4 de junho de 2026

Enfrentamento Humanista à Criminalidade, por André Naves

O enfrentamento humanista à criminalidade propõe uma abordagem que combina rigor legal com a garantia dos direitos humanos fundamentais.

Enfrentamento Humanista à Criminalidade

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por André Naves

Rubem Alves, em uma de suas crônicas, observou com perspicácia que “todo mundo quer se matricular em um curso de oratória, porém ninguém se interessa em aprender a escutatória”. Essa reflexão, aparentemente simples, revela uma profunda lacuna na forma como lidamos com os problemas sociais, especialmente no que diz respeito ao enfrentamento da criminalidade. A falta de escuta atenta e empática tem sido uma das principais razões pelas quais as políticas públicas nessa área têm falhado em atender às reais necessidades da população. Enquanto isso, discursos simplistas e punitivistas ganham espaço, alimentados por uma narrativa que ignora as complexidades do fenômeno criminal e suas raízes sociais.

Há anos, a insatisfação da população com a segurança pública e o combate à criminalidade é evidente. No entanto, as autoridades parecem surdas a esses clamores, enquanto setores progressistas, por vezes, evitam o tema, criando a impressão de que estão desconectados da realidade popular. Essa omissão abre caminho para que vozes reacionárias dominem o debate, impondo políticas públicas baseadas em bordões vazios, como “direitos humanos para humanos direitos”. Tais propostas, embora sedutoras, são enganosas e contraproducentes, pois não enfrentam as causas estruturais da criminalidade e, muitas vezes, agravam a violência e a desigualdade.

O enfrentamento humanista à criminalidade, por outro lado, propõe uma abordagem que combina rigor legal com a garantia dos direitos humanos fundamentais. Como estabelecido no artigo 5º da Constituição Federal de 1988, esses direitos incluem a vida, a liberdade, a igualdade, a segurança e a propriedade. No entanto, é essencial compreender que esses conceitos vão além de suas definições formais. A vida, por exemplo, não se resume à mera sobrevivência, mas implica o direito a uma existência plena e digna. A liberdade não se limita ao ir e vir, mas abrange o direito de ser quem se é, de se desenvolver com autonomia e protagonismo. A igualdade pressupõe a garantia de condições mínimas para que todos possam prosperar, independentemente de sua origem ou condição social. A Segurança é o enfrentamento humanista à criminalidade, além da devida Segurança Social – seguranças sanitária, educacional, alimentar, além de outras fundamentais à dignidade individual e coletiva. A Propriedade, por fim, abrange tudo o que é próprio e essencial ao ser humano, como suas ideias, crenças, trabalho e bens.

Nesse sentido, um enfrentamento humanista à criminalidade não pode se restringir à repressão policial. É preciso que o Estado atue de forma preventiva, levando cidadania e dignidade às comunidades mais vulneráveis, em vez de apenas “chegar com o pé na porta” em operações violentas que perpetuam o medo e a insegurança. A criminalidade, em grande parte, é um sintoma de falhas estruturais: falta de acesso à educação de qualidade, à saúde, ao emprego digno e à moradia. Ignorar essas questões é como tratar uma doença apenas aliviando seus sintomas, sem atacar sua causa.

A situação carcerária brasileira é um exemplo claro de como o sistema atual falha em seu propósito. As prisões, longe de ressocializar, funcionam como escolas do crime, onde o indivíduo é exposto a condições desumanas e à influência de organizações criminosas. O cárcere, na perspectiva do enfrentamento humanista exige a reformulação do sistema penitenciário, com foco na reinserção social e no respeito aos direitos básicos dos presos. É sempre válido relembrar que a dignidade humana não deve ser negada a ninguém, já que ela faz parte do feixe de atributos que nos torna Humanos. Isso abrange, inclusive, aqueles que cometeram crimes.

Além disso, é fundamental reconhecer que o combate à criminalidade não é uma tarefa exclusiva das polícias. Envolve a atuação integrada de diversos setores do poder público. A zeladoria urbana, por exemplo, com a manutenção de ruas, calçadas e iluminação pública, contribui para a sensação de segurança e bem-estar. Da mesma forma, políticas de saúde, educação e mobilidade urbana são essenciais para prevenir a violência e promover a inclusão social. Enfrentar a criminalidade de forma humanista exige um pacto entre os poderes e entes federativos, transcendendo ideologias e partidarismos, em prol da dignidade individual e coletiva.

Em síntese, o enfrentamento humanista à criminalidade não é uma proposta ingênua ou leniente. Pelo contrário, é uma abordagem que exige coragem para enfrentar as raízes do problema, combinando rigor legal com a garantia dos direitos humanos. É uma proposta que reconhece a complexidade do fenômeno criminal e busca soluções que vão além da repressão, promovendo a justiça social e a dignidade humana. Como bem lembrou Rubem Alves, é preciso aprender a escutar, pois só assim poderemos construir políticas públicas verdadeiramente eficazes e humanizadas.

André Naves – Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social – FDUSP. Mestre em Economia Política – PUC/SP. Cientista Político – Hillsdale College. Doutor em Economia – Princeton University.  Comendador Cultural. Escritor e Professor.
www.andrenaves.com
Instagram: @andrenaves.def

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  1. Douglas da Mata

    12 de fevereiro de 2025 8:19 pm

    Senhor defensor.

    Vossa narrativa se desmancha, quando observamos que não há um olhar humanista em qualquer setor das sociedades periféricas do Brasil e do mundo, e também, nas zonas pobres de países chamados como primeiro mundo.

    Em todo canto, pobre, preto ou imigrante é lixo, um fator a ser removido.

    Um dos pontos-chave do capitalismo é, justamente, a desumanização dos pobres, que ora viram estatísticas de violência, ora são dados de exclusão, ora são inconvenientes números de demandas sociais reprimidas, e nunca atendidas.

    Desumanização na estrutura tributária regressiva, que faz pobres sustentarem a plutocracia, que depois manda a força estatal estalar o chicote em seus lombos.

    Ironia, o pobre sustenta o rico que manda a polícia lhe matar.

    A riqueza é o único direito humano reconhecido no Brasil, e no mundo do capital.

    Rico não apanha, não é alvo de “bala perdida”.

    Então, nobre defensor, colocar a tarefa de humanizar essa gente, e dar-lhes um tratamento cidadão pela polícia, só pode ser piada.

    Sem a violência policial, o senhor não consegue ir ao shopping domingo.

    É o medo, o pavor da polícia que mantém a choldra encolhida, como disse o ótimo delegado e ex chefe de polícia, Helio Luz, com todas as credenciais de ex deputado do PT (ver Noticias de Uma Guerra Particular, do outro filho do banqueiro Salles).

    Enfim, nobre defensor, sem acabar com a desigualdade, não tem polícia que possa ser está que o senhor reinvindica.

    É impossível.

    É só olhar a curva de violência no mundo.

    País menos desigual, país menos violento.

    E ponto final.

    Depois de 23 anos de polícia civil, é a realidade que consegui aprender.

    Talvez o senhor congela outra…sorte sua.

  2. Douglas da Mata

    12 de fevereiro de 2025 10:24 pm

    *(…)talvez o senhor conheça outra(…)

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