4 de junho de 2026

Escândalo da criptoestafa expõe, no mínimo, práticas obscuras dos irmãos Milei

Também veio ao debate público a relação que Milei mantém com quatro empresários, os responsáveis pelo lançamento da $LIBRA
Javier Milei com o empresário, Julian-Peh, responsável pela Kip Protocol, plataforma onde foi lançada a $LIBRA.

Escândalo da criptoestafa expõe, no mínimo, práticas obscuras dos irmãos Milei

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por Maíra Vasconcelos, especial para Jornal GGN

Inúmeras testemunhas, da época das campanhas eleitorais, e relacionadas à criptoestafa, comprovam que “quem paga ou pagava, poderia ter acesso a Milei”, afirmou Lacunza; os valores vão de 2 mil a 20 mil dólares.

O escândalo da mega estafa da criptomoeda $LIBRA, que alcançou cifras de bilhões de dólares e em poucas horas despencou, aconteceu por uma única razão: foi promocionada pelo presidente Javier Milei, em sua conta pessoal na rede social “X”. Então, naquele 14 de fevereiro, não aconteceu outra mera especulação do mercado cripto. Mas o episódio, o que expõe, é o modo como Milei administra sua agenda, relações e interesses públicos e privados. Ao menos quando era candidato, “há testemunhas que comprovam que Milei recebeu, entre 2 mil e 20 mil dólares, por cabeça”, daqueles que solicitaram ter uma entrevista. Isso veio à tona, porque um dos envolvidos no escândalo $LIBRA teria tido acesso à Casa Rosada, mediante um pagamento.

“Teriam pagado à Karina ou para alguém próximo à Karina ou alguém autorizado por Karina”. Todos esses esclarecimentos foram feitos pelo jornalista argentino Sebastián Lacunza, colunista do jornal “El DiarioAR”, em uma entrevista ao Jornal GGN, via chamada telefônica.

Finalmente, a criptoestafa, ainda investigada pelo Congresso argentino, deixa às vistas a pergunta sobre qual seria ou se realmente há atos de corrupção em que poderiam estar envolvidos Milei e sua irmã Karina, chamada de “o chefe”. Também veio ao debate público a relação que Milei mantém com quatro empresários, os responsáveis pelo lançamento da $LIBRA, que são considerados personagens escuros e são mal vistos até mesmo no meio cripto argentino.

No mínimo, afirmou Lacunza, os irmãos Milei “têm relações obscuras ou são diretamente corruptos”. No entanto, mesmo após o escândalo, segundo pesquisas, Milei mantém um índice de aprovação que chegaria até a 50%, o que o torna muito competitivo em caso de eleições, comentou o jornalista. Ele falou também sobre a “prática tóxica” de Milei de cobrar por candidaturas, como fez em 2021 e 2023, segundo testemunhas. Já que o partido “La libertad Avanza” não possui lista genuína de candidatos.

Até agora, o escândalo $LIBRA tem afetado a governabilidade de Javier Milei? E já há consequências políticas para o governo?

Acho que o governo está atravessado por uma continuidade de deficiências, escândalos, atos de corrupção, que não são, em si mesmos, determinantes, mas tudo isso o erosiona. E, sobretudo, está a dificuldade econômica, a queda na renda das famílias, a queda na qualidade do emprego, a deterioração dos serviços. Também falta ao governo ultradireitista margem política (de negociação no Congresso).

Em relação à corrupção, Milei tem sido um consultor com uma prática obscura, não declarada, em sua vida prévia à presidência. (Uma prática que) Preferiu não ser vista por parte dessa rede e, sobretudo, pelos grandes meios de comunicação e organizações econômicas que financiaram a sua candidatura. A alegada estafa foi um episódio grosseiro, que, de alguma maneira, divulgou muito mais a presunção de que Milei e sua irmã, no mínimo, têm relações obscuras ou são diretamente corruptos.

E, até agora, como a sociedade argentina tem respondido, segundo pesquisas de opinião, por exemplo? E como pode continuar respondendo, de acordo com o andar das investigações de uma possível corrupção dessa magnitude? Também, por ser um assunto muito atual, as criptomoedas, as finanças digitais, a sociedade tem também a exata dimensão do que aconteceu?

É preciso ver com pinça as pesquisas de opinião na Argentina. Se bem podem ser um indício, e, particularmente, acompanho as pesquisas, têm ocorrido erros muito severos. Pelo menos, nos últimos seis anos, aconteceram desacertos muito importantes na hora de prever um resultado eleitoral. No geral, todas (as pesquisas) coincidem em que a imagem positiva de Milei caiu, em parte, pela criptoestafa, e, em parte, devido a outros episódios de uma agenda demasiado ultra, e por sua vez, por causa do mal-estar econômico.

Mas caiu a níveis que fazem de Javier Milei ainda muito competitivo. As pesquisas em que está mais mal posicionado, o apontam com 35% e 40% de aprovação. E as pesquisas que lhe atribuem melhor aprovação, chegam a 50%. Ambas porcentagens posicionam Milei como um ator político muito competitivo para as eleições. Mas acho difícil prever qual é a fortaleza de Milei na sociedade e em seu eleitorado.

Quando explodiu o caso da mega estafa, começaram a falar sobre quatro empresários que foram os responsáveis pelo lançamento de $LIBRA, e que são personagens, dizem, bastante obscuros. E  tiveram algumas reuniões na Casa Rosada. Por isso, se esperava que Milei se desvinculasse desses empresários. Mas o presidente continuou dando declarações em sentido a apoiá-los. O que poderia ser interpretado sobre essa atuação do presidente no mundo cripto?

O escândalo, o que reflete, é que para ter acesso a Milei, quem paga ou quem pagava, poderia fazê-lo. Isso já está demonstrado por diversas fontes que consultei. Já estava demonstrado quando Milei lançou sua candidatura presidencial. Os investidores financeiros tentaram entrar em contato com Milei e receberam de Karina pedidos de 2 mil dólares, por cabeça, até 20 mil dólares. E alguns desses se concretizaram. Apenas para ter uma entrevista. Isso volta a aparecer nesse escândalo, porque algumas dessas pessoas, desses personagens obscuros teriam tido acesso a MIlei mediante um pagamento.

Agora, há indícios para se ter em conta, que Milei teve um crédito, pois toda a sua ação foi necessária para que a estafa fosse levada adiante. Não é que ele descobriu e foi enganado ou se juntou tarde a algo que já tinham organizado, ou que estava correndo e se confundiu. Senão que a sua divulgação foi o que habilitou o negócio, de outra forma, não teria acontecido.

E, em outra instância, ao menos me parece, o que reflete é uma moral muito ampla de Milei. Que não entende a diferença entre interesses públicos e interesses privados, qual é seu dever como presidente, qual é o cuidado que deve ter com a administração da sua agenda, e a utilização do seu cargo com negócios privados.

Essas finanças digitais descentralizadas têm muita relação e são praticadas pela ultradireita internacional. Trump foi o primeiro candidato presidencial a aceitar doações de campanha em criptomoeda. O que há de verídico, digamos, no estereótipo do “cripto libertário”. E os ultras estão conseguindo fazer um bom trabalho, digo, por politizar a cripto a seu favor?

Não sei medir o alcance disso. Sim, é um ambiente cultural muito próximo dos ultras, porque parecem se sentir muito cômodos. Sobretudo, pela vocação de Milei para levantar todo o controle, de habilitar os mecanismos de comercialização a uma plataforma cripto, ou através de plataformas cripto. Então, isso gera uma empatia que é explícita. (Milei) É uma figura que tem despertado muito interesse em referentes criptos globais, que têm promocionado seus produtos com a figura de Milei. E Milei disse que abre totalmente a porta do Estado argentino para eles.

Agora, quanto dos negócios vinculados ao mundo ultra se canalizam através das criptomoedas, não tenho uma dimensão exata. Não seria responsável se eu dissesse que isso tem um volume muito considerável ou não. 

Seguindo essa linha dos debates trazidos a público pelo escândalo da mega estafa. O financiamento do partido do governo, “La libertad Avanza”, até onde se sabe, como é a arrecadação de campanha? Poderia passar pelo mundo das finanças digitais? O que se sabe sobre isso?

Não sei, é provável. Como te dizia anteriormente, não tenho certeza, ou uma prova para afirmá-lo. O financiamento, até agora, do projeto de Milei, uma parte, foi pela via clássica de aportes empresariais, das grandes corporações da Argentina. Isso está bastante provado. Me refiro aos grupos Techint, Bulgheroni, entre outros. E, outra parte, foi por esse mecanismo vulgar de Karina Milei de cobrar pelas entrevistas. É preciso ver quanto isso foi para a campanha e quanto foi para a família Milei. E, por sua vez, Milei tem uma prática bastante tóxica que é cobrar pelas candidaturas. Tem várias testemunhas que apontam isso nas listas das Províncias. Inclusive, deputados federais eleitos. Além do mais, criaram uma fundação, FARO, cujo diretor executivo é o ultra, (Agustín) Laje, um divulgador de ideias extremistas, negacionistas, e violento, que tem recebido financiamento de empresas da Argentina, de primeira ordem, em uma quantidade importante. E isso foi quando Milei já estava no governo. Novamente, a confusão entre os negócios privados a partir das instituições estatais torna-se algo muito difuso.

Desculpa, mas não entendi muito bem isso de cobrar por candidatura, o que seria exatamente? Como foi?

Como a “La Libertad Avanza” não tinha lista de candidatos para as legislaturas locais, ou para a lista de deputados e senadores, em 2021 e 2023, se organizou a venda dessas candidaturas. Porque como Milei era uma figura popular, foi visto como atrativo em setores ultraconservadores, em trânsfugas provenientes da UCR (União Cívica Radical), ou do partido Justicialista peronistas dissidentes, também da direita tradicional, de meros oportunistas, homens de negócios, que se viram atraídos por estar na lista de deputados e senadores de Milei, prevendo que teriam tantos votos; em determinada provincia, como Neuquén, Córdoba, Mendoza. Por não ter uma lista política genuína, algumas dessas candidaturas foram vendidas. Tem testemunhas que o afirmam. Bom, entregaram as candidaturas, e alguns foram eleitos. 

Karina Milei é uma figura muito importante e está no centro das relações de Milei. Você falou dela também anteriormente. Bom, ela estaria nesse caminho das investigações do caso $LIBRA, já que supostamente ela está em tudo o que diz respeito a agenda do seu irmão. Como Karina Milei pode ser vista nesse cenário do escândalo da criptomoeda?

A porta de entrada do gabinete de Milei passa por Karina. Tanto pela autorização política, como pela autorização econômica. Quando Milei era um consultor econômico e candidato, Karina administrava esses acessos. Aparentemente, segundo testemunhas vinculadas à criptoestafa, continuavam habilitando (esses acessos ao presidente) quando Milei já estava na presidência, e teriam pagado, alguns desses lúmpenes, até para tirar uma foto. Teriam pagado para a Karina ou para alguém próximo à Karina ou alguém autorizado por Karina. Até para tirar uma foto com Milei.

Se normalizou isso.. todos sabem e é assim que funciona? Para ter acesso a Milei se faz um pagamento de tantos mil dólares, para tirar uma foto, paga-se outros tantos mil dólares? Se normalizou essa relação do presidente?

Bom, não sei se a palavra é “normalizado”. Sim, antes existiu isso na política, eu não negaria, mas teria sido feito de modo mais secreto. Agora, a verdade é que são numerosas, tanto as testemunhas relacionadas à criptoestafa, como as testemunhas da época de quando Milei era candidato presidencial (que relatam sobre o pagamento para ter acesso ao presidente).

Maíra Vasconcelos é jornalista e escritora, de Belo Horizonte, e mora em Buenos Aires. Escreve sobre política e economia, principalmente sobre a Argentina, no Jornal GGN, desde 2014. Cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina (Paraguai, Chile, Venezuela, Uruguai). Escreve crônicas para o GGN, desde 2014. Tem publicado um livro de poemas, “Um quarto que fala” (Urutau, 2018) e também a plaquete, “O livro dos outros – poemas dedicados à leitura” (Oficios Terrestres, 2021).

Maira Vasconcelos

Maíra Mateus de Vasconcelos – jornalista, de Belo Horizonte, mora há anos em Buenos Aires. Publica matérias e artigos sobre política argentina no Jornal GGN, cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina. Também escreve crônicas para o GGN. Tem uma plaqueta e dois livros de poesia publicados, sendo o último “Algumas ideias para filmes de terror” (editora 7Letras, 2022).

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