4 de junho de 2026

Ituano x Santos e a “economia de mercado”

A folha de pagamento do Ituano, incluindo jogadores titulares e reservas, custa R$ 350 mil por mês ao clube. A folha de pagamento do Santos chega a mais ou menos 10 milhões de reais mensais. Apenas um jogador do Santos, Leandro Damião, ganha por mês três vezes o que o Ituano gasta para manter todos seus jogadores.

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A lógica do mercado não explica a derrota do Santos. Explicará uma redução no valor comercial da marca Santos nos próximos anos? Teoricamente nenhum anunciante gosta de ter seu nome associado ao clube derrotado numa final. Ainda mais a um clube que foi destroçado na final do Campeonato Paulista por um time interiorano sem estrelas, sem um cabedal de títulos e, principalmente, sem uma história cheia de glamour.

 

O famosíssimo Pelé é um patrimônio nacional associado à marca Santos. O valente e desconhecido zagueiro Alemão parou os substitutos de Pelé. Ele pararia o rei do futebol nos anos 1960?

 

A pergunta parece impertinente, mas pode ser respondida. Para tanto seria preciso um especialista em computação criar algoritmos que fizessem jus a desenvoltura do ex-atacante santista e outro programador ser capaz de representar, através de equações matemáticas, a aplicação tática e a tenacidade defensiva do jogador do Ituano. Depois, os dois jogadores virtuais poderiam ser colocados frente a frente numa partida virtual de futebol.

 

Pelé apoiaria esta iniciativa? Acredito que não, pois ele vive de sua imagem e Alemão poderia muito bem ajudar a arranhá-la como arranhou a imagem de Leandro Damião. O beque do Ituano, porém, provavelmente toparia esta disputa. Ele parou o melhor ataque do campeonato paulista e não teria nada a perder fornecendo sua imagem para uma disputa virtual contra o rei do futebol.

 

E o mercado? Ele seria capaz de colocar esta disputa em campo? Duvido muito. O mercado vive em função das marcas e, em se tratando de futebol, elas só adquirem valor comercial quando associadas aos jogadores vitoriosos. Mas há um problema. Os números fornecidos no início provam que os jogadores do Santos tem grande valor de mercado. Mesmo assim, os campeões paulistas são justamente aqueles desconhecidos jogadores do Ituano que não agregam muito valor comercial às marcas que representam.

 

O futebol e o mercado celebraram ontem seu divórcio? Sim e não. Sim, porque venceu o melhor que tem menos valor de mercado. Não, porque o derrotado continuará a ter mais valor mercadológico.

 

Se houvesse justiça, os derrotados jogadores do Santos passariam a ganhar os salários de seus colegas do Ituano. E os jogadores do clube campeão passariam a receber os salários dos seus colegas santistas. Mas não é isto que ocorrerá. Pelo menos neste momento, as teias do direito adquirido preservarão os baixos salários de uns e os injustificados salários elevados de outros. Esta distorção produzida no mercado (que estipula o valor de cada plantel futebolístico ao valorizar alguns clubes e depreciar outros), não poderá ser revogada nem pelo próprio mercado, pois ele é caprichoso. Tendo elevado o status do Santos o mercado será obrigado a continuar a valorizar o clube que foi derrotado para defender seus próprios interesses.

 

Esta é a pequena lição teórica que a vitória do Ituano tem a nos dar. A mão invisível do mercado funciona. Mas não exatamente da maneira como dizem os economistas que são discípulos de Adam Smith. A mão invisível não corrige os desequilíbrios do mercado, ela cria as distorções mercadológicas e as preserva em benefício de alguns e em prejuízo de outros. Apesar de ser campeão paulista, o Ituano seguirá atraindo menos verbas de propaganda que o Santos, porque as razões do mercado para valorizar o clube derrotado não são economicamente racionais, nem dependem do resultado da final do Campeonato Paulista. O mercado é um deus autoritário e injusto. 

 

 

 

    

 

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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