5 de junho de 2026

As semelhanças entre os terraplanistas e os faria limers, por Luís Nassif

O indicador mais relevante não é o do superávit primário - o que calcula receitas e despesas do governo, excluindo juros.

Os vencedores do Prêmio Nobel de Economia de 2024 foram Daron Acemoglu, Simon Johnson e James A. Robinson. Um dos temas que exploram é a maneira como os bancos passaram a dominar a opinião pública, mesmo após o desastre de 2008. Na ocasião, conseguiram desenvolver um discurso que levou o FED a salvá-los – em vez de abrir processos criminais contra os responsáveis pelos golpes – e a deixar os clientes se afogando.

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Vamos recorrer a trechos do livro “Poder e Progresso – uma luta de mil anos entre a tecnologia e a prosperidade”.

O viés da confirmação

Temos uma série de vieses, como a propensão a encontrar provas para algo em que já acreditamos (“ viés da confirmação”), ou a pensar que eventos raros são mais comuns do que na verdade são.

O poder da persuasão

Uma heurística aparentemente razoável consiste em prestar mais atenção em quem tem mais prestígio. De fato, acreditamos quase por instinto que as ideias e recomendações de gente dotada de status merecem nossa atenção. (…) Em outras palavras, somos imitadores tão bons que é difícil não absorvermos a informação embutida nas ideias e visões com que nos deparamos, normalmente propostas pelos mais poderosos.

Aliás, é só conferir repórteres da área econômica que tratam a Faria Lima como “elite”.

O poder dos bancos

No meio da pior recessão desde os anos 1930, nove instituições financeiras que estavam entre as maiores beneficiadas pelos resgates pagaram bônus de mais de 1 milhão de dólares a 5 mil funcionários—sob a justificativa de que precisavam reter o “talento”.(…)

A retórica de que a grande indústria financeira é benéfica para a sociedade pareceu irresistível porque os banqueiros e sua turma conquistaram uma posição de autoridade, conceberam a narrativa e forneceram sua interpretação das evidências.

Vacinas e Selics

A partir dessas constatações, vamos tentar entender porque a opinião pública anti-vacina é tão similar à opinião pública que inclui de caça-fantasmas de gastos públicos até autoridades econômicas que acreditam que a fé cega que a faca amolada do superávit fiscal levará à salvação da Nação (os Faria Limers e seus porta-vozes ainda não foram rezar em porta de quartel, mas chegam lá).

O indicador mais relevante não é o do superávit primário – o que calcula receitas e despesas do governo, excluindo juros. A prova do pudim, o indicador central, é a relação dívida/PIB. O tamanho do superávit primário é definido por sua capacidade de estabilizar – e até reduzir – a relação dívida/PIB.

Vamos a algumas continhas singelas para entender o busílis da questão.

Hoje em dia, a relação dívida/PIB está em 78,3% do PIB. A relação dívida/PIB depende da seguinte fórmula:

(PIB x taxa de crescimento x superávit) – (dívida x taxa real de juros).

Vamos a dados de hoje.

  1. Com o PIB crescendo a 3% ao ano, em 10 anos quanto seria necessário de superávit primário para estabilizar a relação dívida/PIB em 78,3%

Segundo nossos cálculos, o superávit necessário seria de 2,3% todo ano. Quem achar isso possível acredita em discos voadores.

2. Mas suponhamos que a economia seja impactada pelos juros e só consiga crescer 2,% ao ano.

Nesse caso, para estabilizar a relação dívida/PIB, o superávit deveria ser de 3,05% todo o ano. Eu disse estabilizar.

3. Mas, por algum milagres do divino, suponhamos um PIB crescendo a 4% ao ano. Nesse caso, as regras atuais das metas inflacionárias espalharão terrorismo sobre a volta da inflação e, suponhamos, conseguem elevar a taxa real para 7% ao ano. Nesse caso, seria necessário um superávit primário de 2,2% todo ano.

4. Finalmente, com fé em Deus, a economia consegue superar todas as armadilhas e crescer a 5% ao ano. Nesse caso, os discos voadores desceriam em plena Faria Lima.

Trata-se de uma hipótese quase impossível, já que cada sopro de crescimento é abortado pelo terrorismo com a “gastança” e com a volta da inflação. Mas se conseguiria estabilizar a dívida com um superávit de 1,5% todo ano.

Agora, vamos a algumas contas com a taxa real da dívida pública em 4%. Nesse caso, com a economia crescendo sistematicamente 3% ao ano, seria necessário um superávit de 0,7%.

CrescimentoSuperávitDívida / Taxa realDívida/PIB
3,0%0,70%4,00%
100,000,7078,3078,30%
103,000,7280,7178,36%
106,090,7483,2078,42%
109,270,7685,7678,48%
112,550,7988,4078,54%
115,930,8191,1378,61%
119,410,8493,9478,67%
122,990,8696,8378,73%
126,680,8999,8278,80%
130,480,91102,9078,86%

Em uma posição mais realista, com a economia crescendo a 2% ao ano e a taxa real em 3%, o superávit necessários será de 0,8%.

CrescimentoSuperávitDívida / Taxa realDívida/PIB
2,0%0,80%3,00%
100,000,8078,3078,30%
102,000,8279,8378,27%
104,040,8381,4078,23%
106,120,8582,9978,20%
108,240,8784,6178,17%
110,410,8886,2778,14%
112,620,9087,9578,10%
114,870,9289,6778,07%
117,170,9491,4378,03%
119,510,9693,2178,00%

Ou seja, todo esse malabarismo, de tentar investir contra salário emprego, contra a vinculação de gastos sociais, corroerá a base de apoio de Lula, sem convencer minimamente a Faria Lima, que apoia um presidente capaz de queimar a Petrobras, como Tarcísio de Freitas fez com a Sabesp.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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4 Comentários
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  1. Miko Costa

    24 de outubro de 2024 9:29 am

    Em outras palavaras Nassif, você quer nos dizer que o objetivo dos
    “Farias Limers” é manter o nível de endividamento, ou o atual ou subindo.
    Como uma poupança exploratória do país. Para durar para sempre.

    É esse é o objetivo real do capital, não há outro, para que dinheiro se não
    for para fazer mais dinheiro? da forma mais fácil possível. E controlando a
    opinião pública, os governos progressitas, e o Banco Central. Está tudo dominado.

    1. Milton

      26 de outubro de 2024 9:20 am

      Isto é evidência solar.
      Nós tivemos apenas tres governos com coragem suficiente para se contraporem ao financismo exacerbado:
      – Getúlio, Juscelino e Dilma.
      A deposição de Dilma – ousou demais – foi escandalosa e interessadamente aceita pela “imprensa” .
      O interregno da redentora foi apenas a conjunção do “mais do mesmo”: tudo dominado.
      A visão de um país grande, includente e nacionalista foi para o cárcere e tortura.
      Os outros governantes foram incapazes ou diretamente envolvidos.

  2. João de Deus souza Silva

    24 de outubro de 2024 10:02 am

    Se o objetivo do aumento da taxa de juros é combater a inflação, por que não se institui um tributo sobre o ganho excessivo dos bancos com os títulos da dívida? Se admitirmos como razoável uma taxa real de 4%, bastaria um mecanismo que, num quadro de juro real de 6%, fizesse retornar aos cofres públicos os 2% “extras”.
    Ingênuo? Sim, claro. Tanto como acreditar que a Faria Lima tem efetivamente alguma preocupação com a inflação. Toda a parafernália supostamente teórica que ela apresenta sobre a economia atende exclusivamente um propósito: se apropriar do dinheiro público. Ela faz isso graças ao poder de comprar a opinião pública via imprensa corporativa, fabricar leis comprando parlamentares e garantir a simpatia do judiciário com farras nababescas travestidas de convenções.
    O Brasil voltou ao regime feudal. Tudo é permitido desde que uma organização não atrapalhe os privilégios das outras.

  3. Victor Limer

    24 de outubro de 2024 6:28 pm

    E a auditoria da “Divida (ou seria Dúvida?) Publica”, musa recente de tantos devaneios? “Mórreu” como diria o Nerso da Capitinga. Nem com governo de Lula o troço desempaca, tá mortinho e enterrado. A dita divida, é o maior negócio dos bucaneiros modernos, Cavendishes de diversas bandeiras que ora surfam nas redes financeiras 24 horas ao dia sem Lei e sem Ordem. O artigo é lapidar, apesar do excesso de planilhas, mas a conclusão é a de sempre – Vai faltar Óleo de Peroba e Capim.

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