21 de julho de 2026

Debate sobre Causas da Inflação Brasileira, por Fernando Nogueira da Costa

Raro debate plural sobre os determinantes das altas taxas de juros e da inflação no Brasil, confrontando visões técnicas e ideológicas.
Reprodução

Debate no Brasil contrapõe visão fiscalista de inflação à análise institucional e política da taxa Selic elevada.
Inflação atual é baixa (4,64% em 12 meses), mas juros reais altos refletem conflito distributivo e estrutura financeira.
Proposta aponta necessidade de regras fiscais e análise integrada para entender singularidade da economia brasileira.

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Debate sobre Causas da Inflação Brasileira

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por Fernando Nogueira da Costa

Um interessante debate (pelo menos para economistas) é sobre a causa da atual (baixa) inflação. Aconteceu um raro debate plural, em um grupo de Whatsapp, sobre os determinantes das altas taxas de juros e da inflação no Brasil, confrontando visões técnicas e ideológicas.

De um lado, Samuel Pessoa argumentou o desequilíbrio fiscal e o excesso de demanda sobre a oferta como as causas fundamentais de forçarem a manutenção de juros elevados. Em contrapartida, Maurício Luperi e eu sustentamos a taxa Selic possuir uma natureza institucional e política, funcionando como uma ferramenta de transferência de rendimentos financeiros acentuadora da desigualdade.

Pessoa sustenta a taxa básica de juros (Selic) ser calibrada em função do excesso de demanda agregada vis-à-vis a capacidade de oferta. Para ele, a inflação surge quando a economia opera sistematicamente com uma procura superior à base material de recursos.

Um dos argumentos centrais de Pessoa é o gasto público ser o componente da demanda possível de ser controlado diretamente pelo governo. Ele utiliza como métrica o excesso da taxa de crescimento do gasto primário real sobre a taxa de crescimento real da economia. Quando o gasto cresce mais rápido diante do PIB, ele pressiona a base de recursos, obrigando o Banco Central a elevar os juros para evitar a aceleração da inflação.

O economista neoclássico aponta as políticas de valorização do salário mínimo acima da produtividade, especialmente, quando indexam benefícios sociais, gerarem uma pressão permanente sobre a economia. Embora reconheça méritos sociais nessas políticas, lamenta elas gerarem consequências inevitáveis para o desequilíbrio entre oferta e procura.

Pessoa argumenta o Brasil possuir uma das menores taxas de poupança do mundo e um dos maiores gastos com Previdência Social (12% do PIB). Essa combinação obrigaria o país a recorrer à poupança externa. Somado ao risco-país, elevaria o custo de capital e a necessidade de juros maiores para equilibrar o mercado.

Critica a fraqueza dos canais de transmissão da política monetária. A inflação seria difícil de combater no Brasil porque a política monetária tem baixa potência, devido à estrutura da dívida pública e ao crédito direcionado pelos bancos públicos. Como grande parte da dívida (LFTs) é indexada à Selic, o aumento dos juros não gera uma “queda da riqueza financeira” pela marcação-a-mercado, como ocorre quando os juros são prefixados, como no exterior.

Desse modo, não reduz o consumo, pois o valor presente dos títulos não se altera em quase metade da dívida pública. Isso exigiria o ciclo monetário ter uma amplitude maior (juros muito mais altos) para surtir efeito.

Para Pessoa, a solução para “juros civilizados” e inflação baixa de longo prazo não é discricionária, mas institucional: a construção de regras fiscais capazes de garantirem o gasto primário crescer em velocidade igual ou inferior ao ritmo da economia por muitos anos seguidos.

Diante dessa proposta de retroalimentação estagnante, pedi licença para dar meus pitacos. Baseei-me na abordagem da complexidade da inflação, emergente das interações de diversos fatores – e não em um reducionismo binário entre demanda e oferta.

Inflação de demanda só ocorre na fase do ciclo com plena ocupação da capacidade produtiva. Nessa circunstância temporal, de fato, aumento do gasto público  pressionaria a demanda agregada diante de uma oferta agregada dada.

Fora dessa fase cíclica, a manutenção do argumento de “pressão de demanda” somente penaliza os consumidores mais pobres dependentes de salário-mínimo e crédito. O lobby midiático para o Banco Central do Brasil manter uma taxa de juro real, calculada em torno de 9,67% ao ano, no topo do ranking global, superando países em guerra (ou próximo de) como a Rússia e a Turquia, só se justifica para maior enriquecimento dos recebedores dos juros pós-fixados no país.

Dei um exemplo de capital financeiro aplicado em CDB 100% CDI, no limiar do segmento Private Banking: R$10.000.000 x 0,01163 = R$116.300,00  Este é o ganho mensal com a taxa de juros de 14,25% ao ano. É um bom “salário”, né? R$116.300/22 = R$5.286,36  é o ganho por dia útil pois o juro trabalha na escala 5×2.

Existe um pacto social, via dívida pública, para cobrir os encargos financeiros com  o maior enriquecimento da elite e os gastos sociais (INSS, BPC, BF etc.) com os mais pobres. Em sociedade desigual e antagônica, ameniza o conflito distributivo.

Há ainda o argumento dos juros elevados evitarem o Brasil virar uma Argentina com a dolarização, provocada por potencial fuga de capitais, se as famílias mais ricas não forem satisfeitas em suas ganâncias. Ao contrário, ao apreciar a moeda nacional, diminui “a inflação importada”, em uma economia desnacionalizada e/ou globalizada, dependente de insumos (por exemplo, fertilizantes), máquinas e equipamentos importados. Agora, importa até automóveis eletrificados.

O IPCA atual acumulado em 12 meses foi em 4,64% em junho de 2026. Em comparação com a média histórica do século XXI, em torno de 5,55% ao ano, o índice atual encontra-se em patamar inferior, refletindo uma inflação sob controle.

Deixou de ser o principal problema brasileiro. Este passou a ser a “estagdesigualdade” = estagnação do fluxo de renda (e consequentemente da arrecadação fiscal) + concentração do estoque de riqueza.

Há necessidade de crescimento da dívida pública, para cobrir os próprios encargos financeiros, em processo de retroalimentação. Vale conferir os Programas Orçamentários com maiores despesas: Refinanciamento da Dívida Interna 27%; Serviço da Dívida Interna (juros e amortizações) 19%; Previdência Social e Direitos da Cidadania 18%; Transferências Constitucionais 9%; Gestão do Poder Executivo (Pessoal e Encargos Sociais) 6%; Outros 20%.

Mas por qual razão ainda existe uma taxa inflação no Brasil, assim como em outros países do ocidente desenvolvido, mesmo sendo historicamente baixa?

Gradativamente, à medida do ritmo inflacionário, verifica-se um processo de substituição de indexadores e desalinhamento dos preços relativos:

1. indexador ex-post: em função do custo, para manter a margem de lucro histórica, diante de choques de oferta como quebras de safras e choques de petróleo;

2. indexador inercial: em função do índice geral de preços, para reposição das perdas passadas;

3. indexador aceleracionista: em função de um índice de preço-guia, para acompanhar a liderança de preços em seu nicho ou segmento de mercado;

4. indexador ex-ante: em função da expectativa de inflação, para a reposição futura dos estoques e a formação do preço a prazo, considerando o custo de oportunidade esperado;

5. indexador instantâneo: em função do dólar paralelo, para evitar defasagens como em caso de dolarização a la Argentina e hiperinflação.

Houve uma complementação a esse esquema, feita por Mauricio Martinelli Luperi (autor de Quando uma teoria deixa de ser hipótese e passa a ser verdade, por Maurício Luperi). Disse a respeito justamente do papel da institucionalidade monetária e financeira.

Além da complexidade dos mecanismos inflacionários, precisamos compreender melhor por qual razão o Brasil convive, há décadas, com uma das maiores taxas reais de juros do mundo. Para isso, Luperi acha ser necessário incorporar à análise elementos como o desenho do regime de metas de inflação, a governança do Banco Central, a formação das expectativas, a estrutura do mercado financeiro, o grau de concorrência bancária, a profundidade do mercado de capitais e os efeitos da própria financeirização sobre a transmissão da política monetária.

Nesse sentido, vê uma convergência com o modelo no qual juros, câmbio e inflação podem gerar “equilíbrios múltiplos”. Talvez possamos ampliar essa ideia para reconhecer esses equilíbrios instáveis ou passageiros também dependerem da arquitetura institucional da política monetária e financeira.

Luperi concorda quanto à inflação ser um fenômeno complexo. Apenas acrescentaria a persistência de juros reais extraordinariamente elevados no Brasil, justamente por ser emergente de interações entre múltiplos componentes, sua explicação exigir a integração de política fiscal, política monetária, estrutura financeira e instituições, além do conflito distributivo, tratado por mim. Nessas interações residem uma parte importante da singularidade da economia brasileira.

Não contemplei todos os seus corretos acréscimos, inicialmente, devido à pressa em escrever e postar. Mas, ele me permitiu acrescentar suas observações neste artigo-resenha a respeito do debate plural sobre as causas da inflação brasileira, pluralismo não encontrado no jornalismo econômico brasileiro.

Enfim, destacamos a necessidade de superar visões fiscalistas simplórias, propondo uma análise capaz de integrar complexidade sistêmica, conflito distributivo e arquitetura institucional para compreender a singularidade brasileira.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

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Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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