10 de junho de 2026

Uso terrorista do terror, por Jacqueline Muniz

Faz uso quem não tem como vencer o Estado pela guerra por não dispor de exército e/ou de meios políticos para dar e sustentar um golpe.

Uso terrorista do terror

por Jacqueline Muniz

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O uso terrorista do terror é uma propaganda para se mostrar mais forte do que se é, angariar adeptos, criar uma aparente unidade de propósitos e disseminar ameaças difusas e latentes para agravar o temor coletivo e mobilizar pânicos morais que tragam vantagens políticas.

 Faz uso do terror quem não tem como vencer o Estado pela guerra por não dispor de exército e/ou de meios políticos-logísticos para dar e sustentar um golpe. Faz-se uso do terror quem não tem bases políticas e materiais regulares para bancar uma guerrilha que dispute poder e desgaste governos. Para fazer uso do terror não precisa muita gente, muita inteligência, muita organização e nem mesmo de uma causa qualquer ou de uma ideologia. Basta vontade, disposição, meios, oportunidade e estímulos (internos e externos).

O uso terrorista do terror não tem como vencer como resultado de seu “sucesso”, nem perder como resultado de seu fracasso.  O uso terrorista do terror não tem oponentes. Tem alvos (pessoas e instituições) de elevado valor simbólico. Tem público e platéia porque é um espetáculo “inesperado” de grande visibilidade e repercussão para produzir o seu principal efeito: a disseminação do medo que sabota a coesão, a solidariedade e a cooperação sociais, favorecendo a cristalização de pensamentos e ação autoritários supostamente contra o terror. 

O uso terrorista do terror precisa ser imprevisível, barulhento e grandioso para cumprir seu objetivo marqueteiro de alcançar a todos. A resposta ao uso terrorista do terror é sempre mais democracia, mais devido processo legal que reafirma a superioridade em fins, meios e modos do Estado de direito. E, com isso, a previsibilidade, a regularidade, a transparência de suas práticas contra as surpresas macabras e, ainda, contra os oportunistas de primeira hora que exploram o medo coletivo e legitimam de suas práticas de exceção.

Jacqueline Muniz possui graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense (1986), mestrado em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1992), doutorado em Ciência Política (Ciência Política e Sociologia) pela Sociedade Brasileira de Instrução – SBI/IUPERJ (1999) e Pós-doutorado em Estudos Estratégicos pelo PEP-COPPE/UFRJ. || PODCAST: REGIMES DO MEDO

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