14 de julho de 2026

Crise Habitacional na Europa, por Fernando Nogueira da Costa

Sociedades envelhecidas tendem a priorizar estabilidade, proteger a riqueza acumulada e resistir a mudanças urbanísticas bruscas.
Espanha - Reprodução

Envelhecimento e financeirização elevam imóveis a ativos financeiros, intensificando a crise habitacional na Europa.
Juros baixos e política monetária pós-2008 impulsionam valorização imobiliária e especulação nos grandes centros urbanos.
Crise reflete desigualdade intergeracional e resistência política a medidas que reduzam preços e ampliem oferta habitacional.

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Crise Habitacional na Europa

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por Fernando Nogueira da Costa

O envelhecimento populacional e a financeirização patrimonial estão correlacionados à crise habitacional, em várias economias europeias, embora não sejam causas únicas nem atuem mecanicamente. Lá existe uma interação sistêmica entre demografia, patrimônio pessoal, política monetária, financeirização, urbanização, baixa oferta habitacional e transformação do Welfare State.

A habitação deixou gradualmente de ser vista apenas como bem de uso e política social para tornar-se também ativo financeiro estratégico de proteção patrimonial. Esse deslocamento é central.

O envelhecimento altera a função econômica da moradia. Em sociedades envelhecidas, as aposentadorias com Previdência Social com administração pública tornam-se pressionadas. Cresce insegurança sobre renda futura. As famílias buscam proteção patrimonial.

Nesse contexto, o imóvel passa a funcionar como reserva de valor, “previdência” informal, herança intergeracional, fonte de renda via aluguel e proteção contra inflação. Logo, a moradia torna-se instrumento de segurança social privada.

A financeirização amplia esse processo. No capitalismo contemporâneo, imóveis passaram a integrar portfólios globais de investimento.

Entraram no sistema financeiro os fundos imobiliários, os fundos de pensão, as seguradoras, o private equity, os investidores internacionais e as plataformas financeiras. Nesse circuito especulativo do capital fictício, diante da renda futura esperada, a moradia transforma-se de direito social em classe de ativo.

O ambiente de juros baixos, após 2008, foi decisivo no mercado imobiliário da Europa, bem como no mercado de ações nos EUA. Após a GCF 2008 [Great Financial Crisis], os bancos centrais europeus mantiveram juros muito baixos e liquidez abundante no período chamado de “afrouxamento monetário”.

Em consequência, títulos públicos rendiam pouco e investidores buscaram ativos imobiliários. Isso impulsionou a valorização imobiliária, a especulação contra o futuro incerto, a compra para investimento e  a concentração patrimonial.

O envelhecimento populacionnal aumenta a preferência por ativos seguros. Populações mais velhas tendem a evitar riscos excessivos, buscar a preservação do patrimônio familiar e manter uma renda estável.

Imóveis urbanos em grandes cidades europeias passaram a parecer ativos relativamente seguros, protegidos contra inflação e politicamente estáveis. Assim, poupança de gente envelhecida implicou em demanda patrimonial imobiliária.

O efeito intergeracional tornou-se enorme. Quem comprou imóveis, nos anos 1970–1990, em várias cidades europeias, acumulou enorme valorização patrimonial.

Já os jovens enfrentam preços muito mais altos, salários relativamente estagnados, crédito caro ou restrito, e aluguel elevado. Surge uma divisão entre proprietários patrimonializados locadores e locatários jovens excluídos do mercado.

A crise habitacional não decorre apenas de “falta física de moradia”. Esse ponto é fundamental. Em várias cidades, existem imóveis vazios, apartamentos como investimento especulativo, propriedades usadas parcialmente e imóveis turísticos (Airbnb). O problema é o acesso econômico e o uso social da habitação.

A financeirização altera os incentivos urbanos. Quando imóveis se tornam ativos financeiros, preços altos passam a interessar politicamente aos proprietários.

Governos evitam quedas bruscas de preços, tributação patrimonial pesada e expansão excessiva de oferta capazes de reduzir a valorização. Isto porque grande parte do eleitorado já é proprietário e depende do patrimônio imobiliário.

O envelhecimento reforça o conservadorismo patrimonial. Sociedades envelhecidas tendem a priorizar estabilidade, proteger a riqueza acumulada e resistir a mudanças urbanísticas bruscas. Isso reduz o adensamento urbano, a construção massiva, a reforma fundiária e a tributação imobiliária.

A imigração pressiona a demanda urbana. Ao mesmo tempo, imigração, concentração econômica e metropolização ampliam demanda por moradia nas grandes cidades. Isso ocorre, especialmente, onde empregos, universidades e serviços avançados se concentram.

O resultado é uma combinação explosiva entre oferta relativamente rígida, demanda crescente, crédito abundante, investimento patrimonial, juros baixos, financeirização global e envelhecimento e proteção patrimonial. Resulta em forte inflação imobiliária.

O caso europeu possui particularidades. Em muitos países europeus, o solo urbano é escasso, as regras urbanísticas são rígidas, a preservação histórica limita expansão e a construção pública diminuiu após os anos 1980–1990. Além disso, as privatizações neoliberais atingiram a habitação social e a austeridade fiscal enfraqueceu o investimento público.

O Welfare State, parcialmente, privatizou a segurança. Esse é um ponto estrutural profundo.

Quando aposentadorias na Previdência Pública se tornam menos generosas, o crescimento desacelera e, consequentemente, os empregos tornam-se mais precários, o patrimônio imobiliário torna-se o mecanismo privado de proteção social.

Assim, famílias investem mais em imóveis, governos protegem valorização patrimonial e bancos expandem crédito imobiliário.

Há um paradoxo político importante. A maioria do eleitorado, em vários países, já possui imóvel e beneficia-se da valorização especulativa.

Então, políticas capazes de reduzirem preços como construção massiva, tributação pesada sobre a propriedade imobiliária desocupada e controle de valorização fundiária enfrentam resistência política. Isto apesar de jovens, imigrantes e trabalhadores precários sofrerem fortemente com a crise.

A crise habitacional é também uma crise de modelo de acumulação industrial. Em muitas economias avançadas, o crescimento produtivo desacelerou, a produtividade cresce menos e os salários estagnaram.

Então, ativos financeiros e imóveis como acumulação de patrimônio pessoal tornaram-se as fontes centrais de enriquecimento. Isso desloca a economia da produção para a valorização patrimonial até em ativos globalizados, inclusive em países asiáticos e latino-americanos exportadores de commodities.

Portanto, envelhecimento e financeirização são claramente correlacionados, mas apenas parcialmente relacionados em termos causais. O envelhecimento aumenta demanda por segurança patrimonial. A financeirização transforma imóveis em ativos globais de valorização. Juntos reforçam a patrimonialização da moradia.

O resultado histórico é a moradia nas economias avançadas ter se tornado, simultaneamente, necessidade básica, ativo financeiro, previdência privada, herança familiar, mecanismo de desigualdade intergeracional e objeto de especulação global.

Essa multiplicidade de funções explica por qual razão a crise habitacional contemporânea é tão difícil de resolver apenas com soluções simples de mercado.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

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Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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