http://www.youtube.com/watch?v=GXwk0Iv_iNw
Resenha – Outfoxed
Quem assistiu ao documentário Outfoxed, sobre o canal de notícias norte-americano Fox News, não deve ter se assutado com os escândalos envolvendo o tabloide britânico News of The World em julho passado. A falta de espanto é devida ao fato de o centenário tabloide do Reino Unido e o canal de serem de propriedade da mesma personalidade controversa, o magnata australiano Rupert Murdoch.
Apesar de o filme ser de 2004, assisti-lo nunca foi tão atual. Quem se escandaliza com o que vê em algumas emissoras e publicações brasileiras, ficará estarrecido ao assistir ao documentário, pode até chegar a pensar que nosso jornalismo é o melhor do mundo.
O Canal de Murdoch, defensor de uma agenda notadamente ultra-direitista, pratica um jornalismo longe de qualquer padrão mínimo de ética, justiça, objetividade e imparcialidade. Totalmente e descaradamente alinhados com a ala mais à direita do partido republicano, os jornalistas da Fox News não sentem qualquer desconforto em humilhar, fustigar e desacreditar qualquer um que pense diferente do credo conservador proposto por Murdoch.
Entre as coisas capazes de escandalizar qualquer jornalista minimamente sério está a “ordem do dia”, uma espécie de memorando em que a chefia da emissora determina a partir de quais pontos de vista os fatos daquele dia devem ser cobertos.
O documentário começa com um depoimento de Robert McChesney, professor da Universidade de Illinois, sobre como a propriedade das empresas midiáticas nos EUA está se tornando cada vez mais um oligopólio nas mãos de cinco grandes redes (se ele viesse ao Brasil iria se escandalizar). Segundo o acadêmico, a pouca variedade de fontes de informação estaria deteriorando a democracia norte-americana.
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| Não pertencer à Murdoch passou a ser selo de qualidade |
Ex-repórteres e editores da Fox News contam os bastidores da emissora e como eram repreendidos por não seguirem a linha editorial por ser uma linha anti-ética, desligada dos padrões jornalísticos, e não por ser necessariamente conservadora. Afinal, toda publicação ou emissora tem o direito de seguir, dentro dos padrões éticos, uma linha editorial seja conservadora ou progressista.
Alguns exemplos marcantes mostrados na película da cobertura totalmente tendenciosa da Fox News são a polêmica contagem de votos no Estado da Flórida nas eleições presidenciais de 2000, garantindo a Bush filho seu primeiro mandato presidencial, as coberturas da ocupação do Iraque e da eleição presidencial de 2004, em que a crítica mais afável ao democrata John Kerry foi considerá-lo um candidato de traços franceses. Ser francês é ruim para os EUA, segundo os sábios jornalistas da Fox. Afinal franceses pensam demais e não agem nunca, um americano autêntico não é assim.
O caso da contagem de votos na Flórida é de longe o mais marcante. A Fox anunciou que pelos seus cálculos, Bush teria vencido a votação no estado e, portanto, era considerado o vencedor da eleição, derrotando o democrata Al Gore.
O anúncio foi feito antes mesmo de se saber qual seria o destino de vários votos que poderiam ser anulados ou não naquele estado americano. As outras redes de televisão como a NBC, CBS e ABC seguiram a Fox sem apurarem, o velho jornalismo de manada.
Essa aprovação midiática, segundo os especialistas em Crítica de Mídia ouvidos pelo documentário, teria ajudado enormemente a legitimar a vitória republicana, decidida nos tribunais. O jornalismo da Fox é pura propaganda. A cobertura da eleição presidencial de 2004 nos EUA é uma prova assustadora desse comportamento editorial. Havia uma vinheta em contagem regressiva para os dias de votação com a seguinte frase: “Faltam X dias para os EUA reelegerem o presidente Bush”. E o lema da Fox é “Justa e Equilibrada” (Fair and Balanced).
Os comentaristas e convidados são em sua maioria conservadores raivosos. Raramente um “progressista” é chamado a participar dos programas, e quando isso acontece é ridicularizado. Um jovem que teve seu pai morto nos atentados de 11 de setembro e se posicionou contra a guerra do Afeganistão foi chamado a um programa de entrevistas onde o apresentador de maneira agressiva ordenava o convidado a se calar repetidamente.
E, em um determinado momento sem que o entrevistado tenha feito qualquer menção de agressividade, o entrevistador desligou o microfone do rapaz abruptamente e disse que não iria mais debater com o convidado. Nos dias seguintes ao programa, o rapaz cujo pai havia morrido no World Trade Center foi atacado sistematicamente na Fox News.
O maior temor dos entrevistados no documentário é o fato de que as outras emissoras, assustadas com o sucesso da Fox News passaram a imitá-la. Ou seja, começaram a copiar seu padrão agressivo em busca de audiência.
O documentário é essencial para quem se interessa pelos destinos do jornalismo. Principalmente depois do que aconteceu na cobertura das duas últimas eleições aqui no Brasil. Tenho certeza que não chegamos a esse estado de coisas. Talvez por falta de oportunidade. Mas…
http://jornalpolitico.blogspot.com.br/2011/08/resenha-outfoxed.html


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