10 de junho de 2026

A autofagia dos bancos com spreads nas nuvens, por Luís Nassif

Os problemas irão se agravar com o anúncio do Copom, de que a taxa básica será aumentada visando frear a atividade econômica.
Salvador Dali (modificada as dimensões)

Por que não incluir metas de spread bancário no debate?

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O desafio é de Roberto Troster, ex-economista-chefe da Febraban (Federação Brasileira de Bancos). Spread é a diferença entre a taxa de captação e a taxa de juros do tomador final de crédito. 

Spread baixo mostra a capacidade dos bancos de intermediar recursos a um custo baixo para a sociedade, remunerando bem os poupadores e oferecendo taxas razoáveis para os tomadores.

É uma constatação empírica. As nações mais ricas têm spreads menores, mais crédito e economia mais saudável. Não há sequer um contra-exemplo de algum país de renda alta que não tenha spreads baixos.

Troster considera que a atual dinâmica do crédito no Brasil é uma autofagia do sistema bancário e do Banco Central.

Lembra ele que há, atualmente, 6,9 milhões de empresas de 72,5 milhões de cidadãos negativados no Serasa – recorde histórico no primeiro semestre. Como nem todo inadimplente está negativado, o problema é maior, diz ele. As recuperações judiciais também bateram recordes históricos. 

Segundo ele, criou-se uma dinâmica insustentável. No primeiro semestre do ano foram pagos R$ 532,0 bilhões em juros de operações de crédito a instituições do Sistema Financeiro Nacional. Como o PIB do primeiro semestre foi de R$ 5.601,6 bilhões, os juros pagos correspondem a 9,5% do PIB. 

No mesmo período, as provisões para créditos de difícil recuperação foram de R$ 116,7 bilhões, que correspondem a 21,9% das receitas de crédito e superior ao lucro líquido do sistema, que no mesmo período foi de R$ 113,9 bilhões. 

A lógica é simples: os bancos emprestariam mais se emprestassem melhor. E o crescimento do crédito é irracional. O saldo de crédito em capital de giro cresceu 1,8% e o do cheque especial para pessoa jurídica aumentou 8,8%, mesmo custo 16 vezes mais do que o capital de giro. A diferença é entre uma taxa anual de 21,6%, do capital de giro, para 346,1% ao ano, do cheque especial.

A inadimplência estoura e, no primeiro dia de atraso, é cobrado um IOF de 0,3282%, um valor que anualizado corresponde a 225,3%. Portanto o custo de um dia de atraso é 571,4% ao ano. Problemas temporários de caixa viram problemas permanentes de solvência, diz ele.

É a chamada autofagia financeira. Em situação normal de voo, o sistema financeiro poderia ser um ator relevante para o bem estar do país e o desenvolvimento das empresas. Mas acaba destruindo a base que lhe dá sustentação.

Segundo Troster, os erros ocorrem de lado a lado, definindo um paradigma obsoleto. De um lado, compulsórios draconianos e tributação do crédito. De outro, “a não regulação adequada da lei 14.131, moeda remunerada, indexação generalizada, ausência de regras de precificação, papel dos birôs de crédito distorcido e opacidade na comunicação, para citar alguns”.  

E os problemas irão se agravar com o anúncio do Comitê de Política Monetária, de que a taxa básica será aumentada visando frear a atividade econômica.

Troster tem um conjunto de sugestões para trabalhar o custo do crédito, cujo primeiro passo é a transparência das informações sobre o crédito. Usa-se taxa mês e taxa ano, dias corridos e dias úteis, incluindo impostos, e não taxa efetiva e custo total. “Tornam desnecessariamente complexo, algo que poderia ser resolvido usando uma só medida para o custo do crédito. Só depende de um normativo”.

Também tem críticas quanto à nota à imprensa do Banco Central. No cálculo do custo do crédito, não incluem o IOF, que é um custo a mais para o tomador, e incluem os pagamentos à vista no cartão de crédito como uma operação de crédito, que diminuem as médias das taxas, do spread e da inadimplência informadas na nota. Outra distorção é que calculam o spread usando o estoque de crédito em vez de usar o fluxo.

Não faltam recursos para emprestar, diz ele. Falta uma política de crédito adequada. “Sugiro começar com mais transparência. Ganhariam os cidadãos, as empresas, os bancos, o governo e o Brasil. Por que não tentar?”

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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7 Comentários
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  1. Miko Costa

    25 de outubro de 2024 9:30 am

    O sistema financeiro é incompatível com o governo e com a sociedade. Eles querem se saciarem de dinheiro e investem contra todos: governos e a população. Eles trabalham, sim, contra o crescimento econômico se isso irá impactar seus negócios.
    Então o sistema financeiro, os “farias limer” se tornaram tóxicos para o país.
    Eles infiltram-se em todos os lugares; na política, no legislativo, no judiciário, no jornalismo (especialmente), nos órgãos fiscalizadores e logicamente nas agências de
    crédito como o Serasa.
    O Serasa mudou muito e hoje trabalha para negativar todas as pessoas de forma absurda;
    não confio. Aliás não confio na integridade de sistema nenhum, é lógico que há vazão
    de informações em todos lugares; de saldosbancários e movimentações de contas; de aplicação das bolsas de valores; de crédito, de dívidas. De tudo. Não acredito em sigilo bancário.

  2. Samuel

    25 de outubro de 2024 9:55 am

    O cenário fica cada vez mais claro, ou o Brasil enfrenta os bancos ou os bancos vão afundar de vez o Brasil. Os bancos sempre agiram como âncora, no sentido de puchar para baixo, do crescimento do país, e agora estão prestes a afundar o navio de vez. E o governo dito de esquerda, especialmente a equipe econômica, parece cada vez mais simpático e menos combativo ao sistema financeiro.

  3. Antonio Uchoa Neto

    25 de outubro de 2024 9:56 am

    “Ganhariam os cidadãos, as empresas, os bancos, o governo e o Brasil. Por que não tentar?”
    Eliminem-se dessa frase os cidadãos, as empresas, o governo, e o Brasil, e os bancos dirão: “Ok. Vamos lá.”
    A autofagia dos bancos é aquela cobra que devora o próprio rabo.
    Não acaba nunca de se devorar.
    Isso deveria ser ensinado em toda parte: o banqueiro é um comerciante que não precisa comprar a mercadoria que vende.
    O cliente entrega a mercadoria que o banqueiro vende. E não só a entrega de graça, mas ainda paga para fazer isso.
    E a cada mercadoria que o banqueiro recebe, de graça, ele ganha o direito de vender mais uma, que não existe de fato, mas é vendida mesmo assim.
    Custo de venda dos banqueiros: zero.
    O banqueiro é o paroxismo do parasitismo, a glória máxima da sanguessuga.
    Se o amigo leitor é um assalariado, sabe que seu salário é pago por você mesmo. Além do salário do bancário, é claro.
    Não vou tomar o seu tempo, nem esgotar a sua paciência, confrade leitor, enumerando as maravilhas de ser um banqueiro.
    Quanto ao nosso amigo Troster: “Ganhariam os cidadãos, as empresas, os bancos, o governo e o Brasil. Por que não tentar?”
    Eliminem-se dessa frase os cidadãos, as empresas, o governo, e o Brasil, e os bancos dirão: “Ok. Vamos lá.”
    A autofagia dos bancos é a cobra que devora o próprio rabo.
    Não acaba nunca de se devorar.
    E segue o baile, digo, segue a cobra devorando o próprio rabo.
    Nem queiram saber quem é o cocô dessa cobra.

  4. milton

    26 de outubro de 2024 8:24 am

    O Brasil foi, é e continuará sendo um espaço de livre uso e abuso de colonizadores diversos, nacionais e estrangeiros ao longo de sua história. A classe dirigente, de qualquer viés político e origem social, é bitolada pelos anos coloniais, escravagistas e contínuo abuso dos desfavorecidos.
    Vivemos o “manda quem pode e obedece quem precisa”.
    Alguma dúvida quanto a isto ?
    No começo eram os “capitães hereditários”, seguidos dos barões do café e hoje os donos das finanças, a grosso modo.
    Qualquer governo é logo parasitado e mantido sob rédea curta, quando não operador do sistema.
    Exceções que confirmam a regra foram Getúlio e Juscelino, um suicidou-se ou morreu em acidente automobilístico . . .
    Aos adversativos basta olhar o valor do salário mínimo, o sistema judicial e sua operacionalização, o controle absoluto do orçamento e o vozerio pago para cantar como benfazejos os confiscos e berrar os “perigos” do desenvolvimento.
    Descaradamente, custo orçamentário é o gasto social e mais de 40% indo para os bolsos da turma da bufunfa é escondido.
    Onde o contraditório do governo federal ?
    Onde o esclarecimento das meias verdades / mentiras completas/ costumeiramente cantadas em verso e inverdades pelos globais e assemelhados ?
    Exceção honrosa a Luis Nassif que recentemente expôs a dependência da Rede Globo aos rendimentos do Caixa ante o prejuízo operacional. Ou o Caixa ou a bancarrota . . .
    O Brasil agradece, o governo desconhece” e o povo paga. Alguma novidade ?
    Infelizmente, Lula faz um bom governo mas se contenta com um “governo dentro do possível” sem melindrar os donos da bola. . .
    Ousadias ? Nem pensar.
    O último exemplo é a indicação para o BC: não é um técnico nascido e criado à esquerda de Deus pai todo poderoso, é mais um nome “aceito” pelos mandantes.
    E segue o baile na casa-grande !
    A autofagia dos bancos é só decorrência do trancão administrativo brasileiro.

  5. JOSE OLIVEIRA DE ARAUJO

    26 de outubro de 2024 8:25 am

    O Brasil ainda não acordou para o fato, que vivemos numa USUROCRACIA e quando acordarmos, talvez já seja tarde demais para recuperarmos o prejuizo.

  6. Hermes

    26 de outubro de 2024 2:10 pm

    Porque não tentar? Por que os agiotas não deixam, comandam o BC, comandam o congresso e compram a justiça. O governo mesmo qdo desenvolvimentista ou é refém ou tem medo.

  7. Stalingrado

    31 de outubro de 2024 5:40 pm

    Com Galípolo na presidência do BC, tudo ficará como está.

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