O mergulho de Joan Baez na música de Villa-Lobos e Zé do Norte
por Bruno Mateus
Joan Baez já era uma das vozes mais celebradas dos Estados Unidos em 1964, quando pisou o terreno da canção brasileira com sua voz soprano e popular, divina e barroca, rebelde e contundente.
Nascida em Nova York, em janeiro de 1941, filha de pai mexicano e mãe escocesa, Joan Chandos Baez surgiu na cena folk estadunidense ao se apresentar, aos 18 anos, no tradicional no Newport Folk Festival de 1959. Nos anos seguintes, lançou discos, apadrinhou um jovem desconhecido chamado Bob Dylan, cantou as injustiças sociais de um país dividido pela segregação racial, caminhou pelos direitos civis e protestou contra a Guerra do Vietnã. Joan Baez é uma das maiores cantoras do século 20 e sempre manteve os olhos abertos e os ouvidos atentos à canção latino-americana, sobretudo à música popular e folclórica.
Há 60 anos, naquele 1964 com cheiro de napalm no Vietnã e golpe cívico-militar no Brasil, Joan Baez lançou “Joan Baez/5”, cujas faixas passeiam pelo repertório de Bob Dylan (“It Ain’t Me Babe”) e Johnny Cash (“I Still Miss Someone”), encontram o folk e chegam à música brasileira de Heitor Villa-Lobos e Zé do Norte.
Composta em 1938 – depois, em 1945, viria o segundo movimento, “Dança” – para soprano e um conjunto de oito violoncelos, “Aria”, primeira parte de “Bachianas Brasileiras nº 5”, de Villa-Lobos, fascinado por J. S. Bach e pelo folclore brasileiro, é a peça mais famosa do compositor carioca, tendo sido interpretada por diversas orquestras ao redor do mundo e cantoras líricas, entre elas Bidu Sayão, Maria Callas, Kathleen Battle e Natania Davrath.
Não me lembro ao certo quando tropecei na gravação de Joan Baez. Talvez tenha sido há cinco anos… Ou sete. Não importa. Desde então, escuto regularmente. É a versão que mais me arrebatou. Em seu diálogo com a música de Villa-Lobos e a letra de Ruth Valadares Corrêa, também cantora e voz da estreia de “Aria”, em março de 1939, sob regência do próprio Villa-Lobos, Joan Baez toca o céu.
“Tarde uma nuvem rósea lenta e transparente
Sobre o espaço, sonhadora e bela!
Surge no infinito a Lua docemente
Enfeitando a tarde, qual meiga donzela
Que se apresta e a linda sonhadoramente
Em anseios d’alma para ficar bela
Grita ao céu e à terra toda a natureza!
Cala a passarada aos seus tristes queixumes
E reflete o mar toda a sua riqueza
Suave a luz da Lua desperta agora
A cruel saudade que ri e chora!
Tarde, uma nuvem rósea lenta e transparente
Sobre o espaço, sonhadora e bela!”
Pois “Joan Baez/5”, lançado em outubro de 1964, traz outro clássico da música brasileira: “Mulher Rendeira”. A faixa é uma das 12 do álbum e, curiosamente, aparece como “O’Cangaceiro”, com créditos de autoria para A. R. de Nascimento, que vem a ser Alfredo Ricardo do Nascimento, o Zé do Norte, autor da versão mundialmente conhecida na trilha sonora de “O Cangaceiro” (1953), filme inspirado na figura de Lampião e escrito e dirigido por Lima Barreto.
De fato, a letra cantada por Baez é diferente da que veio a ficar famosa pelas mãos de Zé do Norte. “O Cangaceiro” ganhou o prêmio na extinta categoria de melhor filme de aventura no Festival de Cannes. E por falar em Lampião, há quem sustente que Virgulino Ferreira da Silva foi quem escreveu, ainda no início da década de 1920, os versos originais de “Mulher Rendeira”. Diz a história que a canção se tornou um hino dos cangaceiros do grupo de Lampião. Fato é que Joan Baez gravou um dos nossos forrós mais conhecidos. Aos 83 anos, a cantora se apresenta vez ou outra. Em meados de junho, ela sobe ao palco com Patti Smith, em Nova York.
Em tempo: grande compositor, o paraibano Zé do Norte teve músicas gravadas por Nana Caymmi, Pena Branca e Xavantinho, Socorro Lira, Geraldo Azevedo, Xangai e Maria Bethânia, entre outros. Raul Seixas fez uma linda versão de “Lua Bonita”, do disco “A Pedra do Gênesis” (1988), e Caetano Veloso incluiu versos de “Sôdade, Meu Bem, Sôdade” (“Os zóios da cobra verde/ Hoje foi que arreparei/ Se arreparasse há mais tempo/ Não amava quem amei (…) Arrenego de quem diz/ Que o nosso amor se acabou/ Ele agora está mais firme/ Do que quando começou”) em “It’s a Long Way”, do álbum “Transa” (1972).
Bruno Mateus é jornalista de Belo Horizonte, pai da Amora e interessado pelo extraordinário das coisas comuns.
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Ademar Amâncio
24 de agosto de 2025 9:49 amNossa,adorei o texto,arrasou!