22 de junho de 2026

Valorização do Dólar e Riqueza Americana, por Fernando Nogueira da Costa

Renda anual de US$ 27 mil no Mississippi pode parecer maior que US$ 25 mil no Japão. Mas isso ignora o custo de vida real em cada país.
Lee Jae Won

Valorização do Dólar e Riqueza Americana

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Fernando Nogueira da Costa

No ranking global de riqueza do Credit Suisse 2019, estavam na ordem: Estados Unidos (US$ 105,99 trilhões ou 29%), China (US$ 63,83 trilhões ou 18%), Japão (US$ 24,99 trilhões ou 7%), Alemanha (US$ 14,66 trilhões ou 4%), Reino Unido (US$ 14,34 trilhões ou 4%), França (US$ 13,73 trilhões ou 4%), Índia (US$ 12,61 trilhões ou 3,5%), Itália (US$ 11,36 trilhões ou 3,5%), Canadá (US$ 8,57 trilhões ou 2%), Espanha (US$ 7,77 trilhões ou 2%). O Brasil com US$ 3,54 trilhões tinham 0,98%.

Os EUA continuavam sendo de longe o país mais rico do mundo. Entretanto, em conjunto, os países da Ásia tinha um patrimônio líquido maior diante o dos EUA: US$ 141,21 trilhões, ou cerca de 39% do total mundial.

A pobreza dos países subdesenvolvidos também era evidente. África e América Latina controlam apenas 1,14% e 2,75% da riqueza mundial, respectivamente.

Os EUA, a Europa e a China controlavam quantidades comparáveis ​​da riqueza mundial, indicando a importância das relações comerciais para a economia global.

Os pesquisadores dessa fonte, o Credit Suisse, definem riqueza ou patrimônio líquido como a soma total de todos os ativos financeiros menos quaisquer dívidas: é saldo ou estoque – e não fluxo. A metodologia pode ser contestada quanto a não considerar o valor de ativos intangíveis, como geografia ou patrimônio cultural.

Em fluxo de renda, no ranking dos 10 maiores PIBs, em 2023, o Brasil ficou em 9º. lugar com US$ 2,173 trilhões superando o Canadá. A Espanha ficou “de fora”.

As aparências enganam quando se utiliza o dólar como unidade padrão para comparações internacionais. De fato, quando se compara a renda média em dólares nominais, os estados mais pobres Estados Unidos (como Mississipi) aparecem como mais ricos diante muitos países desenvolvidos (como as maiores economias europeias e Japão). Isso revela uma distorção sistêmica na mensuração da desigualdade internacional mais bem compreendida ao se considerar a Paridade do Poder de Compra (PPC).

Há o problema da conversão nominal pelo câmbio de mercado. A taxa de câmbio nominal é influenciada por fatores financeiros e de curto prazo: políticas monetárias, paridade entre taxas de juros, risco-país, fluxo de capitais, entre outros. Isso gera supervalorização do dólar e aumenta artificialmente a renda dos EUA quando expressa em dólares nominais. Em consequência, há subvalorização das moedas de muitos países, inclusive o real, distorcendo a percepção da renda real de suas populações.

Assim, uma renda anual de US$ 27 mil no Mississippi pode parecer maior que uma de US$ 25 mil no Japão. Mas isso ignora o custo de vida real em cada país.

A PPC busca medir o poder de compra real de uma moeda, ou seja, quantos bens e serviços possíveis de serem adquiridos localmente com uma determinada renda. Se ajustarmos as rendas nacionais pela PPC, por exemplo, o Japão, com custo de vida mais elevado, mas preços relativamente mais baixos em vários serviços públicos (como saúde e transporte), sobe no ranking.

O Brasil, com moeda desvalorizada nominalmente, mas com preços mais baixos para bens e serviços locais, também aparece com maior poder de compra real diante o indicado pelas rendas em dólar: em 2023, sua renda per capita nominal de US$ 10.300 correspondia a US$ 19.083 em PPC. O Mississippi, mesmo com renda em dólar relativamente alta, enfrenta preços médios semelhantes ao restante dos EUA, reduzindo seu diferencial quando medido em PPC.

Simulação comparativa ilustrativa (valores aproximados, para 2023-2024)

Região / PaísRenda Média Anual Nominal (US$)Renda em PPC (US$) aprox.Observações
Mississippi (EUA)~27.000~27.000Dólar nominal = dólar PPC
Japão~25.000~35.000Custo de vida mais alto, iene subvalorizado
Alemanha~28.000~38.000Euro mais próximo da paridade, mas com alta carga tributária
Reino Unido~30.000~39.000Libra forte, mas custo de vida muito elevado
Brasil~10.300~19.000Real muito subvalorizado; poder de compra doméstico maior

Valores meramente ilustrativos com base em dados de PIB per capita ajustado por PPC e média salarial. Para precisão, consultar bases como o World Bank, IMF ou OECD.

Há implicações para análise macroeconômica. A PPC corrige a ilusão monetária internacional criada por taxas de câmbio capazes de refletirem dinâmicas financeiras mais diante as produtivas.

Reorganiza a hierarquia real entre países: muitos países centrais aparecem menos ricos, e periféricos, menos pobres como sugerem os dados nominais. Afeta a compreensão das desigualdades: um brasileiro médio talvez tenha acesso relativamente similar a certos bens e serviços comparado a um trabalhador médio no Mississippi, embora ganhe “menos” em dólares;

Isso revela o ganho norte-americano com a hegemonia monetária dos Estados Unidos. O dólar supervalorizado perpetua sua centralidade na economia global, mantendo a ilusão de riqueza superior mesmo em regiões economicamente deprimidas internamente.

Um indivíduo com patrimônio de R$ 6 milhões no Brasil — equivalente a aproximadamente US$ 1 milhão ao câmbio atual — pode desfrutar de um padrão de vida e status social superiores aos de um milionário em dólares nos Estados Unidos, especialmente quando se considera o custo de vida e o poder de compra locais. Esses 6 milhões de reais permitem acesso a imóveis de alto padrão, serviços domésticos, educação privada de excelência e lazer de luxo.

O custo de vida, embora elevado em grandes centros urbanos, é geralmente inferior ao dos EUA, especialmente em áreas como saúde e serviços pessoais. A presença de um número relativamente menor de milionários (em dólar) aumenta o status social desse indivíduo.

Nos Estados Unidos, US$ 1 milhão, embora seja uma meta inalcançável para muitos, pode não garantir o mesmo nível de conforto em áreas metropolitanas como Nova York ou San Francisco, onde o custo de vida é elevado. A concorrência por bens e serviços de luxo é maior, e o status de “milionário” é mais comum – existem cerca de 22 milhões –, diluindo o prestígio associado a essa condição.

Distribuição de milionários: Brasil e Estados Unidos

PaísNúmero de Milionários
(2023)
Percentual da
População Adulta
Estados Unidos21.951.3198,5%
Brasil380.5850,3%

Fontes: Capgemini, UBS, Credit Suisse

Segundo o UBS, em 2021, com a moeda nacional depreciada, o país tinha 293 mil pessoas com mais de 1 milhão de dólares. O número de milionários brasileiros saltou para 413 mil, em 2022, com maior apreciação do real diante o dólar. Em 2024, esse número certamente diminuiu pela depreciação da moeda nacional.

O contexto econômico e social de cada país influencia o padrão de vida e o status associados à riqueza. No Brasil, a escassez relativa de milionários e o custo de vida mais baixo permitem um patrimônio de R$ 6 milhões proporcionar um estilo de vida mais luxuoso e um status social mais elevado diante o mesmo valor em dólares nos Estados Unidos.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: www.catarse.me/jornalggn “

Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

1 Comentário
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. JOSE OLIVEIRA DE ARAUJO

    24 de abril de 2025 8:32 am

    A primazia do dólar americano, transforma os EUA, numa espécie de gigolô monetário.

Recomendados para você

Recomendados