22 de julho de 2026

“Onguização” e “bolsonarização” da linguagem estão contaminando o jornalismo, por Wilson Ferreira

A "onguização"da linguagem higienizou o debate social, substituindo denúncias de exploração por eufemismos burocráticos.

Folha de S.Paulo usou termos bolsonaristas sem ironia, mostrando a “bolsonarização” do jornalismo político.
A “onguização” suaviza o debate social, trocando termos críticos por eufemismos que ocultam causas estruturais.
Ambos os fenômenos alteram a linguagem política, enfraquecendo a esfera pública e a capacidade de denúncia social.

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“Onguização” e “bolsonarização” da linguagem estão contaminando o jornalismo

por Wilson Roberto Vieira Ferreira

No último domingo (19), a Folha de S.Paulo estampava em sua primeira página que o movimento político de Michelle Bolsonaro prometia ser “imparável”. A absorção literal e desprovida de ironia de uma hipérbole bolsonarista pelo relato jornalístico é a ponta de um iceberg linguístico profundo. De um lado, a “bolsonarização”do jornalismo contaminou a cobertura de Brasília com o jargão da caserna — onde acordos viram “situações pacificadas” e parlamentares viram “tropas de choque”. Do outro, a “onguização”da linguagem higienizou o debate social, substituindo denúncias de exploração por eufemismos burocráticos. Embora venham de polos opostos, ambos os fenômenos erodem a esfera pública ao desarmar a denúncia das desigualdades na base e transformar a política institucional do topo em um mero campo de batalha cognitivo.

Nesse último domingo (19/07), o jornal Folha de São Paulo estampou na primeira página o seguinte título de chamada para matéria: “Movimento de Michelle promete ser imparável”.

Não obstante a aparente ironia do título (para tanto, deveria estar entre aspas), já que Michelle criou um movimento político chamado de “imparável” depois que saiu do PL Mulher, é inegável que o glossário de expressões bolsonaristas está lentamente se infiltrando na linguagem do jornalismo.

A tal ponto que aspas e ironias desapareçam, dando a impressão que esses termos coloquiais e hiperbólicos pertençam ao próprio relato jornalístico dos fatos.

Por exemplo, desde que o ex-vice de Bolsonaro, general Hamilton Mourão, disse que era necessário “apertar a tecla SAP” para que o povo entendesse as propostas do ministro da Economia Paulo Guedes, o general acabou virando, para a cobertura política, a “tecla SAP” das declarações “polêmicas” de Jair Bolsonaro: Mourão frequentemente buscava amenizar ou dar um tom mais institucional às falas do chefe do Executivo.

Paralelo a essa tendência linguística, sincronicamente outra tendência se consolida: a “onguização” da linguagem.

Nasce do encontro entre o discurso dos Direitos Humanos, o serviço social e a gramática do chamado Terceiro Setor (ONGs, fundações corporativas e organismos internacionais como a ONU).

Por exemplo, inicialmente, expressões como “pessoa em situação de rua” ou “jovem em situação de vulnerabilidade” surgiram com uma intenção nobre: evitar o essencialismo e o estigma. O objetivo era lembrar que a pobreza não é uma identidade biológica ou moral (ninguém é “mendigo” por natureza), mas um estado temporário imposto por circunstâncias sociais.

No entanto, ao ser capturada pelo vocabulário burocrático e corporativo, essa linguagem produziu um efeito colateral profundo: a substituição do Substantivo pelo Adjetivação Condicional.

Quando se troca “pobre” ou “trabalhador explorado” por “indivíduo em situação de vulnerabilidade”, desloca-se a causa da estrutura econômica para uma condição acidental. A pobreza deixa de ser o resultado de um conflito de classes ou de escolhas de política econômica e passa a parecer um “evento infeliz” ou uma condição clínica/social a ser gerada.

A “bolsonarização” da linguagem jornalística (como o léxico da Caserna invade a Imprensa) e a “onguização” da linguagem são dois movimentos discursivos.

Embora venham de polos ideológicos e institucionais opostos, cumprem uma função semelhante: a reconfiguração do “regime de dizibilidade” no Brasil, ou seja, a mudança nas regras invisíveis que definem como a realidade pode ser nomeada, interpretada e comunicada na imprensa e nas instituições.

Se a onguização suaviza a realidade social, a “bolsonarização” ou militarização do discurso político embrutece e categoriza a dinâmica política sob a ótica da tática militar.

Durante o governo de Jair Bolsonaro — e especialmente pela presença ostensiva de generais da reserva e da ativa em cargos-chave (como Hamilton Mourão, Walter Braga Netto e Eduardo Pazuello) —, a imprensa de cobertura política em Brasília passou por um processo de contaminação lexical por osmose.

Como a Gramática Militar Dominou o Comentário Político

O jornalismo diário depende de fontes. Ao ouvir repetidamente generais e assessores militares nos tempos da ascensão do bolsonarismo após impeachment da presidenta Dilma Rousseff, colunistas e apresentadores absorveram, muitas vezes sem perceber, a cosmovisão e o jargão da caserna:

Termos como “zero possibilidade”, “situação pacificada”, “imparável” ou “missão aceita é cumprida” etc. apenas refletem uma mentalidade militar pautada pela hierarquia, pelo controle de danos e pelo comando centralizado.

Um glossário em sua natureza antidemocrático, porque em política quase nada é “zero” ou “pacificado”, pois a negociação é contínua e fluida. Contudo, o jornalismo passou a adotar essas categorias rígidas para definir o clima político.

De repente testemunhamos a substituição da negociação pela “Tática de Campo”: A atividade política parlamentar — que envolve barganha, concessão e mediação — passa a ser narrada como uma operação militar de ocupação de terreno. Um projeto aprovado no Congresso não é fruto de coalizão, mas de uma “situação pacificada”; uma candidatura viável vira um “trator imparável”.

Ambos os fenômenos convergem para um mesmo resultado: a erosão da linguagem política clássica e da esfera pública – para além da privatização dessa esfera pelas redes sociais das Big Techs, a própria erosão discursiva.

Em outras palavras, a destruição da democracia burguesa clássica.

De um lado, a onguização retira a carga de denúncia do vocabulário social, tornando-o asséptico e técnico. Do outro, a militarização da linguagem jornalística reduz a política a uma planilha de combate, em que posições são “pacificadas” ou “neutralizadas”.

O debate público perde, assim, a capacidade de nomear as coisas pelo seu nome e de enxergar a política como o espaço da mediação de interesses conflitantes de uma sociedade livre.

Enfim, tanto a onguização da linguagem como a militarização da linguagem política criam os pressupostos semióticos para a destruição de uma esfera pública consensual.

Consenso, claro, que sempre foi ideológico – uma forma de ocultar a luta de classes e a exploração.

Porém o que temos hoje é o cínico realismo: a assunção da impossibilidade de qualquer consenso, não pela consciência da luta de classes. Mas pela hipernormalização semiótica.

A Militarização do Léxico: A política como “Operação Cognitiva”

Uma das premissas da guerra híbrida é a dissolução da fronteira entre paz e guerra, civil e militar. Quando o jornalismo político absorve a gramática da caserna (“tropa de choque”“operação de guerra”“blindagem”“fogo amigo”), ele realiza uma operação cognitiva específica:

  1. Validação da Lógica da Exceção: Ao tratar a negociação parlamentar ou a formulação de políticas públicas como “operações de guerra”, o jornalismo naturaliza a ideia de que a política funciona sob lógica de emergência e sobrevivência tática, e não de debate democrático.
  2. Militarização da Mente”: A linguagem molda a percepção. Se o leitor/eleitor é bombardeado com termos táticos militares diários, ele passa a enxergar as instituições democráticas não como espaços de mediação de conflitos legítimos, mas como campos de batalha onde a oposição deve ser “neutralizada” ou “pacificada”.
  3. Vetor Involuntário de Guerra Psicológica: A imprensa, ao reproduzir o jargão dos atores militares que ocuparam o poder, entrega a esses grupos o controle do frame (enquadramento) da notícia. A política deixa de ser avaliada por seus resultados sociais e passa a ser julgada por sua eficiência tática.

A “Onguização”: a “bomba semiótica” da despolitização

Se a guerra híbrida usa a polarização e a gramática militar no topo das instituições, ela também depende do amortecimento das tensões sociais na base. É aqui que a onguização atua como um dispositivo de contenção de danos e disputa de narrativa.

Num trabalho de sinergia com as estratégias de guerra híbrida:

  • A Captura Semiótica do Conflito: No vocabulário da luta de classes tradicional, termos como “pobreza”, “exploração” e “desigualdade” trazem embutidos a exigência de reformas estruturais e apontam culpados (o capital, o Estado omisso). Quando esses termos são substituídos por “vulnerabilidade”, “situação de rua” ou “acolhimento”, ocorre uma operação de neutralização semiótica.
  • Desarmando a Resistência: A “vulnerabilidade” é um estado amorfo; não há contra quem lutar ou quem responsabilizar diretamente. A pobreza passa a ser tratada como um “risco gerenciável” por políticas de mitigação ou ONGs.
  • A Narrativa do “Gerenciamento Técnico”: Na disputa de narrativas, a onguização retira a periferia e a população marginalizada do papel de sujeito político (com capacidade de revolta ou organização) e a coloca no papel de objeto passivo de assistência.

Wilson Roberto Vieira Ferreira – Mestre em Comunicação Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi. Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no “Dicionário de Comunicação” pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e dos livros “O Caos Semiótico” e “Cinegnose” pela Editora Livrus.

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Wilson Ferreira

Wilson Roberto Vieira Ferreira – Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi.Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no “Dicionário de Comunicação” pela editora Paulus, e dos livros “O Caos Semiótico” e “Cinegnose” pela Editora Livrus.

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