10 de junho de 2026

Patriotas e traidores no Brasil neoliberal, por Ronaldo Q. de Morais

Não é Trump que deve decretar o que é o melhor para o Brasil, mas os brasileiros identificados com a soberania e independência da nação.

Patriotas e traidores no Brasil neoliberal

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por Ronaldo Queiroz de Morais

Dado a gravidade da situação, eu não posso deixar de usar a palavra traidor da Pátria para me referir ao Eduardo Bolsonaro e ao próprio Jair Bolsonaro.
Ex-Embaixador Brasileiro Roberto Abdenur – Folha de São Paulo 04/08/2025

Faço uma leitura da pertença identitária nacional perante os últimos ataques advindos da Nação-império Americana contra a soberania brasileira a partir de Mark Twain no afã de navegar com segurança sobre o mar significante da palavra “patriota”. Isto é, reporto-me ao autor norte-americano que teceu crítica social e política aos laços patrióticos belicosos reproduzidos por ideologia imperialista, que arrasta, inexoravelmente, nações para a guerra em benefício do sacrossanto capital. Posto que o patriotismo imperante é produto direto do imperialismo que arrasta as massas ao campo de batalha. Ele refuta a utilização do espírito patriota para fazer a guerra imperialista norte-americana ao afirmar: “Eu me recuso a aceitar que a águia crave suas garras em outras terras”. Na conjuntura imediata, a águia norte-americana cravou suas garras novamente no Brasil e a reação predominante foi, surpreendentemente, a de retomada da chama nacional-popular registrada nos editoriais de jornais tradicionais e nas pesquisas de opinião. A Pátria em perigo – sob ataque de Trump – produziu importante despertar da identidade nacional-popular. Ao que tudo indica, estamos diante de um novo horizonte de luta política progressista baseado no nacional-popular – projeto de Brasil destruído pelo golpe militar de 1964 – que é fundamental retomar para a defesa e o desenvolvimento do país. Não é Donald Trump que deve – como imperador – decretar o que é o melhor para o Brasil, mas os brasileiros identificados com a soberania e independência da nação.

Nada de novo no front, perante o ataque, o patriota bolsonarista postou-se como traidor dos interesses nacionais. O movimento de defesa da soberania nacional não teve a adesão do patriota verde-amarelo, uma vez que ele representa adesão patriótica servil e abstrata com fortes raízes coloniais. Diante das sanções de Donald Trump à soberania brasileira, a postura dos representantes da extrema direita foi de completa alienação identitária-nacional. Ou melhor, o bolsonarismo retratou política impatriota com manifestações públicas de adesão à águia imperialista. É a exibição do patriotismo degenerado, fenômeno impossível de explicar descolado do impacto da dominação colonial e do efeito nocivo de décadas neoliberais de privatização do público e de enfraquecimento das instituições de bem-estar social. No imperialismo de expressão neoliberal, há forças de coerção e consentimento que operam no interior das nações e impõem políticas, amiudadamente, contrárias aos interesses nacionais. Em verdade, os interesses nacionais dissolveram-se nas últimas décadas. A privataria brasileira de FHC e o bolsonarismo fazem parte de um mesmo movimento, inclusive refletem o mesmo desejo político eleitoral. Em suma, o sujeito neoliberal totalmente submisso à ordem do capital que imagina a liberdade como lógica de mercado e desconfia da política coletiva dos partidos, sindicatos e movimentos sociais compõe a massa de soldados impatriotas do tempo presente.

Mark Twain nos apresenta dois tipos de patriotismo, o de caráter servil que postula a submissão incondicional à Pátria, ou seja, o patriotismo como abstração preso aos símbolos castrenses, monárquicos e imperialistas; e outro republicano, baseado na livre manifestação de pensamento, na soberania popular e, sobretudo, na postura anti-imperialista. É na contextura de ameaça nacional ou de postura imperialista que se manifesta o patriotismo servil contrário ao interesse nacional e, também, o patriotismo anti-imperialista de defesa da soberania da Pátria. O primeiro pode ser sintetizado para nós na expressão “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”, isto é, no alinhamento servil e colonial. Diferentemente da identidade verdadeiramente nacional e republicana que é acionada quando a soberania do país está em jogo por ameaça externa. É uma luta popular em defesa do interesse comum e da independência nacional. O escritor norte-americano vivenciou a criação das bases belicosas das Nações-império, conjuntura de incremento do militarismo e de preparação à Guerra Total. A contextura era de patriotismo pernicioso, em que o fanatismo nacional ameaçava a civilização moderna. E é essa tipologia patriótica que hoje retorna e ameaça as nações e a paz mundial. Nosso tempo, sem dúvida, é de litígio militar e de guerra por todos os meios. Portanto, é um momento oportuno para ajustar a coesão política interna à defesa nacional, dado que a extrema direita no estágio escatológico – de iminente guerra nuclear e de acidente climático – ameaça objetivamente a existência planetária. Concretamente, diferente da crise cívica vivida por Mark Twain, quando o imperialismo apresentava suas garras de águia, o século XXI marca uma crise civilizacional e planetária profunda, momento no qual a Nação-império arrasta, irresponsavelmente, os seres vivos para o fim. Ele é suicidário e concentra potência de destruição jamais existente na História.

Instrutivamente, em face da contaminação ideológica da palavra, qualifico o esforço de defesa da nação como movimento nacional-popular, deixando aos traidores da soberania brasileira a reputação xenófoba do fervor “patriota”, pois no Brasil o patriotismo, grosso modo, é o refúgio de ódio ao povo, igualmente, do golpismo e da transferência da riqueza nacional à Nação-império. Não há império sem seu outro subalterno, o território colonial sujeitado. Nele emerge um tipo específico de patriota, de consciência colonial e serviçal ao poder norte-americano. É por isso que há uma diferença tênue na gramática política brasileira que dificulta a identificação e o discernimento entre patriotas e traidores. Em substância, os nossos patriotas de extrema direita imaginam a Pátria como prolongamento do poder da Nação-império, tendo em conta que resistem à construção de uma nação livre, multicultural e popular. Mark Twain afirma que a alma e a substância do patriotismo servil é a covardia moral. De fato, a descarga de violência simbólica e material dos patriotas está centrada nos grupos sociais marginalizados e nos povos miseráveis ou sitiados pelo poder militar das Nações-império. Palavras do autor: “Em qualquer crise cívica grave e perigosa, o rebanho não se preocupa com os erros e acertos da questão, anseia apenas por ficar do lado vencedor”. Nesse sentido, faz parte da lógica do patriotismo servil – tanto o de matriz imperialista como o de inclinação colonial – a covardia moral. Os patriotas do Norte e os do Sul defendem a mesma pauta imoral, visto que são corpos de carne branca produzidos pela mesma matéria-prima social.

Efetivamente, há duas cartografias da nação brasileira, uma que insiste em encontrar novas margens de esperança e outra que impõe traços violentos de retorno à lúgubre paisagem de dominação colonial. Em realidade, o bolsonarismo que ameaça o Estado Democrático de Direito é parte das contradições da modernidade dos trópicos, dessa subserviência colonial à Nação-império posta como política patriota. De forma que o interesse nacional da Pátria Amada não deve colidir com a vontade política do Império Americano. O tirano do Norte não aplicou sua força imperial porque é angelical e sentimental com o réu Bolsonaro, mas porque a posição do Brasil nos BRICS ameaça os interesses americanos na região. Os Estados Unidos, além de proxy war, também fazem patriotismo por procuração. A imagem pública de lideranças de extrema direita fazendo uso ostensivo do boné vermelho “Make America Great Again”, de Trump, ilustra a subjetividade patriótica neoliberal. A absurda política de taxação às exportações do Brasil e o aparente recuo devem ser interpretados como uma declaração de hiperguerra ao Estado brasileiro, que consiste antes no disparo de ameaças nas redes sociais para provocar o agenciamento da emoção pública ao fenômeno pânico do que combate tradicional com uso de armas convencionais. O retorno à extrema direita bolsonarista ao poder político, objetivamente, recolocará o Brasil sob o campo de domínio norte-americano.

O patriota de carne e osso que veste verde-amarelo nas ruas e nas infovias digitais compõe um quadro de subjetividade singular, de importante ruptura com as marchas nacionalistas e anticomunistas do século passado. É rebento de décadas de neoliberalismo no país. Logo, não é o Estado-nação que cativa o afeto dos patriotas raivosos, já que expressam patriotismo de pertencimento ao mercado hegemônico. O Estado mínimo de bem-estar social produziu um sujeito novo, completamente cético acerca da importância de política pública como vetor de transformação da realidade brasileira. Não é tudo. O patriota ainda carrega uma longa tradição com raízes profundas no militarismo e no fundamentalismo religioso. Não há mito político de extrema direita distante do adestramento belicoso da sociedade e do jogo sagrado da fé. Afinal, Bolsonaro e Trump são percebidos como mito porque foram salvos por Deus, após o fracasso do Estado como escudo de proteção aos presidenciáveis. A forte concentração do rebanho patriota na esfera militar e religiosa, quer dizer, na população de personalidade autoritária, registra um perfil dominante. Mark Twain vivenciou os primeiros passos do horror desse patriotismo pernicioso e resistiu com as armas da crítica para proteger a bandeira norte-americana da desonra, abrindo trilhas de luta e cidadania. Imagino que devemos arrancar a nossa bandeira das mãos dos patriotas traidores para limpá-la da desonra impatriota de traição dos interesses coletivos nacionais.


Ronaldo Queiroz de Morais – Doutor em História Social na Universidade de São Paulo – USP.

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1 Comentário
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  1. Rui Ribeiro

    12 de agosto de 2025 2:11 pm

    “Cristão, marido, pai e patriota”: quem é o empresário suspeito de atirar e matar gari durante coleta de lixo
    Crime aconteceu no bairro Vista Alegre, na Região Oeste da capital. Renê Júnior dirigia um carro elétrico, modelo BYD, de cor cinza, quando atirou na vítima. Ele foi preso em uma academia do bairro Estoril”.

    Esse patriotário assassino deve ser Bostonarista. Que esse rato apodreça na cadeia.

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