22 de junho de 2026

Lei da anistia: paradoxal, esquizofrênica e corrompida, por Francisco Celso Calmon

O Estado democrático de direito não pode indultar o Estado ditatorial e terrorista, ilegal e ilegítimo, antítese da sua razão de ser.
Editora UnB

Lei da anistia: paradoxal, esquizofrênica e corrompida

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Francisco Celso Calmon

45 anos de uma lei de reparação aos atingidos pelos atos da ditadura e perdão aos criminosos que cometeram as violações de direitos humanos.

Teve o importantíssimo mérito de trazer os nossos irmãos do exílio, e, também, através da distorção de sua interpretação, notadamente quanto ao conceito de crimes conexos, anistiou nossos algozes, os agentes que cometeram os crimes imprescritíveis de lesa-humanidade.

O Estado democrático de direito não pode indultar o Estado ditatorial e terrorista, ilegal e ilegítimo, antítese da sua razão de ser. Se o faz, permite o seu retorno póstumo.

Nunca fomos anistiados, primeiro, porque não cometemos crimes, mas o direito de resistência ante a tirania; segundo, porque fomos julgados e condenados pela Lei de Segurança Nacional, e muitas vezes ficamos mais tempo encarcerados do que o tempo estabelecido na sentença (meu caso); terceiro, que se houve reparação, estabelecida pelo artigo 8º das Disposições Transitórias da Constituição Federal, é porque o Estado reconhece que errou, que cometeu, através de seus agentes, gravíssimas violações aos direitos humanos individuais e coletivos; quarto, a anistia aos militares e policiais por crimes presumidos e não apurados é uma excrescência tácita de perdão, sem lastro na doutrina e na lei.

A LEI Nº 6.683, DE 28 DE AGOSTO DE 1979, é uma nódoa jurídica e política, que empalidece há quatro décadas e meia a jurisprudência do país.

Sob os vieses das Cortes internacionais de Direitos Humanos, o Brasil é um pária, um foragido, um inadimplente e descumpridor de suas resoluções, quanto às consequências da interpretação capciosa da lei pelo STF.

Não reconhecemos nenhum pacto, não demos procuração a ninguém, nem explícita e nem tácita; é uma lei produto de uma conjuntura, na qual a ditadura vigia, as baionetas ainda engatilhadas sob as nossas cabeças.

Manter a caduca interpretação da Suprema Corte é eternizar e tornar o país escravo daquela conjuntura.

A não implementação da Justiça de Transição, conforme esquemático abaixo, é a causa de golpes e intentonas à democracia, que vive sob um fio de alta tensão de conspirações do crônico golpismo.

Conforme o Manifesto pela Justiça de transição, de 07 de dezembro 2022, da Rede Brasil – Memória, Verdade e Justiça, com mais 22 entidades signatárias, advogamos pela criação, por lei, de uma Comissão Estatal Permanente de Memória, Reparação e Reformas, que abranja todos os períodos traumáticos do Brasil – escravidão, ditaduras e o genocídio bolsonarista, a fim de ser realizada a justiça de transição necessária à construção de uma democracia sólida.

Neste momento de recriação da CEMDP deixamos as indagações:

• o governo vai apoiar, mesmo que de forma simbólica, a Comissão?

• as FFAA vão colaborar?

• o que nós devemos fazer?

Onde estão os corpos, em que circunstâncias ocorreram essas mortes/desaparecimentos, quais foram os autores desses crimes e onde eles estão? Como reparar os parentes das vítimas, como responsabilizar os autores dos crimes?

Brasil, 28, agosto, 2024

Francisco Celso Calmon, analista de TI, administrador, advogado, autor dos livros Sequestro Moral – E o PT com isso?, Combates Pela Democracia; coautor em Resistência ao Golpe de 2016 e em Uma Sentença Anunciada – o Processo Lula. Coordenador do canal Pororoca e um dos organizadores da RBMVJ.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: www.catarse.me/jornalggn

Francisco Celso Calmon

Francisco Celso Calmon, Analista de TI, administrador, advogado, autor dos livros Sequestro Moral – E o PT com isso?, Combates Pela Democracia, 60 anos do golpe: gerações em luta, Memórias e fantasias de um combatente; coautor em Resistência ao Golpe de 2016 e em Uma Sentença Anunciada – o Processo Lula. Coordenador do canal Pororoca e um dos organizadores da RBMVJ.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados