
do Psicanalistas pela Democracia
por Abrão Slavutzky
Somos desamparados, o desamparo nos acompanha do nascimento à morte. O desamparo está na origem das angústias, tanto a angústia automática quanto a angústia sinal. Há os destinos criativos e os destinos destrutivos do desamparo. Destinos criativos são, por exemplo, as artes, a fraternidade, o trabalho, a vida familiar. Já as drogas são destinos destrutivos, aliviam o desamparo ao mesmo tempo que afundam os drogados. Na política, um destino destrutivo é o anseio de pessoas que ainda se entusiasmam com os regimes autoritários. Buscam um protetor poderoso que promete certezas que aliviam o desamparo das incertezas. A vitória de Donald Trump é um exemplo, porque ele prometeu conduzir os Estados Unidos a uma segurança imaginária. Estamos diante dos inimigos internos da democracia, título do livro de Tzvetan Todorov.
A história que descrevo não é completamente nova. O século 20 foi pródigo em diferentes ditaduras que prometeram segurança e amparo. As multidões acorreram e após anos ou décadas estavam decepcionadas. Logo, à medida que cresce o desamparo, aumentam os riscos da frágil liberdade. Até prova em contrário, a humanidade está vivendo um retrocesso.
Já aqui no Brasil, a democracia com justiça social, uma democracia democrática, também está em declínio. A grande ameaça recente seria a corrupção e hoje esse problema, que não foi resolvido, parece relegado. O problema maior hoje é que a democracia aqui e no mundo está ferida. A extrema-direita após anos quieta, está na liderança e já não se sabe o que poderá ocorrer. A humanidade parece desnorteada, sem rumo, dominada pela incerteza. O pânico do desamparo é propício a saídas salvadoras geradas pela servidão voluntária.
O desamparo também ocorre na vida cotidiana, no dia a dia. Medo de assaltos, medo dos estranhos, e histórias sem fim de violências. Marcar um jantar à noite, hoje, já é toda uma novela de precauções. Outro dia, fui caminhar pela Avenida Protásio Alves e escutei a pergunta se não era perigoso andar na rua muito cedo. Indispensável é seguir caminhando ou vamos nos paralisar. Paralisia de pernas, paralisia de pensamento, paralisia de vida. Precisamos caminhar buscando a alegria de viver. Caminhar hoje sob a corajosa liderança das mulheres norte-americanas que lembram as madres argentinas de Plaza de Mayo.
* Publicado originalmente em Zero Hora
Cláudio Freire
24 de fevereiro de 2017 2:25 pmDesamparo pela situação politica do país
Nassif, postei um comentário no DCM que gostaria de repetir aqui, pois se aplica ao desamparo que nós democratas estamos sentindo.
Da forma como vi e vejo todo o processo do golpe, o pior de tudo é que o cenário não permite nenhum otimismo. Apesar de todas as excrecências e baixarias explícitas, acho que os principais articuladores desse governo golpista estão inimputáveis, pelo menos na atual conjuntura.
Digo isto porque não se trata apenas de uma casta política canalha e podre, em descompasso com os principais dirigentes das instituições brasileiras. Na minha forma de ver a situação, esse governo golpista é apenas a ponta do iceberg, a representação política de um movimento direitista, reacionário e golpista que veio se avolumando na sociedade brasileira ao longo dos últimos anos, alimentado diuturnamente pela mídia oligopolista, que é porta-voz de uma plutocracia entreguista e canalha e de um movimento financista globalizante que atende interesses internacionais. Não está apartado da sociedade, mas expressão da hegemonia que se desenvolveu nos últimos anos na sociedade brasileira e nas suas principais instituições.
Senão, vejamos:
1. Muitos juízes de primeira instância, de carreira, são de direita e suas decisões são alinhadas com o que representa Moro hoje em dia. Moro apenas representa um movimento direitista do Poder Judiciário, que sustentou o golpe. Idem para o Ministério Público.
2. Nas entidades empresariais, Paulo Skaf e seu pato representam o alinhamento direitista que a FIESP e outras associações da classe empresarial vem tendo, alinhados com o financismo exacerbado da globalização. As principais associações empresariais estão todas dependentes do financismo extremado, em que a produção, base para o desenvolvimento de um país como o Brasil, está claramente deixada para segundo plano.
3. Os políticos reacionários e golpistas do Senado e da Câmara foram eleitos, o que é resultado do alinhamento direitista e reacionário de grande parte da sociedade brasileira, ainda que parcela significativa dela o faça por absoluta ignorância política.
São apenas alguns exemplos. Mas o que quero dizer é que não vejo espaço para otimismo no curto e médio prazos, porque essa hegemonia do golpismo descarado tem enraizamento social, infelizmente.
Seus representantes estão blindados. Vão continuar promovendo toda ordem de arbítrios, de forma descarada. Os cargos de maior poder de decisão das nossas instituições estão dominados por pessoas reacionárias e de direita, e que se sentem representadas por este governo golpista, corrupto e entreguista. A situação é muito séria.