
Jornal GGN – Um bom contador de histórias é aquele que sabe fazer o seu ofício independente da mídia. Se seu meio mais comum de narrar é o tradicional livro impresso, ele saberá, também, transcrever o mesmo sentimento e emoções evocadas das linhas marcadas no papel por meio das palavras ditas, se, motivado pelas circunstâncias, foi convidado a contar oralmente seus recortes atemporais na melhor das oratórias.
É assim, por exemplo, com o célebre escritor brasileiro Ignácio de Loyola Brandão. Convidado a participar do Panorama Cultural da 23ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, realizado na manhã desta terça-feira (20), como prévia do evento que acontece entre os dias 22 e 31 de agosto, o escritor subiu ao palco do Sesc Vila Mariana para, ao lado da filha – a cantora Rita Gullo –, reviver algumas de suas recordações contadas no livro de crônicas “A Solidão no Fundo da Agulha”.
O livro do escritor revive o começo de sua própria vida, em Araraquara, interior de São Paulo, com bom humor e uma forte dose de nostalgia. Ela relembra, por exemplo, de um episódio de uma aula de matemática, em que precisou mostrar na lousa, diante da turma e do professor, o que sabia do assunto. Era o dia da prova prática. As jovens colegas, com suas pernas cruzadas parcialmente cobertas pelas saias, com os joelhos de fora, apenas observavam.
“Posso fazer qualquer coisa aqui, menos fazer feio”, conta, arrancando risadas da plateia. Ele narra que recorreu a tudo o que lembrava na época para fazer uma espécie de fórmula imensa. Teve de tudo: raiz quadrada de X, elevada a potência Y, somada com Seno sobre Cosseno. Tudo somado com um ajuntamento de outras coisas sem sentido prático, mas que tornavam a fórmula cada vez mais robusta. Ao fim, o professor avalia item a item, e pergunta: “E essa linha aqui?” “A linha reta é a menor distância entre dois pontos”, respondeu, sem pensar, o jovem Ignácio de Loyola Brandão.
Ele recebera nota dez naquele dia, para sua própria surpresa. “É uma loucura!”, ele mesmo protestou, quando estavam a sós, ele e o mestre. “Nota dez pela loucura. Nota dez pela criatividade e pela imaginação. Vá para São Paulo, porque você precisa viver disso, de criatividade e imaginação, e não desses números frios”, recomendou o professor.
As histórias de Brandão, curtas, como contos da vida real – da vida do autor – são intercaladas pela voz meiga, quase aveludada, da filha. Ela interpreta algumas das canções preferidas do pai, apresentadas no livro que batiza a apresentação. “Isso não chega a ser uma apresentação, não é um grupo. É um conjunto. Nós não temos nome ainda. Estou pensando em pai, filha e espírito santo”, diz o escritor.
Ele conta, também, a história do Barra – um homem alto, corpulento, bonito, ator e dentista. Barra costumava se apresentar nos palcos dos teatros e sua forte presença arrancava suspiros. Mas Barra, conta Ignácio de Loyola Brandão, desistiu da carreira de ator. “Preciso de algo mais estável. No teatro, você tem dois, três meses de trabalho. Depois fica mais dois sem. Não sabe se vai ter dinheiro”, argumentava Barra, pelas palavras de Brandão, que também era de Araraquara como ele.
Anos depois, ambos reencontraram-se, na cidade natal. Barra contou ao escritor que havia se aposentado do ofício de dentista, havia comprado uma casinha e estava sereno, “vivendo”. “Você está feliz?”, perguntou o escritor. De tal modo que ouviu de Barra, já mais velho, algo como “Não… eu tenho vontade de reviver os palcos”. Mas o ex-ator e ex-dentista não chegou a reviver os tempos áureos. Poucos meses depois da conversa, herdou uma fortuna de dois tios que mal conhecia. Enriqueceu. Seis meses depois, teve um AVC, ficou de cama por dois anos, e morreu.
Emocionado, Ignácio recorda da triste história de Barra, ao refletir sobre a vida. Diz ele que precisamos ousar, arriscar, porque nunca saberemos o que a vida nos reserva. A vida que reservou a ele, muitos anos antes, a chance de permanecer em São Paulo, salvo na véspera de voltar para casa, fracassado, por não ter arrumado emprego. Não voltou, como bem dizia o escritor norte-americano Ernest Hemingway, “fracassado para sua cidade natal”.
Não voltou, passou décadas trabalhando como jornalista, crítico de cinema e, claro, escritor. Entre as memórias do autor e as músicas que tanto ama, sobrou a solidão do fundo da agulha das vitrolas do passado.
*O autor foi convidado a prestigiar o evento a convite da Câmara Brasileira do Livro (CBL), que realiza a Bienal Internacional do Livro de São Paulo.
gaspar.rafael
20 de maio de 2014 11:04 pmO interior é um lugar cheio
O interior é um lugar cheio de histórias, pena que muitos não dão o devido valor.
Não conhecia suas obras literárias como contos e romances, mas sim suas cronicas e críticas sempre feitas com serenidade. Uma boa oportunidade para conhecer a sua obra.
Sou de Matão, cidade ao lado de Araraquara e este homem é um dos responsáveis pelo reavivamento do distrito de Bueno de Andrada, pertencente a Araraquara. Seu artigo no Estadão sobre as coxinhas vendidas em um bar localizado na frente de uma antiga estação ferroviária restaurada deste distrito fez muito sucesso, obrigando ao dono do bar a aumentar as instalações devido ao aumento da demanda. Dizem que até o Lula em uma viagem para Araraquara fez questão de experimentar as coxinhas no distrito.
Ah, as coxinhas são boas mesmo. Caso estejam por perto vale a pena experimentá-las.