Sugerido por Adir Tavares
Do Pavuna 73
Minha irmã, Andréa, era uma moreninha gordinha de 5 para 6 anos quando minha mãe a levava pela mão da “avenida” onde morávamos (“avenida” era como se chamava um tipo de vila, formada por apartamentos e não por casas), na rua Senhor dos Matosinhos, no Centro – perto de onde hoje se ergue o Sambódromo – até a escola Vitória, bem no sopé do Morro de São Carlos, em frente ao Hospital Geral da PM, ao lado do presídio da Frei Caneca.
O trajeto, todo feito pela rua Salvador de Sá, passava em frente a um grupo de prédios cinzentos, já na época num estado de conservação que deixava a desejar (hoje, estão quase caindo, como você pode ver aqui). Muitas vezes, da janela de um deles, um senhor muito simpático a saudava com um “Bom dia!”. Ela ficava olhando para ele, com muito respeito porque mamãe disse dissera que aquele vovô era um cantor muito importante. “O nome dele é Moreira da Silva”, contara para a filha.
O kid Morengueira sempre teve sabor de infância lá em casa. O samba de breque – do qual o filho de Bernardino de Souza Paranhos, trombonista da Polícia Militar, e dona Pauladina de Assis Moreira, nascido em 1902, foi o inventor –, com sua mescla de música e fala, algo semelhante ao rap, explicava a atração básica. “O Rei do gatilho”, seu exemplo máximo, que ainda por cima falava dos filmes que se viam nos poeiras, então, estabeleceu de vez a ideia de que Moreira da Silva era meninice pura. Essa ideia, para mim, então, tornou-se verdade inelutável quando ouvi pela primeira vez a gravação de “12 anos”, um quase retrato de minha vida naquela idade que Chico Buarque compusera para a “Ópera do Malandro” (minha primeira experiência com teatro adulto, aos 18 anos), e levara ao disco em dupla com Morengueira.
E essas são as duas músicas com as quais Pavuna ’73 homenageia esse grande da MPB.
Para ouvir, clique aqui https://pavuna73.wordpress.com/2014/05/11/o-meu-rei-da-infancia/
P.S.: A história do segundo parágrafo, porém, não acabou ali, como boa fita em série que se preza. Quase 20 anos depois, a dupla de protagonistas foi ao Carlos Gomes assistir ao show daquele senhor e sentou-se na fila do gargarejo. Ele, obviamente, interpretou “O Rei do gatilho”. Na hora em que há o aviso, a ideia era que alguém do grupo que acompanhava Morengueira entrasse. Minha irmã, no entanto, foi muito mais rápida – em meio ao silêncio do teatro -, gritou” Cuidado, Moreira!!”. Ele virou-se para encará-la, mas não perdeu o rebolado e seguiu o número.
Epílogo. Após o show, minha irmã foi ao camarim (minha mãe, tímida que só, ficou do lado de fora) e contou a história lá de cima. Emocionado, Moreira da Silva autografou o papel que ela lhe estendera: “À morena mais bonita do Brasil”. E, aproveitando o embalo fez um convite: “Você não quer comer um angú do Gomes comigo?”.
The end
alfredo machado
23 de maio de 2014 3:12 pmCuidado, Moreira
Adir,
“Cuidado, Moreira” , a tua irmã é o máximo.
O Kid Morengueira sempre foi muito bem chegado em tudo o que era canto dete RJ.
Continua sendo uma personagem tipicamente carioca, todos sabem quem ele é, um caso raro- nunca ouvi ninguém falar mal de Moreira da Silva.
Francy Lisboa
23 de maio de 2014 3:17 pmKid moringueira eh genial.
Kid moringueira eh genial.
Gui Oliveira
23 de maio de 2014 3:26 pmBoêmio diferente
Reza a lenda que, nas baladas boêmias das noites cariocas, Moreira era verdadeiramente único: só tomava leite.
Miguel Zibboni
23 de maio de 2014 11:33 pmMoreira da Silva morava em frente ao Cemitério do Caju.
Dizia que era ótimo.
”Quando eu morrer, nem precisa de rabecão. Vou a pé.”
Miguel Zibboni
25 de maio de 2014 12:19 amErrata
Moreira da Silva morava em frente ao Cemitério do CATUMBI.
lenita
23 de maio de 2014 11:46 pmEra muito engraçado e
Era muito engraçado e original. Gostava de vê-lo cantando na TV.