5 de junho de 2026

Baden Powell, o dono das nossas emoções, o maior violonista da história

A convivência com o compositor Eduardo Gudin é interessante por vários motivos. 

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Primeiro, pelo grande músico que é. Depois, pelas histórias em comum de uma velha amizade, desde os festivais da Tupi e o início do Bar do Alemão. Finalmente, por sua inteligência musical. Isto é, a capacidade de entender e conceituar fatos e movimentos musicais, algo raro mesmo entre os músicos.

Já tivemos grandes discussões sobre a bossa nova e o samba-choro. Eu dizia que o samba-choro e o sincopado tiveram influência pouco estudada na formação e balanço de João Gilberto. Ele entendia que eu queria dizer que ambos os estilos tinham sido os que mais influenciaram a bossa nova, e não o samba. Como se tudo tivesse nascido do choro.

Chegamos a um acordo. O samba-choro e o sincopado foram influências que mereciam uma avaliação melhor, mas não a ponto de serem centrais. Central foi o samba.

Um outro tema em que ele matou a charada foi sobre uma característica das interpretações em bandolim, que nem mesmo a maioria dos bandolinistas entende (embora os melhores pratiquem). Foi um estilo minimalista desenvolvido por Jacob do Bandolim, que poderia ser classificado como “pulsação”. Quando se fere uma nota, ela vibra – mais do que em outros instrumentos de corda. A arte da pulsação consiste em casar essa vibração com o andamento das notas. É como se caminhassem duas linhas rítmicas: a das notas marcando o compasso e as vibrações, como sendo microcompassos entre cada nota. 

Ontem, a conversa final da noitada foi sobre Baden Powell.

Nenhuma discordância: foi o maior violonista da história. Salve Garoto, Raphael, Yamandu, Paco, Pass e Django, mas como Baden, nenhum.

E qual o segredo de Baden? Não há mensuração possível. Seu violão não sofisticava a harmonização, nao gastava acordes. E aí me lembrei do primo Oscar e eu, na adolescência, tentando classificar Paulinho Nogueira e Baden, que surgiram quase na mesma época.

Oscarzinho dizia: Paulinho é mais técnico, Baden tem mais… tem mais…  Balanço? sim. Improviso?, sim. Mas não era apenas isso. O que seria então?

Agora, aguardando o elevador, tentávamos decifrar o enigma Baden. Era o toque de gênio, a mão de Deus. Nunca procurou ser o mais rápido de todos, embora pudesse; nunca deixou de estudar e nunca deixou que os estudos embotassem a enorme criatividade. Ele tinha o toque para qualquer passagem da música, para qualquer improviso. Você poderia estar no fim do mundo. Se ouvisse o violão de Baden, reconheceria na hora.

Lembrei-me da gravação histórica dele com Grapelli, o grande violinista parceiro de Django Reinhardt. Perguntei a Baden como tinha sido a gravação. Ele me contou que viajou o dia inteiro, chegou no estúdio e começaram a tocar, sem nenhum ensaio.

Para Raphael Rabello, Grapelli foi mais específico. Além de não terem ensaiado nada, Baden chegou completamente bêbado. Mesmo assim, saiu a obra prima.

Para mim, o maior momento de Baden foi em um show no Olimpia de Paris, em 12 de maio de 1974. Por aqui, essa gravação apareceu apenas nos anos 90. Acompanharam-no Guy Pedersen, Joaquim Paens Henriques e Pedro Sorongo (http://tinyurl.com/klwwdft).

Nos últimos anos de vida, Baden esteve irreconhecível. Fui a alguns shows dele. Ele tocava rasqueado (a maneira de bater nas cordas com as mãos), deixando de lado os harpejos, os dedilhados, os acordes.

Ontem, Gudin me contou o que ocorrera. Perdeu as articulações da mão direita e, depois, foi afetado pela diabetes.

Nos últimos anos trabalhava na SBAT para sobreviver. Tornou-se evangélico e não queria mais saber dos afrossambas.

Sossegou apenas quando morreu. Mas garanto que nenhum outro músico mexeu mais com a emoção das pessoas que o violão de Baden. Pergunte ao Gilberto Gil, ao Caetano, e a todos de nossa geração.

E nem comecei a falar de Baden compositor, dos maiores da música brasileira.

Meus momentos mais emotivos se repetem sempre que ouço “Violão Vadio”. Me traz de volta as lembranças de Poços, das irmãs e primas em torno do violão do primo Oscarzinho.

https://www.youtube.com/watch?v=IxM04Y4XSFs]

Aqui, uma faixa, “O Samba do Avião”

https://www.youtube.com/watch?v=_1ofRtXC7E0]

Aqui um apanhado de Baden no Youtube

[video:https://www.youtube.com/watch?v=kcOtqYo39aM&list=RD_1ofRtXC7E0&index=2

Aqui, Baden e Grapelli

Os Afrosambas

[video:https://www.youtube.com/watch?v=IxM04Y4XSFs

O universo musical de Baden Powell

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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17 Comentários
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  1. Ubiratan Sousa

    24 de maio de 2014 7:06 pm

    Badem Powell

    Prezados amigos.

    É indiscutível a trajetória de Badem Powell, seja como violonista ou como compositor. Talentoso, pouco técnico conseguia expressar o sentimento , como poucos. Mas, não podemos classifica-lo como o melhor violonista brasileiro de todos os tempos, JAMAIS. Pra não me estender muito eu citarei apenas um , este sim, o MAIOR  violonista de todos os tempos, até agora não existiu e vai demorar a existir alguém mais avançado , que reuna sentimento, técnica e principalmnete CRIATIVIDADE , ainda jovem ele irá se aprimorar , ainda mais , se isto for possível alguém fazê-lo. Este jovem , além de bom compositor é um FENÔMENO, assim como nasce um Pelé , de 100 em 100 anos irá nascer, talvez um outro  YAMANDU COSTA.

    Abraços a todos.

    1. Macocv

      25 de maio de 2014 2:17 am

      Só mais um velocista das cordas

      Que me desculpem os fãs,  mas, para o pobre mortal aqui, Yamandu não desce nem com muito scotch!

      Compara-lo ao mestre Baden Powell já é forçação de barra pra mim, imagina colocá-lo assim no olimpo dos gênios extremos – sem chance!!

      Penso como seria YC fazendo alguma releitura de alguma parte da SENSACIONAL produção do verdadeiro mestre BP. Acredito piamente que seriam 10.000 notas/segundo sem dizer ABSOLUTAMENTE NADA! Em suma: virtuosismo vazio que não me impressiona nem um pouco. 

      A elegância,  o dizer muito com poucos movimentos,  a extrema capacidade de síntese de BP não tem paralelo.

      O mundo da guitarra também sofre com esse tipo de interpretação em que qualquer velocista das cordas é tido como músico superior aos verdadeiros mestres. Tem um que é realmente injustiçado… mas estamos falando de violinistas brasileiros. 

      P.S.: fãs: já pus a armadura.  Podem bater.

       

      1. Mauricio Salles

        25 de maio de 2014 3:21 am

        Concordo!

        Concordo plenamente. O Yamandu é um velocista das cordas de estilo agressivo argentino, e que é extemamente conservador nas suas performances, ou seja um careta. A velocidade é realmente atraente, mas eu não compararia Yamandu com Baden. Acho que o Nassif incensa demais o YC. Como disse um amigo aqui do blog, apontar o melhor violinista do Brasil é imposível. Muitos estilos e grandes mestres. No erudito é brincadeira, uma carrada de talentos, no popular mais ainda. Mas, sem dúvida, Baden é um invetor da brasilidade e por isso concordo com Nassif.

      2. Antonio Passos

        25 de maio de 2014 3:51 am

        Meus caros, como eu disse em

        Meus caros, como eu disse em outro post, não existe um maior violonista do mundo. Também não gosto do estilo do Yamandu, mas reconheço que ele é fantástico. É outro toque, outro estilo, outra praia. Entre Yamando, Baden e Rafael, eu por exemplo ficaria com Rafael. Pra mim une as qualidades dos dois, como mais refinamento. Mas é apenas meu gosto. Baden tem a grande vantagem do gênio de compositor que foi.

  2. rubens toledo

    24 de maio de 2014 7:37 pm

    baden.

    Olá.

     

    O Grapelli é Stephane Grapelli e é vioLInista. Não é frescura, muita gente jovem não o conhece.

    Baden tinha um som que as vezes era sujo, compensado por sofisticação melódica e Harmonica extraordinárias. Quem se importava com o trastejar?

    Herdeiro de uma grande tradição violonística, a entregou com grandeza maior ainda. Precisou uma editora alemã para fazer seu songbook. Depois uma americana, com transcriçoes de um brasileiro.

    Sua obra está sendo esquecida. Não pode. Temos estes instrumentistas extraordinários. O Toninho Horta, por exemplo. Não me lembro do último show dele em São Paulo. Se houve, foi muito mal divulgado.

     

    Enfim, uma ótima lembrança. Está aí os youtube da vida, ainda bem, pra mostrar pra rapaziada e moçada a competncia que nunca faltou á música brasileira.

    Precisamos falar pro mundo também que ele não era holandes nem fundou o escotismo.

     

    Abç

     

     

     

     

  3. Maira Vasconcelos

    24 de maio de 2014 8:51 pm

    Viva!

    Que bom ler sobre Baden Powell.

  4. Luiz Pinto Façanha

    24 de maio de 2014 10:51 pm

    Baden Powell, o dono das nossas emoções, o maior violonista da h

    Caro Luiz Nassif… Um artigo excelente esse sobre o grande Badel  Powell ele nos anos setenta com seu violãoo mágico fez a minha cabeça a época boa da MPB…. Sou um apaixonado por violão esse instrumento harmonioso e tive a sorte e o privilégio de ter conhecido em São Paulo o maestro Isaias Sávio e me tornado seu discípulo por sete anos. Um grande abraço Luiz Façanha Aracaju SE..

  5. La La

    25 de maio de 2014 1:07 am

    O grande Baden

    Caro Nassif me tornei seu leitor assíduo quando nos anos noventa me deparei com uma crônica sua sobre o Baden em um caderno de economia.Posso dizer que o seu jornalismo me pegou pelo violão do Baden.

    Apaixonado por violão concordo com o que foi dito.  Também sempre me intrigou por que não vendo nele o mais técnico, o mais veloz, ao ouvi-lo eu me emociono mais, e continuo vendo-o como o maior te todos Certa feita juntei meus CDs.de violão e fiz muitas comparações entre gravações dele e de outros tocando as mesma música ou estilo.

    Não conheço musica formalmente e dentro das minhas limitações observei que nenhum dos grandes tem tanta sensibilidade no emprego da dinâmica e em sustentar e abafar uma nota, recursos fundamentais para uma interpretação e que não ouvi até hoje ninguém usa-los com tanta clareza como o Baden, tanto nas musicas ligeiras como numa serestas. E é aí que eu percebo a grande diferença nas suas interpretações, ele jamais imprimia uma velocidade que lhe impedisse de acentuar suavizar sustentar ou abafar uma nota ou um acorde.  Para mim está aí diferença que torna suas interpretações mais emocionantes que a dos demais. Ficamos fascinados e também nos emocionamos ao vermos uma  performance virtuosística que as vezes emociona mais do que a própria musica  O Badem é espetacular de se ver mas como nenhum  outro é espetacular de apenas ouvir suas interpretações que parecem carregar mais sentimento.

        

  6. joao

    25 de maio de 2014 1:31 am

    E qual o segredo de Baden?

    Muito Bom!

    Musica Brasileira!

    Musica

  7. Romiro Silva

    25 de maio de 2014 2:52 am

    Badin

    Vou ousar, pois nem sendo músico direi algo sobre o mestre Baden. Apenas me emociono quando ouço seus CDS, mas não consigo, claro, explicar o motivo. Acredito que seja alegria nos seus dedos quando dos seus arpejos, solos, enfim, sei lá.

     

  8. Romiro Silva

    25 de maio de 2014 2:52 am

    Badin

    Vou ousar, pois nem sendo músico direi algo sobre o mestre Baden. Apenas me emociono quando ouço seus CDS, mas não consigo, claro, explicar o motivo. Acredito que seja alegria nos seus dedos quando dos seus arpejos, solos, enfim, sei lá.

     

  9. Antonio Passos

    25 de maio de 2014 3:48 am

    Com todo o respeito discordo

    Respeito mas conhecimento de causa, pois estudei e ouvi violão durante 40 anos. Não existe um maior violonista de todos os tempos, nenhum instrumento tem músicos com técnicas tão diferentes quanto o violão, por isto é impossível fazer comparações globais. Pode-se até comparar violonistas dentro de um determinado estilo, mas comparar todos é inviável, inadmissível até. Comparar Baden com Paco seria a mesma coisa que comparar o violão brasileiro com o flamenco. São todos filhos de Tárrega, de Sor, de Segovia, só pra citar alguns. Além de tudo é injusto, por exemplo não existem gravações de qualidade dos grandes anos de Segovia. Para o meu gosto, Julian Bream é o preferido. Gravou quase tudo, passeou por diversos estilos, com uma técnica e som fantásticos. Além de tudo sempre teve um grande apuro nas gravações.

  10. Tulio

    25 de maio de 2014 5:55 am

    De Miles

    De Miles Davis…

     

    [video:http://youtu.be/Mi7CUg52S_o%5D

     

    Obrigado Baden!

  11. Luis Fernando

    25 de maio de 2014 11:22 am

    Baden Powell

    Lembro-me de uma passagem em que meu irmão, aluno empolgado de violão, pediu ao grande Mestre que lhe ensinasse a batida do samba. Esse brincando respondeu que esse negócio de batida do samba era tão complicado, que inventaram a Bossa Nova.

  12. Laura Macedo

    26 de maio de 2014 12:56 am

    Baden me pega pela emoção

    Nassif, aproveito para parabenizá-lo pelo aniversário (24/5) que é no mesmo dia da minha filha, motivo pelo qual não assinei o ponto por aqui, ontem.

    Excelente seu texto sobre o Baden o qual assino embaixo. Coincidentemente “Violão vadio” sempre me deixa arrepiada, seja apenas executada ou com a bela letra do Paulo César Pinheiro. O Paulinho no seu livro ” Histórias das minhas canções” comenta os bastidores da criação de  “Violão vadio”, com Baden. Veja aqui.

    “Baden, a lenda” (texto de Herminio Bello de Carvalho) # Baden Powell (violão/voz) / Maria Bethânia (voz).

    “Valha-me Deus” (Baden Powell/ Herminio Bello de Carvalho) # Baden Powell (violão/voz) /Herminio Bello de Carvalho (voz).

    [video:http://www.youtube.com/watch?v=WGRRgkeLG48%5D

     

  13. daniel taubkin

    26 de maio de 2014 5:29 am

    Baden Powell

    Parabéns pelo belo artigo, prezado aniversariante. Baden Powell mais do que o genial violonista, é na minha opinião, um dos maiores compositores brazyleiros de todos os tempos. Sua obra é genial, inventora, pioneira, revolucionaria. Tem um valor de influencia e de permanencia incomensuraveis. Um grande abraço!

  14. Diego Brabo

    10 de junho de 2019 10:16 am

    quem somos nós pra dizer quem é o melhor ? chegar uma pessoa aki e dizer que não dá pra comparar Yamandu com um Baden ou vice e versa tem que se achar muito fala sério. todos são gênios e todos estão num nivel que só eles mesmo poderiam dizer quem é melhor que quem se é q existe um melhor. É uma discussão idiota pessoas que tem 1% do conhecimento e técnica dos caras acharem que podem dizer quem é o melhor. O minimo que se pode dizer é preferência pessoal, ai beleza, no mais se aquietem na insignificância musical de vcs pra eleger um melhor. todos são extraordinários

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