10 de agosto de 2026

Evidências de um “Deep State” à brasileira em ano eleitoral?, por Wilson Ferreira

A crise entre o ministro André Mendonça e o STF seria a confirmação empírica e um aprofundamento do conceito de Deep State brasileiro.

Polícia Federal e Judiciário atuam com autonomia e influência sobre o cenário político em ano eleitoral no Brasil.
Crise entre ministro André Mendonça e PF evidencia disputa interna pelo controle do timing e da pauta midiática.
Militares ocupam cargos civis, alterando a burocracia estatal e intensificando a politização do aparato público.

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Evidências de um “Deep State” à brasileira em ano eleitoral?

por Wilson Roberto Vieira Ferreira

O distinto leitor já reparou em quem realmente segura a batuta da política brasileira em ano de eleição? Não são os partidos, os programas de governo ou o debate eleitoral, mas a engrenagem de um “Deep State” à brasileira. Da efêmera cobertura midiática sobre as conexões do PCC na Faria Lima ao bombardeio diário de vazamentos seletivos envolvendo do filho de Lula ao clã Bolsonaro, a burocracia do Estado deixou a neutralidade weberiana no papel para assumir o controle do timing político do país. Através do uso estratégico de operações policiais, timing judicial e uma simbiose calculada com a imprensa, o estamento burocrático transformou-se no principal ator do jogo democrático. E a crise entre o ministro André Mendonça e o STF seria a confirmação empírica e um aprofundamento do conceito de Deep State brasileiro.

O leitor lembra de ter visto, ouvido ou lido alguma atualização sobre a Operação Carbono Oculto, da Polícia e Receita Federal? Aquela operação deflagrada no ano passado com o propósito de desarticular um esquema bilionário de lavagem de dinheiro e sonegação fiscal ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC) no setor de combustíveis e a Faria Lima – a lvagem de dinheiro do crime organizado e os “camelôs” do sistema financeiro, as fintechs.

Por acaso, também o leitor sabia que essa Operação (que causou um breve estardalhaço de uma semana na mídia) já está na sua segunda fase, a “Fluxo Oculto”?

Um clássico exemplo de “Jornalismo Snapchat”: alguns dias de manchetes e fotos emblemáticas (como a das viaturas da PF paradas em frente a um luxuoso prédio comercial da Faria Lima) para depois desaparecer do noticiário.

Enquanto a Operação Sem Desconto (sobre débitos ilegais em benefícios de aposentados e pensionistas do INSS) não sai das manchetes no estilo “pau-que-bate-em-Chico-bate-em Francisco”: começou com a tentativa de criar uma Lava Jato 2.0 e jogar o escândalo no colo de Lula. Depois, o vazamento de conversas entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro. Depois, entra as supostas conexões entre o filho de Lula, o Lulinha, a lobista Roberta Luchsinger o famoso “Careca do INSS” e o ex-chefe do Gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro (o “Marcola”).

Três investigações autorizadas pelo STF com o nome de Lulinha, aparecendo nas investigações da fraude do INSS.

Isso, depois do ministro André Mendonça, do STF, autorizar a abertura de inquérito para investigar Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no caso do financiamento do filme Dark Horse com recursos associados ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, além de apurações sobre emissão de notas fiscais e suposta atuação parlamentar em favor do Banco.

Em pleno ano eleitoral, a Polícia Federal vem empilhando uma série de operações deflagradas para investigar desvios, fraudes e lavagem de dinheiro envolvendo figuras políticas – Operação Heritage, Operação Sem Desconto, Operação Compliance Zero, Operação Infiltrados etc.

Tudo com vazamentos de informações conduzidos por delegados lava-jatistas, que se valem dos mesmo modus operandi da Lava Jato: vazar para determinados “colonistas” do jornal O Globo.

O inquérito contra Flávio Bolsonaro, por envolvimento direto com Daniel Vorcaro, na casa dos R$ 120 milhões, ficou para trás. Agora é a vez do filho de Lula e o fim da nova pauta virtuosa que o palácio do Planalto tentava entabular: a família Bolsonaro envolvida com o novo Tarifaço de Trump e a defesa da Soberania na campanha de Lula.

Fala-se em defesa da autonomia da PF. Mas o fato é que ela continua alimentando a mídia com impressões, informações — ou com o desejo de induzir as investigações. Agora, é a vez de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.

Fica evidente um curioso jogo, como se corporações da máquina do Estado brasileiro (PF, Receita Federal, procuradores, Ministérios Públicos etc.) atuassem como fossem, por assim dizer, um “Estado Profundo” brasileiro – manter o cenário eleitoral sob um apertado cabresto.

Como se ditassem o ritmo e a música. Para observar quem dança melhor…

Para explicarmos melhor essa proposta de análise, precisamos articular a sociologia política clássica com a análise da história recente do Brasil.

Para sustentarmos a tese de que a fronteira teórica entre Governo (agentes eletivos e passageiros) e Estado (burocracia técnica e permanente) foi obscurecida no Brasil contemporâneo pela atuação autônoma e corporativa das corporações estatais.

Vamos desenvolver em quatro eixos teóricos e empíricos. A saber:

1. A ilusão da neutralidade Weberiana: de Weber a René Armand Dreyfuss

Para Max Weber, a burocracia estatal moderna representa o ápice da racionalização ocidental: um corpo técnico, hierarquizado, impessoal, laico e desprovido de ideologia partidária, cujo papel é executar as diretrizes do governante eleito sob a égide do direito racional-legal.

No entanto, a ciência política crítica demonstra que esse “tipo ideal” weberiano raramente se realiza integralmente. Em 1964: A Conquista do Estado (1981), o cientista político René Armand Dreyfuss desmontou a premissa de neutralidade ao analisar o golpe militar de 1964. Dreyfuss demonstrou como uma elite tecno-empresarial e militar (articulada em institutos como IPES e IBAD) instrumentalizou e ocupou a máquina estatal por dentro antes e depois da deposição de João Goulart.

A lição central de Dreyfuss aplicável ao presente é: a máquina do Estado não é um instrumento neutro aguardando ordens políticas, mas uma arena de poder disputada e instrumentalizada por elites corporativas.

2. A autonomização dos “Estamentos do Estado”: o “Deep State” à brasileira

A noção de Deep State refere-se à atuação de segmentos não eleitos da burocracia pública — especialmente forças de segurança, inteligência, setores do Judiciário e forças armadas — que operam com agenda própria, à revelia das instâncias democráticas eleitas.

No caso brasileiro recente, essa atuação autônoma se manifestaria em três dinâmicas centrais:

  • O Protagonismo das Corporações de Controle: Órgãos como a Polícia Federal, o Ministério Público Federal e setores do Judiciário adquiriram, a partir do início dos anos 2000 e culminando com a Operação Lava Jato, um grau sem precedentes de autonomia corporativa e capacidade de agenda-setting (definição da pauta política).
  • A Seletividade e o Timing Político: As operações e seus respectivos desdobramentos em períodos eleitorais — atingindo diferentes atores do espectro político (como investigações envolvendo a família Bolsonaro ou a anulação/condução de processos contra Lula) — revelam como o ritmo das instituições policiais e judiciais interfere diretamente no processo eleitoral.
  • A Simbiose com a Grande Mídia: A articulação entre vazamentos seletivos de processos sigilosos para colunistas e grandes veículos de imprensa funciona como um mecanismo de validação pública da atuação estamental, criando um ciclo no qual o sistema de justiça pauta a opinião pública e desestabiliza agentes políticos eleitos.

3. A militarização da burocracia civil (2018–2022)

A consolidação do que a tese qualifica como o novo estamento manifestou-se com particular intensidade entre 2018 e 2022. O preenchimento de mais de 6.000 cargos civis na administração pública federal por militares da ativa e da reserva (dados confirmados por levantamentos do Tribunal de Contas da União no período) representou uma alteração estrutural no funcionamento do Estado brasileiro.

Essa expansão provocou dois efeitos simultâneos:

  1. A Desprofissionalização Técnica: A substituição da burocracia civil de carreira por oficiais das Forças Armadas em ministérios estratégicos (como Saúde, Meio Ambiente e Minas e Energia) subverteu o princípio de insulamento burocrático e saber especializado previstos no modelo weberiano.
  2. A “Tutela Militar” da Máquina Pública: A presença ostensiva de fardados no núcleo do Poder Executivo funcionou como uma tentativa de institucionalizar o poder moderador das Forças Armadas por dentro do aparelho de Estado, esbatendo definitivamente as linhas entre o governo de plantão e o aparato permanente do Estado.

4. O colapso da separação entre Governo e Estado

A clássica dicotomia weberiana entre um Governo transitório e um Estado neutro deu lugar a um modelo em que as corporações estatais (policiais, judiciais e militares) atuam como atores políticos autorreferenciados.

Quando os órgãos de coerção e investigação passam a ditar o tempo da política representativa, e quando a burocracia militarizada busca moldar a governabilidade, o Estado deixa de ser o “motor da racionalização impessoal” e converte-se no principal sujeito das disputas de poder no país.

Mendonça vs. PF: a disputa dentro do Deep State

Podemos considerar a crise entre o ministro André Mendonça (STF) e a cúpula da Polícia Federal (PF) como uma confirmação empírica e um aprofundamento do conceito de Deep State (ou burocracia estamental) no Brasil.

O episódio demonstra que o aparato de coerção e justiça do Estado não é apenas autônomo em relação ao Governo eleito, mas é ele próprio um campo de batalha interno, no qual frações do estamento estatal disputam o controle da pauta midiática e política e das ferramentas de investigação.

E de mais a mais, a tese do Deep State não pressupõe um bloco homogêneo ou uma conspiração unificada, mas sim a existência de corporações públicas com agendas corporativas e políticas próprias. O embate entre o gabinete de André Mendonça e a direção da PF expõe uma disputa de controle sobre as armas do Estado:

  • A tentativa de tutela judicial: ao exigir a centralização de inquéritos (como as investigações sobre fraudes no INSS e o caso envolvendo o banco Master), cobrar relatórios integrais e determinar que qualquer mudança na equipe de delegados fosse informada ao seu gabinete, o ministro tentou exercer controle rígido sobre o aparato policial.
  • A reação da PF foi estamental corporativa — simbolizada pelo manifesto assinado por todos os 27 superintendentes regionais em defesa da “autonomia técnica” e contra “ingerências externas”. É uma manifestação clássica de autoconservação estamental. A corporação policial recusou-se a ser tratada como mero braço executor de um relator no STF, afirmando-se como um “órgão de Estado” imune à tutela individual de magistrados.

Mas, principalmente, o que está em jogo nessa disputa o controle do Timing Eleitoral e da Agenda-Setting – o poder de agendar a mídia.

O epicentro do atrito revela como o ritmo das apurações do Estado impacta diretamente a política partidária:

  • Ponderação de Alvos e Veto Político: O avanço de apurações e o desmembramento de inquéritos pela PF atingindo figuras estratégicas do governo (como o filho do presidente Lula, “Lulinha”) de um lado, e apurações sob a relatoria de um ministro indicado pela gestão anterior (Bolsonaro) de outro, escancaram a disputa sobre quem define o ritmo e a direção dos desgastes políticos.
  • Vazamentos e a Batalha Narrativa: As acusações mútuas de vazamentos seletivos de informações sigilosas para a imprensa mostram que a disputa entre a burocracia policial e a burocracia judiciária utiliza a opinião pública como arena de validação. O vazamento deixa de ser uma anomalia procedimental e passa a ser uma ferramenta de agenda-setting praticada por frações do próprio Estado.

O conflito entre André Mendonça e a Polícia Federal ilustra que o processo de racionalização burocrática previsto por Weber não gerou uma máquina neutra e laica, mas sim corporações altamente empoderadas e politizadas… pelo menos no caso brasileiro.

Wilson Roberto Vieira Ferreira – Mestre em Comunicação Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi. Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no “Dicionário de Comunicação” pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e dos livros “O Caos Semiótico” e “Cinegnose” pela Editora Livrus.

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Wilson Ferreira

Wilson Roberto Vieira Ferreira – Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi.Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no “Dicionário de Comunicação” pela editora Paulus, e dos livros “O Caos Semiótico” e “Cinegnose” pela Editora Livrus.

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