Reorganização do Circuito do Dinheiro
por Fernando Nogueira da Costa
Na Teoria do Circuito, bancos não são meros intermediários de poupança. São criadores de moeda endógena. Significa responderem com oferta se houver demanda por crédito. Aí entra a análise de como o Banco Central do Brasil atua no sentido de garantir liquidez do sistema e regular o crédito.
A moeda preceder a troca é o ponto mais importante do início do circuito. Na visão padrão do mainstream dos economistas ortodoxos, a troca gera necessidade de moeda – e esta moeda é neutra, isto é, não afeta as decisões.
De acordo com a Teoria do Circuito, a moeda é condição prévia da produção e da troca. Sem crédito não há pagamento de salários, não há produção e não há renda.
O insight central dela é a produção capitalista começar com um ato financeiro (crédito) ao lhe permitir produzir mercadorias e, em simultâneo, criar a renda para os trabalhadores/consumidores. Existe uma financeirização dinâmica.
Na fase atual de financeirização, isso se complexifica porque o crédito não financia apenas produção, mas também se dirige a recompras de ações, aquisição de ativos (inclusive ações de concorrentes para fusões ou aquisições) e promove alavancagem patrimonial. O circuito se “descola parcialmente” da produção.
A implicação macroeconômica é, se o circuito depende de crédito, quando há restrição de crédito provoca-se queda da produção, quando há expansão de crédito, há expansão da atividade. Mas sem demanda efetiva o circuito não se fecha e empresas não conseguem realizar lucros.
Como visão inicial do circuito financeiro do dinheiro, a moeda entra antes da produção e da troca, o crédito é condição para iniciar o circuito e a produção responde à demanda esperada. Nessa concepção, o objetivo inicial do crédito não seria necessariamente a alavancagem patrimonial, uma característica marcante do capitalismo financeirizado contemporâneo.
Na Teoria do Circuito, a economia capitalista começa com a criação endógena de moeda via crédito bancário. Financia a produção, antes da realização das vendas, sendo a demanda efetiva o elemento capaz de permitir o fechamento do circuito e a validação dos lucros.
No caso brasileiro, juros altos e dívida pública interferem no circuito monetário da produção. No circuito “normal” da produção, tomando como referência a lógica da Teoria do Circuito: bancos criam crédito – empresas iniciam produção – empresas pagam salários – geram renda – renda vira demanda – bens são vendidos – empresas recuperam moeda – quitam dívidas. O circuito se fecha quando há demanda efetiva suficiente.
Com juros estruturalmente elevados, no Brasil, a taxa definida pelo Banco Central cria um efeito sistêmico. Devido à elevação do custo do crédito produtivo, os projetos empresariais precisam ter retorno muito elevado. Em consequência, há menos investimento produtivo e menor criação inicial de renda.
Aumenta o risco de não fechamento do circuito se custo financeiro se eleva e a demanda efetiva cai, empresas podem não realizar vendas suficientes e terem dificuldade de pagar dívidas. O circuito fica incompleto ou instável.
Aqui, a dívida pública atua como “ativo concorrente” contra a dolarização. Este é o ponto decisivo. O Estado oferece um ativo alternativo com seus títulos de dívida pública de alta liquidez, baixo risco e juros elevados.
Em comparação estrutural, o investidor escolhe entre financiar produção (incerto, longo prazo) ou comprar títulos públicos (seguro, rentável). O resultado é o crédito se deslocar da produção para a renda financeira.
Este é o deslocamento do circuito da produção para a finança. Isso gera uma bifurcação: um circuito produtivo, enfraquecido com menos crédito, menos investimento e menor geração de renda, e um circuito financeiro, fortalecido com compra de títulos públicos. remuneração via juros e reinvestimento financeiro.
Em consequência, acontece o “travamento” do circuito produtivo. Ocorre quando o crédito existe, mas não vai para produção, a renda financeira cresce mais diante da renda do trabalho. O sintoma central dessa “doença brasileira” (distinta da “doença holandesa” por razão cambial da apreciação da moeda nacional), o circuito monetário não desaparece — ele muda de eixo de produção-renda- consumo-produção para dívida pública-juros-renda financeira-mais dívida.
Se a taxa de juros cair de forma significativa e sustentada, o circuito monetário tende a se reorganizar — mas isso não é automático nem linear. O efeito depende de como a queda se propaga pelas expectativas, pelo crédito e pela estrutura financeira existente. O mecanismo segue dentro da lógica da Teoria do Circuito.
O primeiro efeito é a reabertura do circuito produtivo. Com a queda do custo do crédito, o financiamento fica mais barato e mais projetos tornam-se viáveis. As empresas passam a considerar investir novamente.
A partir do aumento da criação inicial de moeda, bancos tendem a expandir crédito e novas operações financiam produção. O circuito volta a começar com mais intensidade.
O segundo efeito é o deslocamento de portfólio. Com juros menores, títulos públicos ficam menos atrativos e investidores buscam alternativas. Há migração para ações, títulos de dívida privada (debêntures) e investimento produtivo.
Como consequência estrutural, o circuito financeiro perde centralidade relativa e o circuito produtivo ganha espaço.
O terceiro efeito é o reforço da demanda efetiva. Com mais emprego e renda, investimento gera contratação e salários aumentam.
Maior consumo ocorre quando renda adicional vira demanda. Aí empresas conseguem vender mais. Aumenta a probabilidade de fechamento do circuito.
O quarto efeito é a melhora da solvência empresarial. Há menor despesa financeira e maior margem operacional. Empresas conseguem pagar dívidas e investir mais.
Mas há um ponto crítico: a armadilha da expectativa. A queda dos juros só reativa o circuito se houver confiança na continuidade do crescimento e previsibilidade macroeconômica.
Caso contrário, empresas permanecem cautelosas, bancos restringem crédito e investidores ficam líquidos. O circuito não se expande.
O papel da dívida pública na transição é com juros menores o custo de carregamento da dívida cair e haver menor transferência de renda para rentistas. Reduz o “desvio” de renda para o circuito financeiro.
A possível dinâmica de transição, em uma sequência típica, é: juros caem – bolsa sobe (reprecificação de ativos) – crédito começa a expandir – investimento reage – emprego e renda aumentam – demanda se fortalece – produção se expande.
Porém, há limites importantes e esse processo não é automático. Mesmo com juros baixos, o circuito pode não reagir plenamente se houver estrutura produtiva frágil, falta de projetos e baixa capacidade tecnológica.
Além disso, se houver endividamento elevado prévio, empresas estarão ainda se desalavancando e as famílias comprometidas com endividamento. Soma tudo isso à incerteza política ou externa, caso tenha volatilidade cambial e instabilidade institucional.
A queda dos juros não cria automaticamente crescimento — ela remove o bloqueio financeiro impeditivo do circuito produtivo de se expandir. Mas o circuito só se completa se houver investimento, renda e demanda.
Com juros significativamente menores, o sistema tende a deslocar recursos do circuito financeiro para o produtivo, reduzindo o custo do crédito, estimulando o investimento e aumentando a probabilidade de fechamento do circuito monetário. Tudo isso acontecerá caso haja condições de demanda e expectativas favoráveis.
Isso fecha o raciocínio. Juros altos travam o circuito produtivo; juros baixos reabrem a possibilidade do circuito, mas não garantem sua realização.
Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected].
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