21 de maio de 2026

Depois da barbárie da Polícia no Rio, Gaza é aqui? Um debate imoral para o País, por Ronaldo de Morais

Vivemos tempos difíceis, em que a espetacularização da violência nas infovias aciona o fenômeno pânico e o pior de cada um de nós.
Antônio Carlos Costa, presidente da ONG Rio de Paz, pediu a responsabilização do governador Cláudio Castro pela tragédia. Agência Brasil Foto: antoniocarloscosta/Instagram

▸Chacina no Rio de Janeiro gera debate sobre violência estatal e fascismo no país, com mais de uma centena de mortos expostos publicamente.

▸Operação policial no Rio de Janeiro levanta questões sobre o uso da máquina de guerra contra a população civil, sem distinção entre guerreiros e civis.

▸Editorial do jornal Estado de São Paulo questiona a legitimidade do uso da violência estatal contra organizações criminosas, gerando debate nacional.

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Depois da descarga de barbárie da Força Policial no Rio de Janeiro, Gaza é aqui? Um debate imoral para o País

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por Ronaldo Queiroz de Morais

Sem dúvida, é difícil pensar e, principalmente, tecer palavras que ultrapassem o horror, o horror do acontecimento de 28 de outubro, daquela terça-feira cinza que se estendeu como um duro golpe à civilização democrática brasileira. Francamente, foi uma operação de guerra irregular travada por um Estado Suicidário que arrastou policiais, criminosos e, sobretudo, cidadãos inocentes às veredas da morte. O acontecimento macabro com o saldo que ultrapassou uma centena de corpos inertes expostos publicamente, sem o controle e a proteção do poder público, acentua a descarga relâmpago de violência estatal suicidária aplicada no território nacional. É fragmento da hiperguerra que corrompe a polícia e militariza a população civil. Graças ao fenômeno pânico forjado, cotidianamente, nas redes sociais, o imaginário de fobia ao criminoso real é potencializado e a sociedade toma a forma imediata de massa atemorizada e pronta para apoiar a barbárie, em nome da sacrossanta paz civil.

Nessa contextura de medo, afloram as flores do mal do fascismo como alternativa político-partidária a fim de impor a ordem sobre todos nós. Assim, em vez do colapso da segurança pública, sobreleva uma mutação perigosa no aparelho de repressão, que ameaça banalizar o exterminismo nas favelas do país. A batalha campal da força policial do estado do Rio de Janeiro, descarregando violência total sobre a facção criminosa Comando Vermelho, desfez completamente o enorme poder militar atribuído, por autoridades e pela mídia tradicional, aos criminosos, pois a derrota foi, mais uma vez, rápida e acachapante. Mas, Gaza é aqui? Eis a questão imoral que temos que excluir do debate público.

Saliento que o Estado Suicidário não registra, exclusivamente, o delírio de políticos irresponsáveis de extrema direita, ou melhor, gente devota de afeto subalterno ao bolsonarismo. Ele compõe uma burocracia complexa que transborda a mentalidade perturbada desse fascismo dos trópicos, pois, também, consigna elementos sociológicos e políticos de um projeto de poder no limite escatológico do Capitalismo Tardio. Dito instrutivamente, a máquina de guerra suicidária está azeitada para atuar contra os corpos indesejáveis do tempo presente, sujeitos descartáveis que devem perecer para o sistema sobreviver enquanto o fim se aproxima. É o que explica o uso e abuso da violência bruta, alegadamente contra os criminosos pobres e pretos, enquanto dormem seguros, em condomínios de luxo, os criminosos super-ricos do tráfico de armas e de drogas.

Não é tudo. O fato não encerra em si mesmo a hipocrisia da coisa, posto que revela a própria lógica imoral do capitalismo neoliberal, que aproxima o mercado financeiro do capital criminoso do comércio de drogas. É nesse sentido que é possível inferir que a operação policial violenta nos territórios miseráveis é antes uma ação “eficiente” de exterminismo de pobres e pretos do que de proteção da sociedade civil frente ao crime organizado. Visto que há um enorme exército de reserva composto por uma massa de jovens à margem da cidadania que, por sua condição existencial, estão prontos para o labor criminoso do tráfico de drogas.

O jornal Estado de São Paulo, em editorial do último dia do mês de outubro, apresenta, ainda no calor da operação policial do Rio de Janeiro, uma questão que exige debate nacional, por julgar ser crucial para o país. Grosso modo, a questão foi posta da seguinte forma: as facções criminosas são caso de polícia ou são organizações criminosas compostas por inimigos de guerra? Melhor dizendo, vamos utilizar a lógica do Estado de Direito ou do Estado de Guerra para combater os criminosos do Primeiro Comando da Capital e Comando Vermelho? O editorial é um importante documento que anuncia uma inflexão na percepção da utilização do monopólio da violência no espaço nacional. Ele libera, sem freios, o debate que visa legitimar a endocolonização dos territórios empobrecidos das cidades brasileiras e, também, torna legítimo o debate acerca do emprego da máquina de guerra contra os próprios nacionais. É uma questão obscena e, portanto, imoral. Na verdade, está propondo um debate irresponsável. A máquina de guerra de uma nação é inapropriada para uso no espaço urbano contra a própria população. Uma guerra no território urbano é irregular, porque excepcionalmente não pode fazer distinção entre guerreiros e a população civil.

É por isso que as Nações-Império recorrem à guerra irregular, exclusivamente, no território alheio. O Estado norte-americano e o de Israel são exemplos contundentes, quando tomaram militarmente Bagdá e a Faixa de Gaza. O volume expressivo de civis abatidos covardemente, em nome da guerra ao terror, torna desnecessário seguir novas linhas de exame crítico. Cabe ao jornal esclarecer e civilizar os leitores do país, pois a guerra é, somente, posta como ato de defesa nacional em face de ameaça externa, jamais contra brasileiros. É um debate absurdo, porque transporta o país para uma guerra civil, niilismo nefasto que está no núcleo do fascismo dos trópicos de linhagem bolsonarista. É urbicídio, destruição das periferias das cidades e da própria cidadania, conduzido por uma política do pior que reverbera violência de um Estado Suicidário. A propósito, o debate necessário e urgente, isto é, o debate crucial, deve, em contexto de esbatimento da democracia e do Estado de Direito, ser travado na margem que bifurca civilização e barbárie.

A escolha pela adoção da guerra civil compromete, efetivamente, a conversão da população em máquina de guerra, não permitindo nenhuma distinção entre o emprego da força bruta contra o inimigo externo – que ameaça a soberania nacional – e o criminoso interno, que impõe desordem social e demanda a utilização moderada da força de repressão policial. É a negação da diferença incontornável que polariza o Estado de Guerra e o Estado de Direito. Diferentemente da guerra entre Estados, a guerra irregular consta como perversão do combate militar. Ela opera abaixo das leis tradicionais de combate militar, de forma que é impossível aplicar a força de destruição nas vias urbanas demasiadamente livre do imenso dano colateral sobre inocentes civis. O crime de tráfico de drogas é objeto de combate policial, por meio de uma burocracia técnica de segurança pública com a expectativa de baixa letalidade. Nem mesmo os Estados Unidos, país com maior volume de tráfico e consumo de drogas do planeta, instalam violência de guerra contra seus próprios cidadãos. Lá não há nenhuma descarga total de violência, quer dizer, centenas de mortos empilhados em nome da “guerra às drogas”. Transformar o combate justo e necessário ao tráfico de drogas em guerra é incivilizar o Brasil, impondo uma faixa de Gaza em cada favela brasileira.

Além disso, é impossível negligenciar os elementos geopolíticos, uma vez que toda a guerra, sobretudo a hiperguerra, emerge impondo violentamente uma ideologia discursiva universal. A nova doutrina da Nação-império aplicada sobre a América Latina intenciona a transformação do narcotráfico em narcoterrorismo sob o pretexto de ameaça à segurança nacional norte-americana. Todavia, o objetivo tático-estratégico é o de descarregar o pavor e o terror sobre a população local e, imediatamente, quebrar a soberania nacional em nome do combate ao NarcoEstado. Por isso, há um enorme esforço da extrema direita em renomear de narcoterrorismo o crime do tráfico de drogas. Enfim, converter o PCC e CV em um novo Hamas para, em seguida, operar com a mesma violência militar aplicada na Faixa de Gaza.

Em suma, se considerarmos uma operação policial de combate ao crime organizado como forma de guerra, então o direito de matar ou assassinar massas humanas está completamente liberado. Assim, como em Gaza, centenas ou milhares de mortos civis serão parte do efeito colateral da máquina de destruição estatal. O combate ao crime das facções do tráfico de drogas como guerra irregular, ou melhor, como beligerância por todos os meios, desencadeia a militarização da vida cotidiana e a absoluta imposição de uma guerra civil sobre o território periférico de baixa cidadania. Espaço sensível de profunda desigualdade socioeconômica, no qual a descarga de violência estará liberada legalmente, como é da própria natureza das guerras irregulares de exterminismo.

Vivemos tempos difíceis, em que a espetacularização da violência nas infovias aciona o fenômeno pânico e o pior de cada um de nós. A incivilidade da Pátria Verde e Amarela, que tem raízes firmes e profundas na escravidão, está exposta por meio da obscena validação da barbárie construída pelo Estado Suicidário. As pesquisas de opinião capturam a emoção patológica de um público que celebra a morte de centenas de seres humanos empobrecidos, como se fosse um gol da seleção brasileira em uma final de Copa do Mundo. A naturalização da barbárie – expressa nas postagens inflacionadas por robôs – já contém a expectativa da substituição do cidadão pelo cibersoldado insensível e disciplinado, posto que reflete a emoção de uma massa militarizada e apaixonada pela destruição da vida humana. Dessa forma, a sincronização da emoção pública, como parte da máquina de guerra de exterminismo, pressupõe o perigo do acontecimento que devemos evitar.

De fato, estamos diante de um novo quadro histórico, no olho do furacão de uma hiperguerra que opera por todas as vias comunicacionais para justificar o injustificável, com o objetivo de militarizar a opinião pública para estender a máquina de guerra contra a população civil pobre e preta do país. É a extensão do direito de matar, em nome da guerra fratricida ao narcoterrorismo. Em país de profundas raízes escravistas, revela uma política obscena de encolonização, ou seja, ocupação e destruição de território, que agrega enorme déficit de cidadania. O Estado Suicidário – máquina de guerra fascista – administra e opera sobre a sociedade civil com os mesmos propósitos experienciados por Hitler na Alemanha, isto é, por meio do fenômeno pânico provocado por bombas virais de contrainformação, que, imediatamente, geram uma guerra interna de todos contra todos.

Por fim, no Brasil, a máquina de guerra é, repetidas vezes, disposta contra os territórios ainda mais empobrecidos após décadas de flexibilização neoliberal. Estado Suicidário é o aparato burocrático que arrebata a sociedade civil à morte a partir da monstrualização do inimigo, ontem o comunista judeu e hoje o terrorista sanguinário que pode estar ligado ao narcotráfico ou à fé islâmica. A adesão política à guerra civil contra facções criminosas no jogo externo das relações internacionais, significa a corrosão da soberania nacional e no plano interno, representa a subtração das prerrogativas de cidadania aos grupos e classes subalternas e, igualmente, a torpe liberação de descarga total de violência suicidária sobre o povo brasileiro.


Ronaldo Queiroz de Morais – Doutor em História Social na Universidade de São Paulo -USP.

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