4 de junho de 2026

O dia da marmota e o Brasil, por Frederico Firmo

Todos os dias eu acordo com a sensação de que estou no mesmo dia. O calendário é mera ilusão. Manchetes me cumprimentam como se fosse ontem.

O dia da marmota e o Brasil.

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por Frederico Firmo

O hábito, segundo dizem, faz o monge. Não sou nem pretendo ser monge, porém hábitos criados na mais tenra infância se enraízam de forma inexplicável.  Por exemplo, aquela ligação quase orgânica com os jornais. Pai, mãe, e segundo ela,  o avô,  começavam seus dias folheando e lendo os jornais, que eram chamados de diários. Andando pelas ruas de qualquer bairro encontrávamos Bancas de Jornal. Com vendedores simpáticos  ou até muito antipáticos e impacientes  com crianças.

Tornou-se um hábito parar na frente da banca e ver as manchetes nos jornais pendurados ou expostos e nas revistas. Seguíamos as estórias, ou histórias pelas manchetes de cada dia. As manchetes também  marcavam o andar do tempo. As notícias eram  estórias que fluíam  por muitos dias, criando um quadro das transformações no mundo real em lugares distantes. Novas descobertas, arte cinema, esportes. Estórias pessoais falavam  sobre  famosos, embora completamente desconhecidos no bairro. Havia lugares e pessoas retratados de forma  fascinante mas as vezes  trágica ou patética. Ao longo dos anos,  em algum lugar, sempre havia uma guerra sangrenta.  Todas em nome de palavras como liberdade, igualdade, democracia. Falavam  de heróis, mas sempre faltava  a tal de fraternidade.

Já houve um tempo onde  os repórteres de guerra eram admirados. Eram pessoas cujas palavras tinham o peso por terem testemunhado,  sofrimento, o perigo ou a crueldade, vivenciando as vidas ou restos de vidas em algum inferno qualquer.  Em minha  ingenuidade falavam sempre a verdade, traziam as tragédias humanas e davam ênfase aos seres humanos  no interior do conflito. Fiquei frustrado quando descobri que alguns destes heróis eram pagos para mentir e ou omitir. As guerras com todos os seus males eram descritas sempre tendo  um lado mau e um bom. O lado variava conforme o jornal, mas morria muita gente dos dois lados  e principalmente gente de lado nenhum que apenas  estava no lugar errado no momento errado. 

Durante dias e dias  estórias iam sendo escritas e formando a história que depois aparecia nos livros textos sem tantos detalhes. O filão policial era mais explorado por alguns jornais. Dizia-se que se fossem torcidos pingaria sangue. Além de  guerras e crimes  havia a economia e política. Aprendi que o homem depende da  economia, mas que a economia depende apenas de alguns  homens. Num país como o Brasil vivi vários momentos econômicos, e até sofri alguns baques pessoais e familiares quando, por razões obscuras para a maioria e muito claras  para outros, faliram a Panair do Brasil e transformaram os Correios e Telégrafos em empresa.

O tempo parecia correr mais   lentamente com a economia dominada pela ditadura militar e dirigida por um panteão de tecnocratas, que apareceram  numa foto digna de um time de futebol na capa das revistas e jornais. Com tantas sumidades juravam definitivamente levar o país ao desenvolvimento econômico e industrial.  Nunca mais o país se livrou da tecnocracia econômica que apesar  de  não conseguir cumprir nenhuma promessa deixou como legado seus continuadores que ocupam, cargos, posições  colunas e  manchetes  dos jornais.  Com o passar dos anos todos os governos tiveram seus tecnocratas de plantão, eles não formam um todo único mas o grupo hegemônico   recita  os mesmos mantras do terraplanismo econômico. Naquela época os mantras eram  receitas do FMI. Um colunista e apresentador de telejornal sempre dizia que o Brasil precisava fazer a lição de casa. Havia até uma senhora com nome Armênio que vinha nos visitar para ver se estava tudo em ordem.

Foi um furor quando passamos pelo  plano Real, um pirotécnico e sofisticado truque monetário. Segundo os jornais, vencemos a hiperinflação. Apesar das  sumidades presidindo a economia, a tentativa de implantar o neoliberalismo com ,(kkkk!), desenvolvimento social sucumbiu. Ironicamente, quatro anos depois do início do plano, a economia estagnou principalmente pelos  altos juros praticados pelo Banco Central, que ironia! 

Os tempos são outros mas  os que na época foram abatidos pelos juros altos agora defendem Bob Field Neto, talvez por causa do nome de família. Pós derrocada do plano Real, o depositário de todas as promessas, o PSDB de FHC, descobriu que sua moral eleitoral já não existia mais e mergulhou no abismo até encontrar Bolsonaro, mas isto é uma outra história. Ainda hoje, Pérsio Arida  diz em entrevista à Folha de São Paulo que o PT interrompeu a modernização prevista pelo Plano Real, e para repetir os velhos e batidos mantras diz querer recuperar a agenda e promover uma revisão dos gastos. Mas lá no findo   continua comprometido  com seu adorado BTG.

Apesar de tudo  continuo com o mesmo velho hábito de ler diariamente as manchetes em bancas de jornal, quando encontro uma banca  e  pela tela do celular. Mas confesso que perdi a noção  de tempo, me sinto vivendo o dia da Marmota. Todos os dias eu acordo e tenho a sensação de que estou no mesmo dia. O calendário é uma mera ilusão. As manchetes e  as pessoas me cumprimentam como se fosse ontem. Pela janela tudo parece igual, continua a mesma chuva, o relógio da igreja não está quebrado, e as pessoas andam para lá e para cá do mesmo jeito. A única prova do tempo seria o jornal,  mas as manchetes e fotos parecem querer demonstrar que  nada mudou.

Esta semana festejaram os 30 anos do plano Real, na foto o time de economistas, com cabeças brancas repetem os mesmos mantras. Nas colunas econômicas colunistas alertam  sobre a modernidade daquele plano econômico , que não deu certo, contra o que dizem ser a  visão desenvolvimentista retrógrada dos governos Lula1, Lula 2 e agora Lula 3. Escondem que o Plano Real foi um truque cambial e monetário  que, jogando engenhosamente com os índices, desconectaram a moeda dos indíces inflacionários. Conseguiram frear a ‘inércia inflacionária. Sem dúvida trouxeram o índice da inflação para níveis civilizados mas o foco em índices e tabelas e mercado  os fizeram esquecer  a economia do mundo real.

A manutenção do câmbio  e a  dos juros elevados resultaram em 1999 em recessão econômica na esfera real o que contradiz as manchetes que atribuem ao plano a estabilização econômica. Na verdade foi a estabilização de um paciente mantendo-o em coma e inerte . Ainda a se comprovar, e guardada as proporções, o plano motosserra de Milei tem muitas semelhanças, e está zerando a  inflação e a economia real  da Argentina. Milei fala de si como se tivesse descoberto a pólvora e neoliberais, sem conhecimento da história, esperam ansiosos a solução de todos os problemas.

De  volta às manchetes vamos fazer um passeio no “tempo”.

Maio de 1998:

  • Dólar aumenta e flutua.
  • Israel é pressionado ao diálogo.
  • Cai a entrada de dólares.

Outubro 1998:

  •  Brasil tem que fazer ajuste fiscal com urgência.
  •  Exame irá dizer se menina fará ou não aborto.
  • FMI diz que 1999 será pior do que 1998

Setembro 1998:

  • BC abre espaço para elevar juros.
  • FMI cobra do governo política monetária com credibilidade.
  • Meta inflacionária em 99 é 8%.

Setembro  1999:

  • Governo perde 16.9 bi em isenções fiscais.
  • Oposição destrutiva ( contra reforma previdenciária).

Janeiro 2009:

  • Israel aceita discutir a trégua.
  • Autosuficiência do petróleo (pré-sal) é questionada.
  • Vice -ministro da Defesa de Israel, Matan Vilnai pronunciou a palavra Shoah (nome hebraico para o holocausto   ) para descrever o destino de Gaza, caso fosse usada como plataforma para ataques a Israel. ( A CONIB não se manifestou na época mas protestou recentemente,quando Lula usou o termo holocausto).

Fevereiro 2009:

  • Netanhyahu se elege.
  •  Avigdor Lieberman ,político de direita de Israel do grupo de Netanhyahu, propõe a expulsão dos árabes-israelenses.

Janeiro de 2010:

  • editorial faz ameaça velada em governo Lula: “retomada do crescimento pode causar apagão nos transportes e gerar caos.”

Poderia continuar seguindo as manchetes ao longo do tempo, mas eu temo que seria repetitivo. Estas manchetes foram extraídas principalmente do Estadão e Correio Brasiliense.  Um certo ditado diz que a história se repete como farsa, mas me parece que a farsa se repete como história. Notem que tanto na questão do conflito Israel X Palestina, e na economia, as manchetes parecem as mesmas.

Frederico Firmo – Possui graduação em Física pela Universidade de São Paulo (1976), mestrado em Pos Graduação Em Física pela Universidade de São Paulo (1979) e doutorado em Física pela Universidade de São Paulo (1987). Atualmente é professor associado I da Universidade Federal de Santa Catarina.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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