5 de junho de 2026

Maria da Conceição Tavares, Minha Mentora, por Fernando Nogueira da Costa

Ela nos deu exemplo de comportamento humilde, mas sábio. Criticava as ideias, não guardava rancor com as pessoas em debate intelectual.
(Fernando Frazão/Agência Brasil)

Maria da Conceição Tavares, Minha Mentora

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por Fernando Nogueira da Costa

A Professora Maria da Conceição Tavares foi o fator de atração para minha emigração: a gente tem de ir atrás de bons professores para nosso desenvolvimento intelectual. Ela se tornou – e é minha mentora.

Mentor(a) é aquela pessoa capaz de guiar outra com compartilhamento de ideias. Serve a alguém como sábio(a) consultor(a). Inspira, estimula a criatividade, o livre pensar. Não necessita ser a orientadora presencial de ideias e realizações de seu discípulo.

Minha mestra nunca me deu, diretamente, conselhos pessoais, mas deu-me o mais importante para qualquer educador: bons exemplos de postura intelectual sábia e atitude política combativa. A prática exemplar da mentora influencia os comportamentos de outra pessoa mesmo sendo de maneira não presencial ou inconsciente de sua parte.

Fui aluno dela no mestrado em 1976 e no doutorado em 1985 do IE-UNICAMP. Tive a oportunidade de presenciar então o primeiro curso dado por ela após seu retorno do Chile. Dividiu-o com o Professor Carlos Lessa.

Ela dava em uma aula cada fase dos ciclos da economia brasileira, ele apresentava em outra a política econômica da ocasião. Cada qual se rivalizava em brilhantismo intelectual. Não em didatismo.

Ela propiciava um brainstorm de ideias sobre tudo e todos. Tinha insights fantásticos aos borbotões sem tempo sequer para os alunos anotarem.

Resultado: saíamos da sala-de-aula encantados pelo espetáculo, mas se nos perguntassem o que tínhamos aprendido na aula, apenas teríamos condições de responder: “ficamos muito impressionados com a sapiência dela”… Não conseguiríamos reproduzir nada do dito, mas éramos estimulados a estudar para alcançar suas lições.

Aprendemos a aprender. Fomos estimulados a estudar muito para enfrentar os desafios intelectuais. Além disso, disse-nos para jamais falarmos algo sobre a economia brasileira sem mostrar evidência empírica porque senão seríamos acusados de só dizer ideologia.

Quase ao mesmo tempo ela se enfurecia com indignação face às impropriedades da vida pública brasileira e admirava as virtudes da miscigenação cultural, cujo olhar estrangeiro percebia e exaltava. Vociferava aos brados ou colericamente, berrava, clamava, proferia palavrões aos gritos contra os desatinos, mas também ironizava e ria das situações absurdas.

Com o tempo entendemos sua impaciência com a burrice alheia. O conceito científico de idiota não se refere à pessoa carente de inteligência ou de discernimento. O tolo, ignorante, estúpido, pode até ser tolerado, mas a pessoa pretensiosa, vaidosa, jamais ela perdoou.

Idiota é quem não tem consciência do mal feito a si próprio e aos outros, inclusive desconhecidos. Em consequência, a Professora tinha razão em exigir-nos a preparação árdua, mas prazerosa, para enfrentar os desafios intelectuais do debate público.

Seguindo seu exemplo de combatividade, aprendemos a gostar de estudar e pesquisar com objetivo além do enriquecimento pessoal. Tratava-se de preparar-nos para o enfrentamento do debate público contra os neoliberais, voltados apenas para a defesa da liberdade de O Mercado. Somos a favor do igualitarismo social, bandeira de esquerda compartilhada por alunos e professores classificados e marginalizados como “heterodoxos”.

Disse-me ela em certa ocasião: – “Com quem você acha eu aprendo hoje? Com meus discípulos! Vocês são especialistas, não são generalistas como eu. Portanto, tratem de pesquisar até aprenderem a fazer uma síntese sistêmica como eu faço.”

Dotada de uma visão holística, prioriza o entendimento integral dos fenômenos, em oposição ao procedimento analítico no qual seus componentes são tomados isoladamente. A análise da economia como um sistema complexo exige o holismo.

Ela nos deu exemplo de comportamento humilde, mas sábio. Criticava as ideias, não guardava rancor com as pessoas em debate intelectual.

Em seminários no auditório do IE-UNICAMP, quase sempre era a única pessoa a anotar tudo de relevante dito pelos palestrantes. No debate, sempre os questionava, não só para testar a defesa de suas hipóteses, em atitude científica, mas também para sedimentar sua aprendizagem.

Era engraçado quando o interlocutor sustentava veementemente uma hipótese contrária à dela. Debatia com ele até o ponto quando ela automaticamente passava a defender a hipótese se ficava convencida da força dos argumentos contrários.

Com os anos de acompanhamento de seus passos mesmo à distância aprendi: ela respeita as personalidades fortes, combativas, e não tolera a arrogância esnobe. Se ela grita com alguém, aceita a pessoa retrucar com a mesma veemência e passa a respeitá-la.

Em um mundo profissional essencialmente masculino, quando passou a trabalhar em meio a economistas, abriu espaço aos gritos e impondo o respeito aos machistas através de seu brilho intelectual. Talvez, por isso mesmo, achávamos ela cobrar mais das jovens economistas tímidas. Preparava-as para o combate mundano.

Exigia-nos também o conhecimento teórico plural. Como heterodoxos, tínhamos de superar o marxismo vulgar – “de merda!” –, aprendido apressadamente por conta própria, e ampliar nossa capacidade analítica com outras teorias, inclusive as ortodoxas, para melhor debatê-las – e combatê-las.

O conhecimento multidisciplinar de Ciências Afins (Política, Sociologia, Psicologia, Antropologia etc.) e História era também incentivado. Um bom economista tem de ser capaz de fazer uma abordagem pluralista nos planos da abstração, evolução e regulação.

Com ela não se trata apenas de Livre Pensar uma teoria pura. Além de “O Pensar”, ela exige “O Querer”, isto é, a capacidade de aplicar a teoria, e mais: O Julgar.  A capacidade de tomar melhores decisões é a Arte da Economia aprendida com a Professora (com P maiúsculo).

O ensino mais eterno não está no dito por ela, mas sim no não dito – e descoberto por ex-alunos através de sua exemplar postura profissional e política. O dito é esquecido, o visto é lembrado, o feito é aprendido. A mestra vive na obra do(s) discípulo(s).


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Autor de “Brasil dos Bancos”, premiado pelo COFECON como o Melhor Livro de Economia no ano de seu lançamento (2012). E-mail: [email protected]

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Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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