Confiança como Ativo Financeiro
por Fernando Nogueira da Costa
As investigações da Polícia Federal (PF) na Operação Miragem apontam o Banco Digimais ter utilizado um “modus operandi” análogo ao do Banco Master para fraudar seus balanços e ocultar sua real situação financeira.
As principais semelhanças entre as práticas das duas instituições, conforme os relatórios policiais e do Banco Central, incluem as seguintes entre outras condutas criminosas.
Primeira, o inflamento de balanços com ativos de difícil precificação. Ambas as instituições são acusadas de superavaliar ativos para aparentar solvência. No caso do Digimais, isso ficou evidente na manipulação de precatórios, onde ativos comprados por R$ 71 milhões foram reavaliados para R$ 741 milhões. em um curto período, inflando artificialmente o patrimônio do banco.
Segunda, a ocultação de insolvência e deterioração de crédito. O objetivo central das manipulações contábeis era esconder dos órgãos de controle a deterioração das carteiras de crédito e uma possível situação de insolvência. Com balanços aparentemente saudáveis, os bancos conseguiam continuar operando e captando recursos no mercado.
Terceira, a captação de liquidez via FGC. O modelo operativo utilizado pelo Master serviu como “paradigma” para o Digimais, baseando-se na cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para atrair investidores e “captar liquidez”, sustentando a operação mesmo sob risco financeiro.
Quarta, os títulos com rentabilidades desproporcionais. Para atrair capital e ocultar perdas, o Digimais replicou a prática de emitir títulos com rentabilidades muito acima dos indicadores de mercado, utilizando essas movimentações para manipular os demonstrativos contábeis.
Quinta, as operações com partes relacionadas. A PF identificou, mesmo após ordens do Banco Central para reverter reavaliações irregulares, o Digimais ter realizado a venda de cotas de fundos para sua própria controladora (BA Empreendimentos) com prazos de pagamento estendidos até 2032. Essa estrutura é vista como uma forma de manter o efeito da reavaliação no balanço sem a devida entrada de caixa, assemelhando-se a empréstimos vedados a controladores.
Portanto, as semelhanças imediatas residem no uso de artifícios contábeis complexos e superavaliação de ativos ilíquidos para manter uma aparência de robustez financeira. Não corresponde à realidade da instituição.
Entre semelhanças estruturais e equivalência de condutas, nos dois casos, aparecem conexões entre o mundo financeiro e lideranças ou redes religiosas. Mas não é correto concluir, apenas com base nisso, ambos terem utilizado a fé da mesma maneira ou para os mesmos fins. Isso exigiria provas específicas para cada caso.
É possível discutir, em termos de Economia Institucional e Sociologia Econômica, um mecanismo mais geral. A confiança é um ativo econômico. Os bancos vivem de confiança. As igrejas também vivem de confiança. Quando essas duas instituições se aproximam, podem surgir sinergias importantes.
Por exemplo: redução do custo de aquisição de clientes; fortalecimento da reputação da marca; maior fidelização; menor percepção subjetiva de risco por parte dos participantes. Isso vale não apenas para organizações religiosas, mas também para: cooperativas; sindicatos; associações profissionais; clubes; grandes empresas varejistas. Todos utilizam capital reputacional para vender produtos financeiros.
O aspecto delicado surge quando a confiança construída em uma esfera (religiosa, comunitária ou ideológica) é transferida para outra (financeira). Nesse caso, o cliente pode raciocinar: “confio nessa instituição religiosa, portanto, o produto financeiro também deve ser seguro.”
Essa inferência pode reduzir o senso crítico na avaliação de rentabilidade, riscos, garantias, governança e supervisão regulatória. Exatamente esse tipo de transferência de confiança merece atenção.
No caso do Digimais, existem investigações sobre a instituição e reportagens apontando sua ligação com Edir Macedo. As investigações ainda estão em andamento, e eventuais responsabilidades dependem de apuração e decisão judicial.
No caso do Banco Master, há investigações envolvendo Daniel Vorcaro e pessoas de seu círculo, inclusive seu cunhado, pastor ligado à Igreja Batista da Lagoinha. Também há notícias sobre relações familiares e financeiras com integrantes dessa comunidade religiosa.
Entretanto, isso não significa, por si só, a Igreja da Lagoinha ou seus líderes terem participado diretamente de irregularidades. Evidentemente, a igreja negou conhecimento de determinadas transações e afirmou colaborar com as investigações.
Sob uma perspectiva de Economia Política, talvez a questão mais interessante seja outra. Quando uma organização financeira utiliza uma comunidade baseada em confiança prévia — religiosa, profissional ou ideológica — para facilitar a aceitação de seus produtos, quais salvaguardas regulatórias são necessárias para assegurar a decisão do cliente continuar baseada em informação adequada sobre riscos e não apenas em vínculos de pertencimento?
Essa pergunta é geral e independe da religião envolvida. Ela vale igualmente para bancos ligados a igrejas, cooperativas de crédito vinculadas a categorias profissionais, fintechs associadas a influenciadores digitais ou plataformas financeiras promovidas por celebridades.
O ponto comum é a utilização do capital de confiança como mecanismo de redução do custo de captação de clientes. Isto é economicamente eficiente, mas também exige transparência e supervisão para evitar essa confiança substituir a análise racional dos riscos.
O caso Digimais é importante porque explicita uma fronteira sensível: quando confiança religiosa, reputação midiática (Edir Macedo é dono da TV Record) e intermediação financeira passam a operar no mesmo ecossistema simbólico.
Pelos fatos noticiados, a PF mira o Digimais em investigação sobre suposta gestão fraudulenta; a Justiça bloqueou até R$ 670 milhões; e a apuração teria como base relatórios do Banco Central sobre possível manipulação de demonstrações financeiras e registros regulatórios. O banco é ligado a Edir Macedo e ele tinha um acordo anunciado de venda ao BTG Pactual.
Edir Macedo converteu-se ao protestantismo evangélico aos 19 anos. Fundou a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), em 1977, e com esse empreendimento econômico-religioso se expandiu para mais de 150 países. Para consolidar seu império midiático e financeiro, adquiriu a TV Record em 1989, e tornou-se controlador do Banco Digimais. Possui um patrimônio estimado em cerca de R$ 10 bilhões.
O ponto central não é “o povo enganado e/ou doutrinado” nem a religiosidade popular. É o uso da confiança comunitária como ativo econômico. Em finanças, confiança é capital invisível: reduz a desconfiança inicial, encurta a diligência do cliente e transforma adesão simbólica em adesão contratual.
Quando uma marca confessional entra no mercado financeiro, ocorre esta transmutação: fé → confiança → baixo questionamento → aceitação de produto financeiro. O risco é o produto deixar de ser avaliado como produto — taxa, risco, liquidez, garantia, governança, supervisão — e passar a ser percebido como extensão de pertencimento: “é do nosso grupo”, “é confiável porque vem da nossa liderança”, “é parte da comunidade”.
Isso reduz a percepção subjetiva de risco, mas não reduz o risco objetivo. Pelo contrário, pode ampliá-lo, porque fragiliza a distância crítica necessária entre fiel, consumidor, poupador e investidor.
A fronteira regulatória nova sobre bancos é não bastar a supervisão de balanços, é preciso também observar como a confiança é produzida, transferida e monetizada. Bancos sempre dependem de confiança. O problema surge quando a confiança não nasce de transparência, solvência e boa regulação, mas de autoridade carismática, pertencimento religioso ou fidelidade midiática.
Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected].
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