25 de setembro de 2026

O jogo do mercado com as apostas nas eleições, por Luís Nassif

Movimentos não demonstram que Flávio vencerá. Revelam apenas que determinados agentes decidiram operar como se essa vitória fosse provável
Imagem gerada por ChatGPT

Mercado atribui 60% de chance a vitória de Flávio Bolsonaro, mas isso reflete apostas financeiras, não previsão eleitoral.
Grandes instituições influenciam o mercado criando narrativas para movimentar preços e atrair investidores.
Aposta em Flávio pode elevar Ibovespa, reduzir dólar e ouro, indicando interesse financeiro, não certeza de vitória.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

A informação de que o “mercado” atribui 60% de probabilidade a uma vitória de Flávio Bolsonaro precisa ser lida pela lógica do próprio mercado — e não como uma previsão neutra sobre o resultado das urnas.

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O mercado financeiro trabalha com posições. Quem acredita na alta compra; quem aposta na queda vende. Mais do que antecipar o futuro, tenta construir expectativas capazes de mover preços no presente.

É aí que entram os bois-guias: grandes instituições com recursos, influência e capacidade de pautar o rebanho. Elas começam a montar posições em determinados ativos. A valorização inicial atrai novos compradores, confirma a narrativa e forma a onda de alta. Quando o movimento se aproxima do limite, os que entraram primeiro começam a vender e embolsam o lucro. A curva perde força, os preços caem e o efeito manada se inverte. Quem chegou por último fica com o prejuízo.

Esse mecanismo ajuda a explicar a explosão do câmbio no fim de 2024. O carry trade — captação de recursos baratos em uma economia central para aplicação em títulos de uma economia periférica — havia perdido atratividade no Brasil diante de alternativas como o México. Como o rendimento da operação depende também da trajetória cambial, bastou que três instituições de peso anunciassem a retirada de dólares do país para disparar a boiada. A pressão sobre o real aumentou e o Banco Central respondeu com uma elevação drástica da Selic, interrompendo o movimento e impondo um custo elevado ao conjunto da economia.

Agora, a mesma lógica alcança a disputa eleitoral.

Uma aposta na vitória de Flávio Bolsonaro pode levar os operadores a montar, no presente, posições coerentes com o cenário que desejam vender:

  • alta dos contratos futuros do Ibovespa;
  • queda do dólar futuro;
  • possível recuo do ouro futuro, tradicional ativo de proteção.

Isso porque, um governo Flávio Bolsonaro abriria espaço para a volta do dinheiro do crime organizado ao mercado.

Esses movimentos não demonstram que Flávio vencerá. Revelam apenas que determinados agentes decidiram operar como se essa vitória fosse provável — e têm interesse em convencer outros investidores a acompanhá-los.

A diferença é decisiva. Uma estimativa eleitoral deveria resultar de pesquisas, tendências demográficas, alianças políticas e comportamento do eleitorado. Uma cotação de mercado resulta de apostas financeiras, liquidez, narrativas e posições assumidas. Confundir uma coisa com a outra transforma o interesse dos operadores em uma suposta sabedoria coletiva.

E a convicção pode mudar rapidamente. Se na semana seguinte surgir um fato político capaz de inverter as expectativas, os mesmos agentes que ajudaram a formar a onda poderão abandonar as posições anteriores antes do restante do mercado. A manada muda de direção; os bois-guias preservam os ganhos.

Portanto, quando se diz que “o mercado” atribui 60% de chance a um candidato, a pergunta correta não é apenas se a previsão está certa. É também: quem está apostando, em quais ativos, com que volume e quem lucra se os demais acreditarem nessa narrativa?

O mercado não apenas interpreta a política. Também tenta influenciá-la — e ganhar dinheiro com os movimentos que ajuda a produzir.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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