Oto Doxo e Heitor Herético
por Fernando Nogueira da Costa
O economista com diplomacia e boa intenção, contra a polarização ideológica do país, organizou um grupo no Whatsapp, denominado Sociedade Brasileira para o Progresso da Política (SBPP), com membros desde um ex-presidente da SBPC até provocadores da direita antipetista. Nele, os participantes tiveram a oportunidade de acompanhar um raro debate público plural entre economistas.
O colunista Oto Doxo (sobrenome referente à opinião ou doutrina professada), graduado em Física e doutor em Economia, é herdeiro intelectual do germânico Otto von Fisco e obcecado por teto de gastos sociais. Prega só existir uma jeito certo de gerir a economia. Por isso, alguns colegas brincam com sua “ortopraxia” (agir de acordo com a doutrina correta), chamando-o de Oto Práxico.
Já o professor Heitor Herético é herdeiro intelectual do grego Héctor Hairetikós Esse sobrenome se refere a “aquele capaz de escolher” caminhos alternativos.
Jamais frequentaram os mesmos congressos, quando citam os mesmos autores é quase sempre para um criticar o guru do outro. Apesar de pesquisarem em escolas separadas por apenas duas letras (RJ e SP) nunca foram convidados para um debate presencial.
Não por falta de assunto.
Oto atua também em uma consultoria cujo nome evoca o princípio de confiança regulatória. Assume ser ortodoxo, neoclássico, conservador, porque é apegado ao mercado, à austeridade e aos modelos matemáticos da Ciência Exata de sua formação. Está profundamente convicto de toda a confusão causada pela irrealista (historicamente) meta de inflação de 3% ser resolvida por um bom modelo, caso o modelo seja o seu.
Heitor é heterodoxo, pós-keynesiano e progressista. Está igualmente convicto de todo modelo abstrato servir apenas para esconder a história, as instituições e os interesses de quem o construiu.
A imprensa nunca os colocou frente a frente. Optou por dar uma coluna ao aliado da Faria Lima. Considera mais seguro, para seus interesses, não publicar nada do desenvolvimentismo, seja nacional, social ou novo.
Oto escreve sempre sobre responsabilidade fiscal. Heitor refuta esse neoliberalismo, criticando nos portais de esquerda o rentismo. No citado SBPP, apareceu a polarização dos economistas, em surpreendente debate civilizado, porque os dois jamais haviam trocado sequer uma palavra.
Tal como na imprensa, a falta de pluralismo das universidades tampouco ajudava. Oto era convidado só para seminários onde todos concordavam com ele. Heitor participava de mesas onde todos já discordavam previamente de Oto.
O grupo de WhatsApp, criado por um amigo de todos, poderia se chamar Economistas pela Civilidade. Afinal, propiciou os dois finalmente se encontrarem.
O grupo tem 202 integrantes e apenas ½ dúzia de participantes ativos no debate. Os demais limitam-se a visualizar as mensagens, compartilhar links de seus artigos e, no máximo, enviar provocações aos adversários políticos.
Porém, alguém publicou a notícia sobre a manutenção da taxa Selic em nível disparatado. Colocou a taxa de juro real do Brasil como a maior do mundo.
Oto foi o primeiro a comentar: — A taxa de juros é o preço capaz de equilibrar poupança e investimento. Um país com baixa poupança, elevado risco fiscal e expectativas desancoradas não pode desejar “juros suíços”.
Heitor leu a mensagem. Não resistiu ao furor e escreveu: — A Selic não é obedece à oferta e demanda como o preço de uma mercadoria. É fixada pelo Copom. Portanto, não é “o preço natural da poupança escassa”. Este juro básico de referência é uma decisão institucional e discricionária.
Oto digitou: — Discricionária não significa arbitrária. Significa uma ação com a liberdade de escolha permitida e regulada pela lei, enquanto arbitrária significa uma ação sem respeito às regras, feita por capricho ou abuso de poder. O Banco Central reage à inflação esperada, ao hiato do produto, ao risco e à credibilidade, portando, à consagrada Lei da Oferta e da Demanda!
Heitor respondeu: — Credibilidade de quem para quem?
O grupo ficou sem se manifestar por quarenta segundos. Era um silêncio longo para o WhatsApp.
Oto enviou um áudio explicativo como os ouvintes fossem crianças. — A taxa básica precisa ficar bem acima da inflação esperada para conter a demanda agregada e atingir a meta. Juros maiores reduzem o consumo presente, estimulam a poupança e esta propicia os investimentos produtivos. Sem isso, teremos inflação acima de 3%, fuga de capitais e desorganização econômica.
Heitor não ouviu o áudio. Usou a transcrição automática e respondeu por escrito:
— Sua teoria supõe existir um volume prévio de poupança a ser disputado entre investidores. No sistema bancário, o crédito cria depósitos, ou seja, multiplica moeda e renda. O empresário não espera o povo deixar de consumir para conseguir financiar suas compras. O banco concede o empréstimo, cria o depósito em conta corrente e administra suas necessidades de liquidez, captando novos depósitos.
Oto reagiu imediatamente: — Isso não cria recursos reais. Não se constrói uma fábrica com lançamentos contábeis.
— Nem uma família se alimenta guardando todo o dinheiro na caderneta de poupança — respondeu Heitor. — O investimento mobiliza trabalho e amplia capacidade produtiva. Ao gerar renda, cria também a poupança correspondente.
Oto escreveu a função I = f(S) e acrescentou: — É matemática a necessidade poupança [saving] para haver investimento.
Heitor respondeu com o circuito de retroalimentação do crédito: Crédito → Investimento → Renda > Consumo → Poupança → Capitalização → Funding → Crédito. E acrescentou: — Logo, o investimento gera a renda da qual surge a poupança.
Um terceiro economista do grupo enviou apenas um emoji de surpresa. A discussão teria permanecido abstrata se Heitor não tivesse introduzido a jabuticaba. — Vamos testar as teorias no Brasil. Quando o Banco Central aumenta a Selic, o detentor de títulos pós-fixados empobrece?
Oto hesitou por alguns segundos. — O aumento dos juros reduz o preço dos ativos e produz efeito riqueza reverso. Famílias mais pobres consomem menos porque o crédito encarece. Famílias mais ricas reduzem gastos porque seu patrimônio perde valor.
Heitor respondeu: — Qual patrimônio perde valor?! O Tesouro Selic? O CDB atrelado a 100% do CDI? O fundo DI? O título pós-fixado passa a render mais. Em vez de empobrecer o rentista, a alta da Selic aumenta sua renda financeira.
— Há marcação-a-mercado — retrucou Oto. E risco de a taxa de inflação superar a taxa de juro prefixada. Isto sem falar do risco do calote do Estado perverso!
— Parcialmente, sim. Mas quase metade dos títulos de dívida pública é composta por pós-fixados. O credor ganha mais juros. O devedor paga mais juros. O governo transfere mais rendimentos em juros aos detentores de sua dívida.
Oto escreveu: — Mesmo assim, o consumo cai.
— Pode cair — admitiu Heitor. — Mas não necessariamente pelo efeito riqueza ensinado nos manuais. Cai porque o crédito aos consumidores fica caro, a renda dos endividados diminui, o investimento desacelera e a renda é transferida para pessoas mais ricas com baixa propensão a consumir com seu estoque de riqueza.
— Está admitindo a eficácia da política monetária.
— Estou negando sua explicação universal e lamentando seus impactos sociais.
— Detalhe semântico.
— Diferença causal.
Concordaram em apenas dar uma pausa para reflexão antes de prosseguirem.
Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected].
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário