16 de agosto de 2026

Climatologista alerta para aumento de eventos extremos, mas vê avanço no combate ao aquecimento global

Raúl Cordero afirma que mudanças na atmosfera já alteraram de forma duradoura o clima do planeta, mas destaca avanço das energias renováveis e da adaptação
ClimaInfo

Climatologista Raúl Cordero alerta que o clima atual não deve retornar às condições do início da era moderna.
CO₂ está 50% acima do nível de um século atrás, causando mudanças climáticas persistentes e eventos extremos.
Aquecimento global aumenta incêndios, ondas de calor e desigualdade do aquecimento entre hemisférios, diz pesquisador.

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O planeta já não apresenta o mesmo clima de décadas atrás e não deve recuperar, em um futuro próximo, as condições atmosféricas que marcaram o início da era moderna. O alerta é do climatologista equatoriano Raúl Cordero, professor da Universidade de Groningen, na Holanda, que aponta o aumento da frequência e da intensidade de eventos climáticos extremos em diferentes regiões do mundo.

Segundo o pesquisador, a concentração de dióxido de carbono (CO₂), principal gás de efeito estufa, está atualmente cerca de 50% acima do nível registrado há pouco mais de um século. A alteração na composição da atmosfera provoca mudanças persistentes no clima.

“Não vamos recuperar, pelo menos em nenhum futuro previsível, o clima e a atmosfera que já perdemos”, afirma Cordero. Para ele, porém, o cenário não significa que a humanidade deva se acomodar. Interromper as emissões ainda pode evitar que as condições se agravem.

A avaliação do climatologista ocorre em meio a uma sequência de incêndios, ondas de calor, chuvas intensas e outros eventos extremos. Os 11 anos entre 2015 e 2025 foram os mais quentes já registrados, segundo relatório divulgado pela Organização Meteorológica Mundial.

Impacto

Cordero explica que a persistência do dióxido de carbono na atmosfera faz com que os efeitos das emissões ultrapassem gerações. Segundo ele, o CO₂ possui uma vida média de pelo menos um século, o que significa que as emissões atuais continuarão influenciando o clima por décadas.

Por isso, mesmo uma redução imediata das emissões não produziria uma reversão rápida do aquecimento. O pesquisador considera as mudanças climáticas um problema intergeracional, já que parte dos impactos provocados atualmente continuará afetando as próximas gerações.

Ao mesmo tempo, ele alerta que a manutenção das emissões tende a aumentar ainda mais a ocorrência de eventos extremos.

Megaincêndios

Para o climatologista, não é possível atribuir diretamente às mudanças climáticas a causa de cada incêndio individual. No entanto, o aquecimento global aumenta a probabilidade de ocorrência de incêndios mais intensos e difíceis de controlar.

Cordero cita episódios registrados na Califórnia, na Austrália, no Chile e no sul da Europa. Segundo ele, o fenômeno observado atualmente em países europeus faz parte de uma tendência internacional de aumento da intensidade dos incêndios.

Embora reconheça a influência da gestão florestal, o pesquisador afirma que esse fator não é suficiente para explicar a dimensão dos megaincêndios registrados nos últimos anos.

Na avaliação de Cordero, mudanças na composição da atmosfera são o principal elemento por trás do agravamento do problema. Para ele, medidas de prevenção e combate ao fogo são necessárias, mas não conseguem, sozinhas, interromper o avanço da área afetada pelos incêndios.

Ondas de calor

Entre os impactos das mudanças climáticas, Cordero destaca as ondas de calor como o fenômeno mais letal relacionado ao aquecimento global.

O aumento aparentemente pequeno da temperatura média do planeta pode esconder elevações muito mais acentuadas durante determinados períodos. Essas ondas de calor, segundo o pesquisador, estão se tornando mais frequentes conforme a temperatura média global aumenta.

Ele afirma que a frequência desses eventos cresceu entre 200% e 300% em diferentes áreas dos trópicos. Em Guayaquil, no Equador, sua cidade natal, o aumento teria chegado a quase 400% desde a década de 1980.

Um dos problemas apontados pelo climatologista é a dificuldade de identificar diretamente as mortes provocadas pelo calor. Em geral, os impactos aparecem nas estatísticas de mortalidade excessiva depois que uma onda de calor termina.

Hemisfério Norte

O aquecimento também ocorre de maneira desigual entre as diferentes regiões do planeta. Cordero explica que o hemisfério norte está aquecendo quase duas vezes mais rapidamente que o hemisfério sul, principalmente porque possui uma área continental muito maior.

O solo responde mais rapidamente à radiação do que os oceanos, fazendo com que as regiões continentais se aqueçam em ritmo mais acelerado.

Outro fator importante é o Ártico, considerado pelo pesquisador a região que mais rapidamente se aquece no mundo. O derretimento do gelo deixa exposta a superfície escura do oceano, que absorve mais radiação solar e aumenta o aquecimento. O processo, conhecido como retroalimentação, acelera ainda mais o derretimento.

A situação é diferente na Antártida, onde o gelo está sobre um continente. Além disso, a camada de gelo antártica tem, em média, cerca de dois quilômetros de espessura, muito mais do que a cobertura de gelo do Ártico.

El Niño

A combinação entre o aquecimento global e o El Niño também preocupa o climatologista. O fenômeno, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico, influencia a temperatura média do planeta e altera os padrões de chuva em diferentes regiões.

Cordero avalia que, caso 2026 não seja o ano mais quente já registrado, 2027 deverá assumir essa posição.

Na América Latina, o El Niño pode favorecer secas severas na Amazônia e em outras regiões, enquanto provoca chuvas mais intensas em áreas como o sul do Brasil e o centro da Argentina. O aquecimento global tende a ampliar esses efeitos.

Segundo o pesquisador, temperaturas mais elevadas aumentam a perda de umidade do solo durante períodos de seca. Ao mesmo tempo, uma atmosfera mais quente consegue armazenar mais umidade, o que pode intensificar as precipitações quando ela se condensa.

Otimismo

Apesar do cenário preocupante, Cordero afirma ser otimista. Para ele, os avanços na transição energética ocorridos nos últimos anos seriam impensáveis uma década atrás.

O pesquisador destaca especialmente o crescimento das fontes renováveis em países em desenvolvimento e a velocidade da transição energética na China. Também considera importante o aumento da capacidade de adaptação de diferentes países, com maior acesso a tecnologias capazes de reduzir perdas humanas e materiais provocadas por eventos extremos.

Cordero compara o atual desafio climático ao enfrentamento do buraco na camada de ozônio, problema que chegou a ser considerado uma ameaça existencial para a humanidade na década de 1980 e que hoje está sob controle.

“Não estivemos tão preparados para enfrentar um desafio global”, avalia o climatologista. Ele reconhece, entretanto, que sua visão é mais otimista do que a do consenso científico global.

Combustíveis fósseis

Para Cordero, a redução do aquecimento global depende necessariamente da diminuição do uso de combustíveis fósseis. Ele reconhece que países produtores de petróleo têm interesses econômicos que podem dificultar a transição para fontes renováveis.

O climatologista acredita, porém, que a dependência do petróleo tende a diminuir. China e Índia, por exemplo, avançam rapidamente na transição energética e possuem menos disponibilidade de petróleo, o que torna as fontes renováveis economicamente mais atrativas.

Na avaliação do pesquisador, países produtores precisam se preparar para uma economia menos dependente dos combustíveis fósseis.

“Novo normal”

Cordero também rejeita a ideia de que a humanidade esteja simplesmente entrando em um “novo normal” climático ao qual será possível se adaptar.

Segundo ele, a expressão transmite a ideia de uma condição estável, enquanto as mudanças climáticas representam um processo contínuo de agravamento. A necessidade de adaptação permanente torna o cenário particularmente difícil para países do Sul Global, onde grande parcela da população ainda depende da agricultura.

Para o climatologista, a solução não é apenas aprender a conviver com temperaturas mais altas e eventos extremos, mas estabilizar o clima.

“Não existe um ‘novo normal’. Temos de criar esse novo normal estabilizando o clima e, para isso, precisamos interromper o uso de combustíveis fósseis. Não há outra alternativa”, afirma.

*Com informações da BBC News.

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