3 de junho de 2026

O dia em que salvei o Estadão de um linchamento midiático, por Luís Nassif

Depois da publicação da reportagem no Estadão, cessaram imediatamente todas as críticas.
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Entrei no Jornal da Tarde em 1979. Em 1981 o Estadão vivia sua maior crise. Com problemas econômicos, reduziu a redação. E a direção de jornalismo passou para as mãos inexperientes de Júlio César de Mesquita, assessorado por Miguel Jorge. 

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Em 1981, no entanto, o jornal conseguiu um belo furo. Com base em investigações de Bernardo Kucinski – na época, correspondente do The Guardian -, o então repórter Paulo Andreoli publicou uma denúncia de venda sigilosa de urânio para o Iraque. 

Os demais veículos caíram matando, desmoralizando o furo.

Na época, o Estadão tornara-se alvo de todas as zombarias, depois de duas reportagens clássicas. Uma foi um artigo de Carlos Chagas, o influente diretor de redação de Brasília, denunciando um atentado contra o Ministro Leitão de Abreu. De fato, ele conversava com Abreu em sua sala quando um projétil estilhaçou o vidro da janela. 

Veja investigou e descobriu que, na verdade, ocorreu a explosão do motor de um cortador de grama e o tal projétil não passava de uma porca expelida do motor pela explosão. O título da matéria da Veja “A porca assassina” foi fulminante. 

O segundo episódio ocorreu na seção de necrológios do jornal, cujo responsável atendia pelo solene apelido de Toninho Boa Morte. Ele publicou o necrológio de um cavalo do hipódromo, dotado de bons sentimentos, de lealdade. Foi um prato cheio para todos os concorrentes. 

Nessa toada, quando foi publicada a denúncia, os concorrentes caíram matando sobre o Estadão, especialmente a Veja e a Folha de S. Paulo.  Era uma pancadaria de dar dó. 

Por aqueles tempos, recebi um frila de uma das revistas da Abril – não me lembro se Nova ou Cláudia – para um artigo sobre o acordo atômico. Fui até o Departamento de Documentação do jornal e consultei mais de cem publicações sobre o tema. Aprendi os conceitos básicos de energia nuclear, os enganos mais comuns. Quando explodiu a campanha contra o Estadão, percebi a enorme inconsistência dos ataques contra o jornal. 

Após uma reunião de pauta do JT procurei o Ruyzito Mesquita, filho de Ruy: 

  • Ruyzito, diga para seu tio Júlio, se ele quiser escrevo um artigo apenas e acabo com essa campanha contra o Estadão. 

Aceitaram. Fiquei dois dias em cima do tema e entreguei o artigo. Para se precaver, Júlio Neto pediu para o físico José Goldemberg conferir o artigo. Para meu orgulho, ele perguntou se o artigo fora escrito por algum físico nuclear. 

A experiência me foi muito útil. Deu para perceber, primeiro, a superficialidade do debate público. O acordo com a Alemanha naufragara e havia discussões sobre os caminhos a se seguir. Presidida por Goldenberg, a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) defendia a solução da água pesada, seguida pela Argentina. A Aeronáutica queria algo baseado em laser. E a Marinha propunha as ultracentrífugas, do Almirante Othon, tese vencedora. 

Dentre todas as entrevistas, a mais esclarecedora foi a de Rex Nazareth, que vim a conhecer quase quinze anos depois, como diretor do Instituto Militar de Engenharia. Na época, o IME desenvolveu drones – um artefato ainda pouco conhecido das forças armadas no mundo. Para meu espanto, pediu meu conselho sobre para quem mostrar o projeto, porque ninguém no governo parecia dar atenção às pesquisas do IME. 

Depois da publicação da reportagem no Estadão, cessaram imediatamente todas as críticas.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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10 Comentários
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  1. Luiz

    1 de dezembro de 2024 11:33 am

    Nassif, considero extraordinárias essas tuas lembranças dos bastidores da mídia impressa no passado sem o suporte tecnológico de agora – celular, internet, IA, etc.

    Sem dúvidas eram temos heroicos – lembro-me de minha estreia em A Tarde, em 1983, quando tudo ainda não era nem analógico. Tempos depois, chegou o Telex (que muitos jornalistas de agora nem sabem o que é). Foi uma maravilha.

    Quanto aos jornalões na atualidade vivem um desencanto de dar dó. Aliás, os editoriais e as reportagens parecem editadas pela mesma pessoa.

    Sem o brilho do passado, o Estadão parece um jornal colegial de estudantes do ensino médio com obsessão contra o PT e o Lula. Folha segue o mesmo caminho. Certamente, será será necessária a tua volta para ver se os eixos se põem sob as coisas. Não necessariamente nessa ordem

    1. Padawan

      1 de dezembro de 2024 3:12 pm

      Por favor, ao comentar contra o PIG tenha mais respeito com os estudantes do ensino médio!

      1. José de Almeida Bispo

        1 de dezembro de 2024 8:11 pm

        Subscrevo-o integralmente. Quanto a obsessão contra o PT e Lula… desde que A Província de São Paulo foi criado… só mudaram os personagens.

      2. Rui Ribeiro

        2 de dezembro de 2024 9:24 am

        Kkkkk. O Estadão parece um jornal colegial de estudantes do ensino médio com obsessão contra o PT e o Lula.
        sobrou pros estudantes do Ensino Médio.
        Nassif, hoje você, se pudesse, salvaria o Estadão? Ou daria o tiro de misericórdia?

    2. evandro condé

      2 de dezembro de 2024 10:32 am

      De minha parte acreditando que é o Guzzo que escreve (ou dá pitacos) nos editoriais. Eu, de chato, escrevo a eles, e mais especificamente ao Eurípedes (Ipe, como chamava a irmã), amigo de infância. Não dá em nada, mas marco posição.

  2. Cezar perin

    1 de dezembro de 2024 12:29 pm

    E saber que escrever em jornal hoje é mais rasa de que a folha que se escreve

  3. norman douglas

    1 de dezembro de 2024 3:03 pm

    Do tipo de brasileiro que acredita que deboche é critica ….velho truque de desqualificar a pessoa sem mostrar os erros do artigo…ok..

  4. alfredo machado

    1 de dezembro de 2024 10:25 pm

    Perfeito, só esqueceu de comprovar a tal mentira, faça isto.

  5. jura

    2 de dezembro de 2024 12:22 am

    A mesma coisa está acontecendo agora com esse engenheiro do ITA que foi contratado pelo PL para fazer uma avaliação das urnas eletrônicas.

    Fiscalizar as urnas eletrônicas é um obrigação de todos os partidos políticos, e tem muita gente boa envolvida nisso. Os pioneiros foram o engenheiro e a advogada do PDT que não vou nem citar o nome para evitar perseguições às bruxas.

    Enquanto se fala em censura às redes sociais e restrições à liberdade de expressão, com razão, as urnas eletrônicas seguem intocáveis e inquestionáveis sob ameaças, essas sim, ditatoriais. Ao ínvés de preservar a democracia elas se tornaram em razão de uma ditadura judicial.

    A razão disso é muito simples: O TSE detém todos os direitos de patente, produção e operação desses equipamentos digitais. É um conflito de interesses monstruoso que nenhum outro fabricante de qualquer equipamento – geladeira, automóvel ou computador – pode sequer sonhar em ter.

    Quem pode reclamar à justiça de um produto fabricado e garantido por ela própria? Quem se atrever estará atentando contra a democracia, do mesmo modo que quem critica o sionismo é acusado de antissemita.

  6. Douglas da Mata

    2 de dezembro de 2024 9:23 am

    Mas você não escreveu isso com orgulho, né?

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