10 de agosto de 2026

Opinião Pública é a Pior entre Todas as Opiniões, por Fernando N. da Costa

As pessoas costumam repetir o dito só para não ficarem de fora do grupo ou para parecerem aceitas. O pensamento vira um eco automático
Colagem de Pati Peccin - Reprodução

Pesquisas de opinião econômica enfrentam falhas em países polarizados e desiguais, distorcendo percepções reais.
Viés partidário e baixa participação afetam resultados, refletindo frustração política mais que dados concretos.
Comparações internacionais ignoram diferenças estruturais e PPC, comprometendo análise de riqueza e bem-estar.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Opinião Pública é a Pior entre Todas as Opiniões

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por Fernando Nogueira da Costa

Com base em reflexões sobre a validade metodológica de pesquisas de opinião, desigualdade social e comparações internacionais, organizo meus questionamentos de seus resultados em quatro eixos centrais.

O primeiro diz respeito a problemas técnicos das pesquisas de opinião sobre economia em países polarizados e desiguais. Em contextos de acentuada polarização política e disparidade socioeconômica, as pesquisas de confiança/opinião enfrentam falhas estruturais e elas minam seu poder preditivo, segundo Ruchir Sharma (FT apud Valor, 28/07/26)/

As pesquisas econômicas tradicionais atribuem peso igual a cada indivíduo (um entrevistado = um voto). No entanto, em economias altamente desiguais, o crescimento do PIB e o valor do consumo dependem desproporcionalmente dos estratos de maior renda.

Em termos de valor nominal, a maior parcela do consumo depende dos estratos de maior renda, devido à extrema concentração de riqueza. No entanto, em termos de Propensão Marginal da Consumir (PMC) e impacto econômico imediato, o consumo depende vitalmente das classes de menor renda, porque gastam quase toda a renda recebida.

O topo da pirâmide poupa muito, mas o valor absoluto gasto em bens de luxo, serviços de alto padrão, viagens e veículos supera o poder de compra somado de milhões de pessoas na base da pirâmide. Sustentam setores específicos como os de alta tecnologia, o mercado imobiliário de luxo e os serviços sofisticados dependentes do desempenho financeiro dos estratos mais ricos.

Os estratos mais pobres possuem uma PMC próxima de 90% ou mais. Como suas necessidades básicas não estão totalmente supridas, cada real adicional entrado em seus orçamentos é imediatamente injetado na economia através do consumo de alimentos, vestuário e utilidades domésticas.

O 1% mais rico possui uma PMC muito menor (abaixo de 25%). Como suas necessidades de consumo já estão plenamente satisfeitas, a maior parte de qualquer renda incremental é destinada à poupança em investimentos financeiros.

O consumo do topo é elevado e concentrado em poucos indivíduos. O da base é pulverizado, mas expressivo pelo volume de pessoas.

Por isso, se os 10% mais ricos respondem por metade do consumo, o pessimismo generalizado da maioria trabalhadora, caso seja afetada pela inflação de alimentos, por exemplo, fará a pesquisa indicar uma “sensação de recessão”, mesmo em caso dos gastos agregados e o PIB continuarem subindo.

Outro problema é uma queda nas taxas de participação. O absenteísmo e a recusa crescente em responder a pesquisas geram um viés de seleção na amostragem.

A parcialidade da cobertura midiática sem debate plural e a insatisfação gerada pelas mídias sociais provocam sentimentos de inadequação e um humor cronicamente pessimista. Este é um fenômeno de “pessimismo de percepção”, desconectado da ação prática de consumo ou votação do entrevistado.

Pesquisas corporativas costumam focar em grandes corporações, ignorando a crise de confiança vivida pelas pequenas empresas. Estas sofrem mais com choques inflacionários e de oferta.

Há também o problema do viés partidário nas respostas dos eleitores. Eles mudam drasticamente sua percepção das condições reais dependendo de quem está no poder. Em ambientes fortemente polarizados, a leitura da economia deixa de ser empírica e torna-se uma declaração de identificação ideológica.

Um exemplo marcante ocorre na avaliação da economia dos Estados Unidos sob diferentes mandatos.  Sob Joe Biden (2024), cerca de 70% dos democratas avaliavam a economia como “muito ou razoavelmente boa”, enquanto apenas 5% dos republicanos concordavam com isso.  Sob Donald Trump (2026), mesmo mantendo indicadores macroeconômicos (como inflação e desemprego) em patamares equivalentes aos de 2024, a percepção se inverteu radicalmente: a aprovação da economia saltou para 70% entre os republicanos e desabou para 5% entre os democratas.

Esse viés confirma: as pesquisas de opinião passaram a capturar a frustração política ou lealdade partidária, em vez de refletir com precisão a realidade material ou os comportamentos financeiros efetivos dos cidadãos. Isso aparece no paradoxo “o eleitor manifesta pessimismo, mas compra um carro novo”…

Um exemplo doméstico está na pesquisa de intenção de voto (estimulada) como a feita pelo Nexus-BTG-Pactual (7ª. Rodada). Lula recebe apoio de 47% das mulheres e 37% dos homens. No caso destes, é pouco menos do Tariflávio (39%), mas só 28% das mulheres apoiam o misógino. Será por conta de sua defesa do armamentismo e consequente feminicídio?

Entre os católicos, Lula vence por 49% a 27%. Entre os evangélicos, perde por 28% a 50%. Graças a Deus, o catolicismo ainda é predominante entre os brasileiros.

Outro questionamento eu faço a respeito do uso de dados de opinião e indicadores para comparar países com tamanhos territoriais, populações e dimensões de PIB muito discrepantes (como Brasil/EUA versus Países Nórdicos). Considero metodologicamente problemático se a escala da infraestrutura e dos problemas sociais for ignorada.

Países de escala continental (Brasil e EUA) enfrentam gargalos de mobilidade e infraestrutura urbana imensamente superiores aos de países menores. Dadas suas escalas, tempos de deslocamento diário em metrópoles no Brasil (43 min) e EUA (37 min) são muito maiores se comparados aos dos países nórdicos (24–26 min). Evidentemente, os engarrafamentos afetam o bem-estar e o estresse do indivíduo.

Soluções de políticas públicas, segurança, saúde e educação são mais fáceis de funcionarem em populações pequenas e homogêneas. Não escalam diretamente para países continentais e com condições regionais e urbanas desiguais sem enfrentar dinâmicas sociológicas e econômicas de complexidade muito maior.

Embora o impacto do estresse ou bem-estar seja medido individualmente (“sentiu estresse ontem?”) na pesquisa “Onde no mundo as pessoas se sentem menos estressadas?”, feita pelo WorldPopulationReview.com, correlacionar esses dados à infraestrutura urbana sem considerar a dimensão do país leva a conclusões distorcidas. O impacto individual depende do porte da aglomeração urbana.

O quarto questionamento se refere à problemática de comparar riqueza mediana e PIB Per Capita sem considerar a Paridade do Poder de Compra (PPC). Essas comparações entre indicadores econômicos agregados sem aplicar o ajuste por PPC é um erro metodológico severo.

As razões principais para esse problema são, primeiro, a ilusão criada pela taxa de câmbio de mercado e o “privilégio exorbitante”. Este é a vantagem única dos Estados Unidos de emitir o dólar como moeda global de reserva, financiar suas dívidas com custos menores e consumir mais além do produzido, emitindo sua moeda nacional e Treasuries, demandados pelo resto do mundo, para pagar seu enorme déficit comercial.

O PIB per capita ou a riqueza mediana, expressos simplesmente em dólares nominais, flutuam ao sabor da volatilidade cambial e do mercado financeiro global. Reflete mais a volatilidade das taxas de juros ou dos fluxos de capitais – e não o padrão de vida real das famílias.

A PPC corrige as distorções no preço dos bens e serviços não comercializáveis internacionalmente como aluguel, saúde, transporte e alimentação básica. Um PIB per capita de US$ 10.000 em um país em desenvolvimento como o Brasil, com baixo custo de vida local relativamente ao dos países ricos, pode garantir uma capacidade de consumo real (em PPC) superior ao mesmo valor nominal em uma metrópole de país desenvolvido.

Por fim, usar o PIB per capita (uma média simples) em países com alta concentração de renda esconde a realidade da população, pois poucos super-ricos elevam a média artificialmente. Riqueza mediana é o valor no qual se divide uma população em duas partes iguais: metade das pessoas tem um patrimônio acima desse número e a outra metade tem um patrimônio abaixo dele. Ela difere da riqueza média, calculada pela soma o total de dinheiro e divisão pelo número de pessoas, distorcida por bilionários.

A riqueza mediana reflete melhor a condição do “indivíduo do meio”, mas para comparar o poder de compra e o bem-estar real desse indivíduo entre diferentes nações, a conversão por PPC é indispensável. O consumo corrente, geralmente, é financiado pelo fluxo de renda (como salários, lucros, aluguéis e juros) e o estoque de riqueza acumulado (o patrimônio) pelos mais ricos pouco é usado para o consumo, porque é transformado em novos rendimentos por meio de investimentos como a capitalização por juros compostos (“juros sobre juros”).

Enfim, a realidade é complexa, pois emerge de sistemas não lineares, onde múltiplas variáveis interagem de forma dinâmica e imprevisível, gerando propriedades emergentes. Elas desafiam a medição exata.

Pequenas causas geram grandes efeitos (“efeito borboleta”). Propriedades emergentes tornam o todo diferente da soma das partes. Dada a interdependência em rede, elementos se influenciam mutuamente o tempo todo.

Diante da incerteza, há limites da medição. Observadores com seus vieses mudam o medido. Há falta de dados por ser impossível capturar todas as variáveis em tempo real. O sistema muda constantemente enquanto tentamos medi-lo.

As pesquisas de opinião pública espelham a pior das opiniões por causa da sua falta de profundidade, da forte tendência à repetição de lugar-comum e da facilidade com a qual costuma ser manipulada.

Em vez de analisar os fatos com calma, a opinião pública prefere ideias rápidas, fáceis e gerais. Assuntos difíceis exigem tempo e estudo, refutados pela maioria das pessoas porque não tem como (ou não quer) gastar no dia a dia.

Daí há o efeito manada com cópia de ideias alheias. As pessoas costumam repetir o dito por outros só para não ficarem de fora do grupo ou para parecerem aceitas. O pensamento vira um eco automático, perdendo qualquer valor de reflexão real e original ou crítica verdadeira.

Meios de comunicação, redes sociais, governos e religiões usam estratégias para moldar o pensado pelo povo, fingindo essa ser a vontade de todos. Pesquisas de opinião muitas vezes forçam respostas sobre temas os quais as pessoas não conhecem direito, criando uma “opinião”. Muitas vezes esta não passa de um reflexo do publicado pela mídia, ou seja, uma manipulação sob interesses de grupos controle externo.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

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Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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