Um diálogo franco com o almirante Nigro
por Eduardo Heleno
O almirante Antônio Alberto Marinho Nigro, falecido esta semana, aos 75 anos, foi um dos entusiastas do diálogo civil–militar no Brasil, o único possível para pensarmos de forma autônoma a nossa soberania. Seu nome se soma, na história dessa permanente reflexão, a outros colegas de farda como os almirantes Mario Cesar Flores e Armando Vidigal, o coronel Geraldo Cavagnari, o coronel aviador Sued Castro Lima, e uma crescente quantidade de civis que tem se debruçado sobre o tema desde os anos 70.
Após 41 anos de serviço, Nigro foi para a reserva em 2006 no posto de Contra-almirante. Ele foi o único oficial brasileiro a comandar dois porta-aviões, o Minas Gerais e o São Paulo, quando estava no posto de Capitão de Mar e Guerra. O primeiro navio foi construído pela Grã Bretanha na Segunda Guerra Mundial e batizado em 1944 com o nome de HMS Vengeance, sendo descomissionado em 1952 e emprestado à Marinha australiana e modernizado na Holanda em 1956. Aqui no Brasil, fez parte da Marinha de 1960 a 2001. Já o segundo, cujo nome de batismo era Foch, foi lançado em 1959 pela Marinha francesa e adquirido em 1999.
Em 2021, em plena pandemia do Covid-19, Nigro escreveu o material para a dissertação de mestrado, intitulada O Preparo do Poder Naval Brasileiro: Dilemas e Desafios no Século XXI – 2008 A 2020. Nela, as reflexões dos 41 anos de serviço à Marinha se conectam com a discussão acadêmica realizada no Programa de Pós Graduação em Estudos Estratégicos do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense. Nigro enxergava como paradoxo da Segunda Guerra o alto poder político dos militares nos corredores do Estado e a baixa profissionalização dos mesmos, em países como o Brasil, nos anos 1930/1940. A mistura explosiva de partidarização e baixo profissionalismo da Era Vargas se refletiu nas dificuldades para conduzir as operações anti-submarino na costa brasileira. As lições aprendidas – lições essas que levariam a Marinha a adquirir o Vengeance e mais tarde o Foch, no contexto das chamadas aquisições por oportunidade – estavam longe de resolver por completo o problema do preparo naval. Mais grave do que a dificuldade de conduzir operações anti-submarinos foi a adoção acrítica, pela força naval, da própria missão anti-submarino como praticamente única do período, o que a caracterizava como força subordinada da Marinha Americana.
A preparação do poder naval brasileiro, que para o autor havia se processado de maneira espasmódica e improvisada, não poderia ser feita apenas com este tipo de compra ao se pensar o futuro da Marinha, seja pelo pouco incentivo à produção nacional, seja pela dependência tecnológica. Neste sentido, a preocupação das reflexões de Nigro era o preparo naval, dentro do ponto de vista estratégico, a médio e longo prazo, que poderia se traduzir no desenvolvimento de um complexo industrial acadêmico e militar de Defesa para recuperação da capacidade de emprego da Esquadra e desenvolvimento de outras áreas. E em especial a aplicação de uma teoria do poder naval adaptada ao Brasil, uma contribuição cuja resposta possível só pode ser encontrada no diálogo civil militar no campo acadêmico.
Nigro via com preocupação a partidarização das Forças Armadas no governo Bolsonaro, e em diversas ocasiões levou a público seu descontentamento. Porém, após ser entrevistado por Miriam Leitão e afirmar que os militares não estudaram para fiscalizar urnas eletrônicas, foi alvo de um processo disciplinar. Foi punido por manifestar três de suas qualidades: a sensatez, o profundo respeito pela Marinha e suas convicções democráticas. Naqueles tempos estranhos, ao olhar dos amigos a punição valeu como uma condecoração.
A Defesa Nacional é um dilema permanente para a Grande Estratégia de qualquer nação. Essa demanda se torna mais evidente neste momento de aceleração dos condicionantes da ordem internacional do Pós Guerra Fria, marcada não somente por volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade, como pelo acréscimo de variáveis tanto quanto imprevisíveis como o avanço da tecnologia, das assimetrias dela decorrentes, e a fragilização das democracias. A reflexão sobre Defesa no Brasil amargou por muitas décadas a ausência de setores civis. O regime militar de 1964 ampliou a autonomia das Forças Armadas e apenas com a redemocratização foi possível semear e cultivar na sociedade civil o pensamento sobre a Defesa Nacional e seu termo gêmeo, a Segurança Internacional. Mesmo assim, o debate ainda é marcado por desconfiança entre civis e fardados, o que do ponto de vista para a soberania brasileira é uma fragilidade. Nigro era um defensor deste debate, feito de forma franca e leal entre as universidades e as Escolas de Altos Estudos Militares. Que o seu exemplo inspire as novas gerações a pensar a defesa do Brasil.
Eduardo Heleno – Professor do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense.
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