Financeiros não é muito distinta no Brasil. Segundo as DIRPF 2021 – AC2020, eles representavam 51% do total dos Bens e Direitos, entre eles, destacando-se em primeiro lugar (R$ 1,05 trilhão ou 9%) as quotas ou quinhões de capital e em terceiro lugar (R$ 616,50 bilhões ou 6%) as ações, ou seja, as participações acionárias eram 15% do total de todas as riquezas. Entre esses se colocavam as aplicações de renda fixa como CDB (R$ 850,82 bilhões ou 6%).

Os imóveis representavam 39% do total, destacando-se apartamento (R$ 1,6 trilhão ou 14%) e casa (R$ 1,3 trilhão ou 11%). Outros tipos de Bens e Direitos, inclusive automotores (R$ 678,72 bilhões ou 6%), somavam R$ 1,1 trilhão ou 10%.

No mundo, em quase todos os países, quando a taxa de inflação corrente e a taxa de juro estão baixas, há inflação de ativos em ações e aumenta a riqueza. No Brasil, há perda relativa da riqueza cotada em dólar com a depreciação da moeda nacional. Por sua vez, quando o juro local aumenta, ganha relativamente a outros países, porque capitaliza mais a renda fixa com juros compostos. Atrai capital e a apreciação do real eleva essa riqueza em dólares.

Uma pergunta-chave a propósito da Forbes ter contabilizado,  em março de 2024, o número de 2.781 bilionários no mundo, com uma fortuna somada de US$ 14,2 trilhões, é: está acontecendo um avanço do poder privado sobre a economia global? Como o Brasil poderá atrair esse capital sob forma de Investimento Direto Estrangeiro em competição com o resto do mundo?

Historicamente, alguns dos principais fatores de atração do Investimento Direto Estrangeiro (IDE) para o Brasil são os seguintes. Como possui uma população grande, caso consiga diminuir a pobreza e a desigualdade, oferecerá um mercado interno atraente como mercado consumidor para empresas estrangeiras explorar.

A riqueza financeira possuída por Pessoas Físicas (PF), em 2023, praticamente, atingiu R$ 6,5 trilhões (ou US$ 1,3 trilhão) segundo a ANBIMA. Houve um fenômeno inédito de divisão tripartite igualitária entre os três segmentos de clientes (varejo tradicional e de alta renda e private banking) em torno de 1/3 cada qual.

O problema maior é a desigualdade. Segundo o IBGE-PNADC 2024, quando considerado o 1% das pessoas com maiores rendimentos, a média recebida era de 39,2 vezes o rendimento dos 40% com menor renda. No ano anterior, era 32,5 vezes, e em 2021, 38,4 vezes. Esse grupo mais rico tinha rendimento médio per capita de R$ 20.664 (um casal R$ 41.328 mil) em 2023.

A massa do rendimento mensal real domiciliar (R$ 398,3 bilhões) alcançou, cerca de US$  80 bilhões por mês. O mercado consumidor interno oferece o potencial de US$ 960 bilhões/ano, ou seja, apenas abaixo dos PIBs de 18 países com PIB acima de um trilhão de dólares – e acima da renda nacional de 165 países!

Além desse potencial de consumo, o Brasil tem recursos naturais abundantes, incluindo petróleo, minério de ferro, agricultura, água doce e biodiversidade. Pode atrair investimentos em setores como energia, mineração e agricultura.

O país é um dos maiores produtores agrícolas do mundo, com terras férteis e condições climáticas favoráveis para o cultivo de uma variedade de culturas. Já atrai muitas empresas transnacionais em agronegócio voltado para a exportação.

Necessita investir em infraestrutura, incluindo transporte, energia, telecomunicações e logística. Ao melhorar o ambiente de negócios atrai investimentos diretos em projetos de infraestrutura.

O Brasil possui uma força de trabalho relativamente grande (101 milhões ocupados) embora pouco qualificada em comparação com os “tigres asiáticos”. Em 2022, apenas 19,2% da população acima de 25 anos possuía Ensino Superior completo (a Coréia do Sul tem 70% da população graduada), necessário para atrair investimentos em setores como tecnologia, serviços financeiros e manufatura.

Apesar do golpismo da extrema-direita, o Brasil tem uma democracia e um sistema jurídico resistentes. Proporciona um ambiente relativamente estável para os negócios em comparação com alguns outros países em desenvolvimento.

O governo brasileiro é social-desenvolvimentista e oferece incentivos fiscais e benefícios para atrair investimentos estrangeiros em determinados setores e regiões do país. No entanto, aqui há muita burocracia, carga tributária elevada, infraestrutura inadequada em algumas regiões e instabilidade política.

Como a riqueza global das famílias no ano de 2022 foi estimada em US$ 454,4 trilhões, a fortuna dos 2.781 bilionários globais (US$ 14,2 trilhões) representava apenas 3% do total. Portanto, os investidores em escala mundial incluem desde pessoas físicas com grandes fortunas até investidores institucionais, como fundos de pensão, fundos de investimento, bancos de investimento etc.

Ambos os tipos de investidores, PF e PJ, direta ou indiretamente, desempenham papéis na alocação de capital global. Cada um tem diferentes estratégias e objetivos financeiros na alocação de capital na economia globalizada.

Ao comprar barato e vender caro, buscam ativos subvalorizados com potencial de retorno em longo prazo. Outro é o foco em fusões ou aquisições de empresas com alto potencial de crescimento de receita e lucro. O investimento em dividendos prioriza ações de empresas distribuidoras de lucros consistentes e crescentes.

No resto do mundo, não se prioriza tanto como no Brasil o investimento em renda fixa, concentrado em títulos de dívida, públicos e corporativos, para gerar renda estável. Investidores globais buscam oportunidades de crescimento em economias em desenvolvimento com o envolvimento na compra e venda de commodities como minério, petróleo, grãos, entre outros.

Entre os objetivos financeiros estão a maximização de lucros, a preservação de capital, a diversificação, a geração de renda e o planejamento de aposentadoria. Os 5,4 bilhões de adultos aplicam mais por meio de investidores institucionais.

Um número recorde de 58% das famílias americanas investe em ações, de acordo com o último Inquérito sobre Finanças do Consumidor da Fed em 2023. Supera o máximo anterior de 53,2% observado em 2007, pouco antes da GCF de 2008.

A pesquisa, divulgada a cada três anos, indicou como um dos principais impulsionadores desse aumento ter sido a propriedade direta de ações, ou seja, não através de fundos mútuos. No geral, o patrimônio líquido de todas as famílias acompanhadas pela pesquisa aumentou 37%, informou o Business Insider. Os investimentos em ações são mais arriscados, mas oferecem maior retorno diante a renda fixa com baixo juro nos Estados Unidos.

Aqui, segundo o último Raio X do Investidor Brasileiro, realizado pela ANBIMA, o percentual de brasileiros investidores passou de 31% da população, em 2021, para 36% em 2022, totalizando aproximadamente 60 milhões de investidores no país. No entanto, apenas 2% dizem possuir ações.

O site www.tradinghours.com agrega informações sobre bolsas de valores ao redor do mundo, lista e acompanha mais de 900 bolsas de valores em seus bancos de dados. Por volta de 138 são consideradas as principais da lista, onde o número de empresas abertas, cujas ações são negociadas, é estimado em mais de 630 mil.

Entre 2013 e 2022, a capitalização total das bolsas de valores no mundo aumentou de US$ 65 trilhões para US$ 105 trilhões. No entanto, em 2021, a capitalização era de US$ 121 trilhões: 27% do total da riqueza e 49% dos ativos financeiros.

Os EUA é o país com o maior número de investidores na bolsa de valores, com mais de 145 milhões. Dentre todos os americanos investidores na bolsa, os 10% mais ricos são donos de quase 90% das ações em circulação. De 58% dos adultos americanos possuidores de ações em bolsa de valores, 90% são homens brancos e 55% têm mais de 60 anos de idade.

A maioria dos estadunidenses detém ações de forma indireta por meio de fundos. Em 2019, por exemplo, só 15% detinham ações diretamente. Temos de focalizar mais os investidores institucionais em lugar dos bilionários para entender o mundo.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Obras (Quase) Completas em livros digitais para download gratuito em http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/). E-mail: [email protected]

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Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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