4 de junho de 2026

Tartaruga nadando de braçada, por Heraldo Campos

Pode acontecer que ligações clandestinas de esgoto doméstico sejam conectadas nas tubulações subterrâneas de coleta de águas pluviais.
Foto de placa de aviso com espécies que habitam a área e da ponte sobre o Rio Grande, em Ubatuba, Litoral Norte do Estado de São Paulo. Autor: Heraldo Campos (registro fotográfico em 03/05/2024)

Tartaruga nadando de braçada

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por Heraldo Campos

Outro dia, na desembocadura do Rio Grande [1], em Ubatuba, no Litoral Norte do Estado de São Paulo, vi de cima da ponte que liga a parte central da cidade ao acesso para a Praia do Perequê Açu, uma tartaruga nadando de braçada. A “tonta” da tartaruga, coitada, que estava tendo que driblar manchas de óleo, plásticos, pneus, entre outras tranqueiras, de certo, a desatenta nadadoura, não deve ter observado a bandeira vermelha do órgão ambiental estadual que, por semanas, vinha indicando que a água do mar desse trecho de praia estava poluída.  

Não muito longe dali, numa saída de drenagem urbana para a Praia do Iperoig, de um canal que beira o aeroporto da cidade, máquinas estavam tentando, aparentemente, desobstruir o acúmulo de areia que represava água com forte cheiro de esgoto. Não é difícil de acontecer, nesse caso, que ligações clandestinas de esgoto doméstico sejam conectadas nas tubulações subterrâneas de coleta de águas pluviais.

Lamentavelmente, não deu para fotografar a “mala sem alça” da tartaruga que devia estar atrapalhando o trânsito aquático de resíduos urbanos para o Oceano Atlântico. Há algumas décadas, nessa época do outono e na chegada do inverno, era possível ver na subida no Rio Grande cardumes de tainhas e de paratis. Hoje, as primeiras, podem ser encontradas amontoadas no mercado municipal, depois de terem rodado sob o gelo, vindas de diferentes entrepostos comerciais de pescados, espalhados pelo estado e região. Sinais dos tempos. 

Segundo o livro “História Geológica da Vida” [2] de A. Lee McAlester, página 123, segundo parágrafo, “(…) Desde que surgiram os quelônios, no triássico inferior, foram muito poucas as mudanças sofridas. Parece que a sua carapaça e seus hábitos aquáticos e omnívoros foram-lhes eficazes durante os períodos de crise que eliminou a maior parte dos seus aparentados. (…).”

Por isso, as “desavisadas” atuais tartarugas que se cuidem, se quiserem continuar nadando na água salgada, porque o dia delas pode estar contado e esses omnívoros podem nem ver o próximo show da Madonna.

Fontes

[1] Artigo “Praias indo pro beleléu”.

https://cacamedeirosfilho.blogspot.com/2024/01/praias-indo-pro-beleleu.html?view=magazine

[2] Livro “História Geológica da Vida” de A. Lee McAlester. Editora Edgard Blücher Ltda. 1969. 174 páginas.

Heraldo Campos é geólogo (Instituto de Geociências e Ciências Exatas da UNESP, 1976), mestre em Geologia Geral e de Aplicação e doutor em Ciências (Instituto de Geociências da USP, 1987 e 1993) e pós-doutor em hidrogeologia (Universidad Politécnica de Cataluña e Escola de Engenharia de São Carlos da USP, 2000 e 2010).

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