Vivência Musical
por Fernando Nogueira da Costa
Para a geração universitária politizada brasileira do fim dos anos 1960 e dos anos 1970, a experiência musical foi muito mais além de um consumo estético. Ela funcionou como formação sentimental, linguagem política indireta, sociabilidade coletiva, descoberta do mundo, resistência simbólica à ditadura e libertação comportamental e corporal.
A música talvez tenha sido ainda mais influente diante do cinema. Apesar da censura de muitas letras, circulava cotidianamente em festivais, repúblicas estudantis, bares, violões universitários, festas, rádios, discos brasileiros ou importados, fitas cassete, shows semiclandestinos e rodas de amigos.
Nenhuma ditadura consegue, em longo prazo, abafar todas as formas de expressão libertárias. Havia uma característica singular no Brasil: a mistura entre modernização cultural acelerada, repressão política e busca de identidade nacional-popular.
Por isso, as vivências musicais dessa geração foram híbridas: internacionalistas, isto é, norte-americanas, europeias, latino-americanas, afro-atlânticas, além de nacional-populares. Antes de tudo, foram contraculturais.
A chamada Música Popular Brasileira (MPB) surgiu, na segunda metade dos anos 60s, como consciência crítica geracional. Tornou-se o principal idioma afetivo-político da juventude universitária.
Não era apenas “música brasileira”. Era um espaço simbólico de elaboração crítica do país.
“Pra Não Dizer que Não Falei das Flores” de autoria de Geraldo Vandré talvez tenha sido o grande hino explícito de resistência.
Canções do Chico Buarque como “Apesar de Você”, “Cálice”, “Construção” e “Meu Caro Amigo” viraram códigos coletivos contra a ditadura. A sofisticação poética permitia driblar censura e criar cumplicidade interpretativa.
O Clube da Esquina, álbum de Milton Nascimento teve impacto gigantesco entre estudantes universitários. Expressava a melancolia histórica vigente, louvava os laços de amizade, acenava uma utopia. Era tanto uma latinidade, quanto uma transcendência da sensibilidade mineira cosmopolita. Canções como “Nada Será Como Antes”, “Coração de Estudante”, “San Vicente” e “Travessia” marcaram profundamente a memória emocional daquela geração.
O tropicalismo de Caetano Veloso e Gilberto Gil foi decisivo porque rompeu dicotomias entre nacional versus estrangeiro, erudito versus popular, esquerda tradicional versus contracultura. Introduziu guitarras elétricas, psicodelia, pop art, antropofagia cultural. Tudo era uma mistura radical.
Para muitos estudantes de esquerda, inicialmente, aconteceu um choque cultural e provocou um estranhamento. Depois tornou-se uma libertação estética.
O rock internacional atuou como experiência existencial e libertária. Tinha enorme influência na formação subjetiva. Em lugar de “americanização”, inclusive porque The Beatles e The Rolling Stones eram ingleses, representava liberdade individual, ruptura comportamental, crítica geracional e ampliação da sensibilidade.
A passagem do pop juvenil de The Beatles para a experimentação psicodélica acompanhou a própria transformação da juventude mundial. The Rolling Stones expressava sexualidade, rebeldia, energia urbana.
Pink Floyd, por sua vez, musicou o rock progressivo. Possibilitava momentos de alienação diante da realidade torturante com introspecção psíquica e crítica da modernidade tecnocrática. Depois dessa “paz”, ouvia-se o desabafo do Led Zeppelin com rock pesado e aproximação intensa das raízes negras do blues.
Talvez uma das maiores pontes entre blues afro-americano, psicodelia, experimentalismo e libertação corporal tenha sido o Jimi Hendrix. A Janis Joplin o acompanhou nessa trilha de desbravamento.
Foi fundamental, na luta antirracista, a descoberta das raízes africanas do ritmo do rock, blues, jazz, MPB, tropicalismo, soul, ska, reggae e dub.
Muitos jovens intelectuais brasileiros começaram a perceber: a cultura moderna mundial tinha raízes negras profundas. O blues, o jazz, o soul, o reggae e posteriormente o dub ampliaram a percepção da diáspora africana, do colonialismo, do racismo estrutural e da resistência cultural negra.
O jazz espiritual e modal de John Coltrane impactava estudantes interessados em transcendência, improvisação e liberdade. Miles Davis, especialmente na fase elétrica, dialogava com vanguarda e ruptura.
Soul e funk do James Brown trouxeram consciência racial e corporalidade negra moderna.
O reggae de Bob Marley teve impacto gigantesco no fim dos anos 1970. Expressou anticolonialismo, espiritualidade, resistência, África imaginada e crítica ao sistema (“Babylon”). Canções como “Get Up, Stand Up”, “Redemption Song” e “War” tinham enorme força política e existencial.
Houve também enorme influência da chamada Nueva Canción latino-americana. A música latino-americana de resistência foi composta e cantada por Mercedes Sosa, Víctor Jara e Violeta Parra.
Esses artistas aproximavam socialismo, cultura popular, anti-imperialismo e identidade latino-americana. O assassinato de Víctor Jara, após o golpe chileno de 1973, teve impacto emocional imenso entre estudantes brasileiros.
A experiência musical era inseparável da vida coletiva. Talvez o mais importante seja isto: a música daquela geração não era escutada de forma atomizada em fones individuais e algoritmos personalizados. Ela era compartilhada, debatida, ritualizada, politizada, afetiva. Era corporal!
Ouvir um disco podia equivaler a descobrir uma visão de mundo, entrar em uma tribo cultural, desafiar a moral conservadora e adquirir consciência histórica. Por isso, certas músicas ficaram associadas para sempre à descoberta amorosa, à repressão política, à amizade universitária, ao medo, à esperança revolucionária e à utopia coletiva.
A geração de 1968 talvez tenha sido a última grande geração na qual a política, arte, amizade, erotismo e transformação histórica pareciam convergir em uma mesma experiência existencial compartilhada. Dizia: “o amor salva o dia; a música salva a vida…”
Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected].
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