10 de junho de 2026

Inédito: os bastidores da renúncia de Jânio

Algum tempo antes da renúncia de Jânio, o embaixador Walther Moreira Salles teve um encontro estranho com ele. Foi convidado, assim como a esposa Elisinha, para almoçar com o casal Jânio no Horto Florestal em São Paulo.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

A conversa foi agradável, mas Walther foi surpreendido com o convite de Janio, para que o acompanhasse em um cruzeiro marítimo ao redor do mundo. Como assim, se Jânio mal começara seu mandato?

O almoço custaria caro a Walther. Estendeu-se mais do que devia e deixou esperando, na antessala, um general irritado, Arthur da Costa e Silva. Walther desconfiou que um dos motivos para Costa e Silva tentar cassa-lo teria sido o amuo com a espera a que ficou relegado.

O objetivo de Jânio Quadros, quando articulou a renúncia, era a reforma constitucional. Com o choque da renúncia não pretendiam implantar a ditadura, mas dispor de poderes iguais aos da Constituição francesa.

Este objetivo ficou claro em um jantar na casa de WaltherMoreira Salles, na Rua Marquês de São Vicente, na Gávea, o Ministro da Justiça de Jânio, Oscar Pedroso D’Horta, conforme relato que colhi de Raphael de Almeida Magalhães, presente ao jantar.

No meio do jantar, o governador carioca Carlos Lacerdainvadiu a casa transtornado,sem se fazer anunciar, pegou Pedroso D’Horta pelo braço e o levou à varanda. A chegada de Lacerdaprovocou reações variadas. Vários dos convidados não se davam com ele e retiraram-se em seguida. Para sorte dos anfitriões, o jantar estava terminando.

O nervosismo de Lacerda prendia-se aos problemas criados por seu filho Sérgio. Através da Fundação Otávio Mangabeira, Sérgio havia recebido dinheiro dos banqueiros de bicho. O fato havia sido noticiado pela imprensa e Lacerda, através de Pedroso D’Horta,queria que Jânioo ajudasse a superar o problema.

Na conversa, Horta abordou pela primeira vez a falta de condições políticas de Jâniopara conduzir as reformas econômicas. Lacerdaainda estava em lua-de-mel com Jânio. Todos seus pleitos haviam sido atendidos, o aval federal a empréstimos do BIRD, o acesso ao Fundo do Trigo, a transferência de patrimônio não utilizados dos Institutos de Previdência para o estado.

Mas era um caso raro. Em geral, Jânio não recebia parlamentares, não concedia.

– Como Jânionão transige com o Congresso, haverá a necessidade da gente articular as eleições de 62 — ponderou Horta. Ou então poderíamos retomar temas que você, Lacerda, falou em 1956 sobre Mendéz France.

Na época, a França estava sob um terrível impasse político, decorrente do processo de tentativa de emancipação das colônias. Mendéz France pediu ao Parlamento delegação ampla de poderes. “Governar é escolher” dizia Mendéz France. Seus 6 meses de delegação constituíam-se em um clássico, um marco da política francesa da época.

Primeiro, solicitou 30 dias para fazer as pazes com a Tunísia. Mal sucedido, renunciaria. A paz foi assinada na véspera do vencimento do prazo. Depois pediu delegação para efetuar as reformas financeira, administrativa e política, sempre com prazo e objetivos explícitos.

O sucesso de Mendéz France deixou na moda a questão da delegação de poderes. Por aqueles dias, o Congresso tinha votado lei de favores a funcionários públicos. Jâniovetou-a. O Congresso derrubou o veto. Sob este impacto, Horta levantava a questão francesa e solicitava a Lacerdacópia dos artigos por ele escritos em 1956, quando defendeu a delegação de poderes na sucessão de Café Filho.

Dias depois Jâniorecebia Lacerdaem Brasília. Lacerdadeixou a mala do lado de fora da sala e, ao retornar da conversa com Jânio, viu a mala na guarita do guarda. Interpretou o gesto como falta de vontade de Jâniopara resolver seus problemas. Quando Jânioapresentou a renúncia, pouco tempo depois, Lacerdainvocou o jantar em casa de Waltherpara defender a tese de que o ato constituíra-se em uma tentativa de golpe de estado de Jânio.

Em que falhou a operação?

Tudo havia sido planejado. O vice-presidente Jango Goulart estava na China. Havia enormes resistências dos militares à sua posse. A ideia de Jânio era a de preparar a carta-renúncia, mas não formalizar. Esperava que, espalhando a informação de que pretendia renunciar, haveria um movimento espontâneo por sua volta, que lhe permitiria voltar nos braços do povo e conseguir do Congresso a lei delegada. Até o dia da renúncia – dia 25 de agosto, dia do Soldade – foi escolhido a dedo.

 O chefe da casa militar era o general Pedro Geraldo de Almeida, mineiro genro do general Setembrino Carvalho, Ministro da Guerra do governo Arthur Bernardes. Pedroso comunicou a renúncia a ele, pediu que não divulgasse, contando que a versão se espalhasse. Não contava com a lealdade do general que, de fato, não contou.

O desmoronamento da estratégia janista deveu-se a Gustavo Capanema, do PSD mineiro. A carta foi entregue a Auro de Moura Andrade, presidente do Senado, e que não tinha fama de ser político muito habilidoso. Auro sugeriu:

– Vamos convocar o Congresso.

Capanema reagiu:

–      Não, a renúncia é um ato unilateral. Vamos tomar conhecimento.

A posição de Capanema foi corroborada pelo líder do PTB Almino Affonso.

 

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

10 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Alexandre Weber - Santos -SP

    2 de abril de 2014 4:07 pm

    Governo sem Norte, sem Estrela e sem Rumo dá nisso

    Puro amadorismo.

  2. Hélio Jorge Cordeiro

    2 de abril de 2014 4:15 pm

    Os irmãos Marx não fariam

    Os irmãos Marx não fariam melhor!

  3. anarquista sério

    2 de abril de 2014 4:24 pm


    Inédito: os bastidores da

    Inédito: os bastidores da renúncia de Jânio

     Caracas.O que tem de inédito?

      Talvez, inédito seja isto:

      Antonio Grease dono do falecido banco B C N tinha uma casa em frente ao Jókei Clube pra …digamos…descontração durante umas 40 horas semanais  com homens de negócios e políticos de todas as legendas.

    Janio frequentava essa casa completamente fora do horário e dias de ”pico”( as tardes) com uma maravilhosa.

    E foi assim que a pedido de Grase ,Janio acabou com uma favela mais ou menos próxima.

      Em tempo: O dono do banco era o tio de Grease que foi tbm presidente da Febrabam.Grease tinha 30 por cento.

            Pequisar o nome do tio? TÔ  com preguiça.Pesquise quem se interessar.

    1. luisnassif

      2 de abril de 2014 5:01 pm

      Anarca, eu sei que você é um

      Anarca, eu sei que você é um tremendo historiador, mas me informe como você soube antecipadamente dos seguintes fatos (que eu julgava inéditos);

      1. O jantar no Horto.

      2. O jantar na casa de Moreira Salles, invadido por Lacerda; os problemas do seu filho com o jogo de bicho; as referencias e Mendéz France.

      A propósito de sua exuastivas pesquisa sobre o BCN, o executivo era o Antonio Grisi e o dono Pedro Conde.

      Peça para suas fontes do Bar do Léo serem mais precisas.

      1. Alexandre Weber - Santos -SP

        2 de abril de 2014 7:10 pm

        Bar do Leo ?

        Aquele que o chopp da Brahma não era da Brahma??? Esquina da Rua Aurora?

        Não sei não, mas os Conde gostavam mais da Barão de Itapetininga…

      2. taturanous

        3 de abril de 2014 2:09 am

        Talvez ?

        Caju Amigo ou Amigo Caju eheheheheh

  4. Alan Souza

    2 de abril de 2014 4:53 pm

    Jânio Quadros tinha uma

    Jânio Quadros tinha uma facies que já denunciava o que ia pela cabeça dele. Me espanta é o paulistano tê-lo eleito prefeito em 1986, depois de sua história ser extensamente conhecida…

    1. Fábio Lúcio

      3 de abril de 2014 12:21 am

      Por causa da concorrência

      Elegeram o Jânio em 86 porque o concorrente era Fernando Henrique.

      1. Véio Zuza

        3 de abril de 2014 2:10 pm

        Eh eh eh eh
        Muito boa!
        O 2o.
        Eh eh eh eh

        Muito boa!

        O 2o. maior mico pago pelo “Príncipe dos Sociólogos” (o primeiro foi pagar reconhecer e pagar pensão por filho alheio…): sentou na cadeira antes da hora e depois o Jânio desinfetou a dita com álcool (etílico?)…
        ehehehe

  5. pedro piva

    2 de abril de 2014 9:29 pm

    janio quadros

    Nassif,

     

    Perto de sua morte, Jânio estava em sua cadeira de rodas, moribundo, e foi rodeado por parentes (Tutu etc) indagando-lhe acerca das contas no exterior.

    Perguntavam, perguntavam… e nada.

    De repente, o ex-presidente levantou a cabeça e bradou:

    — Paciência, substantivo abstrato!

    Morreu sem revelar as tais contas.

     

    Abraço.

     

    Pedro Piva

     

Recomendados para você

Recomendados