2 de outubro de 2026

Por um Manifesto da Amizade no limite da hiperguerra eleitoral, por Ronaldo Queiroz

Obviamente, a democracia lança sobre nós algum grau de rivalidade, visto que significa discussão e conflito político na praça pública.
Jair Bolsonaro “Fuzilar Petralhada”

O extremismo bolsonarista ameaça a democracia brasileira com ligações ao autoritarismo e crime miliciano.
Bolsonaro é visto como inimigo de guerra, travando hiperguerra política contra o campo democrático no país.
Eleições de 2026 exigem resistência para recompor laços civis e votar contra o fascismo dos trópicos.

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Por um Manifesto da Amizade no limite da hiperguerra eleitoral

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por Ronaldo Queiroz

Um monstro ameaça a democracia brasileira: o extremismo bolsonarista. Mesmo com a parcimônia crítica, a mídia dominante, tradicionalmente golpista, demonstra medo frente ao horror da perspectiva de êxito político do bolsonarismo, visto que as ligações perigosas desse fascismo tropical com o novo colonialismo, o autoritarismo e o crime miliciano são públicas e obscenas. Além disso, há uma enorme luta de resistência política nas ruas e nas redes sociais para espantar a assombração que insiste em jogar os avanços civilizacionais da Nova República e dos governos do Partido dos Trabalhadores no caldeirão do inferno colonial.

O monstro é real – de carne e osso – e tem travado uma hiperguerra política contra o campo democrático do país. Nós não somos identificados pelo bolsonarismo como outro corpo ideológico que deve ser superado pelo debate político, porque somos percebidos como inimigos de guerra e, assim, empurrados ao campo de batalha das redes sociais e das vias públicas. O extremismo de direita trava, ordinariamente, uma hiperguerra política, na qual o outro deve ser eliminado do território nacional. A imagem de Bolsonaro no palanque eleitoral com uma arma de guerra para eliminar “petistas” é o quadro hiper-realista do fascismo dos trópicos, que corrompe a política e a própria democracia brasileira. Nessa paisagem sombria, é impossível a amizade política, ou seja, laços solidários na diversidade de pensamento acerca do futuro do Brasil.

Somos humanos e é na concretude da existência que constituímos nossas redes de práticas de solidariedade e proteção. Como seres sociais, tecemos ordinariamente teias que nos ligam uns aos outros. A política é uma relação de amizade, de conflito de ideias, jamais de guerra de todos contra todos no território nacional. É nesses termos que o homem é um ser político. A pertença comunitária nos faz pensar e agir para a proteção da sociedade, dos grupos minoritários e da nação. Enfim, fazemos política para a proteção dos direitos humanos e da boa convivência na cidade. Sem o respeito à alteridade política, não há amizade nem cidadania.

São amigos, segundo Jean-Pierre Vernant, aqueles com os quais temos coisas essenciais em comum, isto é, pessoas com as quais dividimos lembranças, valores e um enorme vínculo de igualdade e de compartilhamento de identidade nas diferenças. Enfim, a amizade corresponde às vivências de participação com os outros em plena relação de troca igualitária. A relação de amizade com o bolsonarismo constitui uma troca impossível, pois somos o inimigo de guerra a ser, imediatamente, exterminado.

Obviamente, a democracia lança sobre nós algum grau de rivalidade, visto que significa discussão e conflito político no interior da praça pública. Ela cria as condições para uma divisão de rumos, porém com o propósito de assegurar as melhores condições de existência das diferenças da comunidade no futuro. Logo, a transformação do pleito eleitoral em campo de batalha militar desfaz os laços de amizade que nos fazem agentes políticos. Há uma ofensiva de guerra ideológica da extrema-direita bolsonarista que força o rompimento dos laços de amizade e da vida comunitária nacional.

Diante da ameaça belicosa do bolsonarismo, as eleições de 2026 exigem de cada cidadão brasileiro uma postura de resistência política a fim de recompor os laços civilizatórios de amizade, pois o povo brasileiro precisa, nesse momento de crise estrutural do capitalismo tardio, de pão, paz e trabalho. O voto contrário ao bolsonarismo é em Lula, que hoje, sem dúvida, representa a união de todos os brasileiros contra o fascismo dos trópicos, pois temos tudo a perder em face do iminente risco eleitoral do monstro bolsonarista — principalmente nosso sagrado e moderno direito à amizade na diversidade.

Ronaldo Queiroz de Morais – Doutor em História Social – USP

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