4 de junho de 2026

Ferramentas Enferrujadas Do Marxismo, por Jorge Alberto Benitz

O que os une é a indiferença ao fim do socialismo real e a ascensão do neoliberalismo. Realidade que para eles é uma questão menor
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Ferramentas Enferrujadas Do Marxismo

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por Jorge Alberto Benitz

    A esquerda ortodoxa e  também parte significativa da esquerda heterodoxa – não sei precisar quantos –  ainda usam ferramentas marxistas do tempo do Epa – o google me diz que esta é uma expressão paranaense que faz referência a um diminutivo do nome Epaminondas, considerado muito antigo. Aqui no Sul usávamos, há não muito tempo atrás, muito este termo com o mesmo intuito – para analisar a situação atual. O que os une é a indiferença ao fim do socialismo real e a ascensão do neoliberalismo. Realidade que para eles é uma questão menor ou nem mesmo é uma questão a ser levada em conta nas suas reflexões.

    Preferem continuar usando as ferramentas enferrujadas dos tempos de ouro do discurso marxista considerando questão menor o nacionalismo e a soberania que para eles continua sendo um fator desimportante. Tanto que muito deles, como Roberto Schwarz e José Arthur Giannoti não exalaram um suspiro de indignação com as indecentes privatizações, feitas pelo amigo do grupo leitor de Marx, FHC. Uspianos de direita e de esquerda comungavam e, infelizmente, ainda comungam – se não comungam não se manifestam publicamente contra- com a tese negativadora do populismo de Francisco Weffort que não por acaso foi um dos fundadores do PT e depo is se bandeou de mala e cafeteira – como é paulista não posso usar o clichê gaudério mala e cuia – para o lado dos tucanos. Como contraponto a esta visão vide o livro de Ernesto Laclau “A Razão Populista” e a entrevista, cuja chamada principal ou título é “Populismo é usado mais como insulto do que como conceito”, do historiador Jorge Ferreira na revista Cult, edição 308, de agosto deste ano.

    Nunca os flagrei citando o livro sagrado do neoliberalismo “O Consenso de Washington”. Não veem o que todo o mundo medianamente esclarecido vê como resultado do advento do neoliberalismo com sua escrachada defesa do empresário empreendedor como modelo de virtude em contraposição aos políticos e a política vista como os causadores de todos os males. Não acham importante a discussão sobre o Estado Mínimo. Para eles, o Estado parece  continuar sendo uma “expressão essencial das relações de produção específicas do capitalismo e, em última instância, um órgão da classe dominante, produtor de d esigualdades sociais”. Maior simplificação impossível. É compreensível esta cegueira porque o marxismo enferrujado também advoga ser o Estado, a política e o modelo representativo não só uma criação burguesa, como algo a ser combatido. Não existe, segundo um certo tipo de leitura marxista hegemônica durante muito tempo e mesmo até hoje, nada virtuoso no Estado e no modelo de democracia representativa. Ao contrário, estas criações servem para políticos espertos, como Getúlio Vargas e Jango Goulart, manipular o povo, lhes dando migalhas. Chamam ou chamavam de migalhas reformistas, com ranços mussolinistas, toda a legislação trabalhista (CLT), o décimo terceiro salário, as reformas de base.  

    Felizmente, nem tudo são espinhos contra os avanços sociais, políticos e econômicos e o reconhecimento destes antecessores do petismo na luta contra a direita.   Hoje, grandes figuras da esquerda e do PT, reciclaram suas ideias e reconhecem a importância destas conquistas no campo social, político e econômico. O próprio Lula chamou de imbecis os que desejam a privatização da Petrobrás e condenou a privatização da Vale e da Eletrobrás, batendo de frente com a mídia, o núcleo ideológico da direita (Estadão, FSP), que defenderam esta proposta.

    Paralelamente, estivemos e estamos ainda todos do campo progressista, democrático e/ou de esquerda empenhados na defesa da democracia representativa, incluso os críticos dela, frente ao retrocesso representado pela extrema direita bolsonarista, para ficarmos no âmbito nacional. Neoliberalismo, desdenhado por uma esquerda ainda apegada aos velhos conceitos que não os considerava algo novo e diferente porque sua essência era a mesma de antes, isto é, tinha DNA capitalista. A esquerda menos dogmática, marxista ou não, percebeu as diferenças e se muniu de instrumentos conceituais mais ajustados para analisar a nova realidade  constituida  por estas novas coordenadas do capitalismo, que aproveitando a hegemonia alcançada, estabeleceu uma agenda política, social e econômica mais dura, mais antidemocrática, antinacional e antipovo,  minando as bases do Welfare State até então estabelecido  nos países do centro do capitalismo com irradiações variadas em todo o ocidente.

Jorge Alberto Benitz é engenheiro e escritor.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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  1. Antonio Uchoa Neto

    17 de setembro de 2024 3:45 pm

    Não creio que o bolsonarismo (como de resto o trumpismo, e todas as denominações da extrema-direita que hoje assolam o mundo) possa ser considerado um “retrocesso” dentro do quadro da Democracia Representativa, que é de fato uma criação da burguesia revolucionária e vitoriosa, e da aristocracia do século XVIII que abriu os olhos diante das mudanças que se afiguravam inevitáveis naquela quadra da História, e se bandearam para cerrar fileiras ao lado da que era, então, a classe mais revolucionária da História. Transplantada para o novo mundo, a Democracia Representativa aperfeiçoou o modelo grego, e consagrou, na América do Norte, o ativismo inaugural (expressão de Paulo Leminski) da nascente burguesia industrial (um projeto mais a longo prazo, mas implantado de forma cabal) e seu braço auxiliar, a burguesia mercantil, mas preservou o ranço privatista dos aristocratas derrotados pela Revolução Industrial, e da burguesia herdeira da vida baseada na mais antiga fonte de poder da história da humanidade, a propriedade de terras. Nada de ágoras, nada de democracia nas ruas. Congressos em lugar de tabernas. E o que se costuma chamar de povo, permaneceu, como no outro lado do Atlântico, o que sempre foi: bucha de canhão. Aqui, na América do Sul, uma movimentação semelhante, mas fundamentalmente diferente, deu no que deu – abstenhamo-nos de comentar. Grosso modo, o período Imperial pode ser comparado à adolescência, que é exclusividade da espécie humana – hoje o chamaríamos de jabuticaba, mas vamos pular essa parte. E também a República Velha, uma adolescente que, incapaz de aceitar a passagem do Princípio do Prazer ao Princípio da Realidade, tornou-se uma neurótica, até ser abatida pela Revolução de 30. O princípio da Realidade venceu, mas a realidade já era outra. Democracia aqui, só a censitária – e isso se mantém até hoje, se pesarmos bem as coisas. Por isso não há retrocesso; aqui, demo, e cracia, são como água e óleo, não se misturam. Então, esqueçamos a Democracia Representativa. A extrema-direita, assim, não quer retroceder, porque monopoliza os quadros da administração real, censitária, do país – Lula é o presidente, mas o Banco Central é deles, o Legislativo é deles, o Judiciário é deles. O que realmente tem efeito sobre os negócios do país, e as necessidades da população, está nas mãos deles. A extrema-direita quer manter as coisas como estão; e o esgotamento econômico que o parasitismo colonial, ontem, e o parasitismo financista, hoje, produziram e produzem, só pode levar ao fascismo, a última linha de defesa do Capital, com sua peculiar união de pautas populistas e interesses elitistas. Ou seja, a administração censitária do Brasil não propicia retrocessos, apenas atualizações do modo de governar da Elite política e econômica. Todos aqueles políticos que tentaram, de alguma forma, burlar essa administração privada (pertencente à Elite) não chegaram ao fim de seu mandato, com exceção de JK (que não escapou, entretanto, à perseguição e à cassação); deposição, cassação, prisão, nada disso pode ser considerado ‘retrocesso’; foram apenas ajustes, acomodações, dentro de um quadro de Democracia tutelada. Não retrocedemos, porque jamais saímos do lugar, jamais escapamos de nossa mentalidade colonizada – e ouso dizer que essa mentalidade é ainda mais predominante entre as classes baixas, extrato social no qual me incluo. Bolsonarismo hoje, Marçalismo amanhã, ou algum outro ‘ismo’ que lhe tome o lugar, estaremos sempre sujeitos a esses “retrocessos”, seduzidos por canalhas e boçais, que fingem estar atacando aqueles que visualizamos como nossos algozes – os políticos, seja seu nome Temer, Lula, ou qualquer outro. Para retroceder, é preciso ter avançado; e quando, na história desse país, nós avançamos?

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