10 de junho de 2026

Por que Lula não rompe com Israel?, por Eduardo Vasco

A resposta se encontra na essência mesma do PT e da política dominante na esquerda brasileira há muitas décadas
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Por que Lula não rompe com Israel?

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por Eduardo Vasco

Diante de um genocídio histórico, de tantas condenações públicas, de humilhações causadas pela “diplomacia” israelense e da pressão popular interna, como é possível que um governo de esquerda, liderado pelo maior partido de esquerda do país e presidido por uma figura histórica da esquerda brasileira ainda não tenha rompido com o “estado” fascista, ditatorial e criminoso de Israel?

A resposta se encontra na essência mesma do PT e da política dominante na esquerda brasileira há muitas décadas: a crença na conciliação e na colaboração entre a classe operária e a burguesia – e, com ela, o imperialismo internacional. Lula e o PT têm medo de desagradar a direita, a burguesia nacional e o imperialismo.

Afinal de contas, a direita brasileira cultiva fortes vínculos com Israel e com os Estados Unidos. Isso não é novidade para ninguém. São vínculos de dependência. Mas essa mesma direita também mantém fortes vínculos com a própria esquerda brasileira – e, aqui, a dependente é a esquerda, não a direita. Basta ver as relações com os dois prefeitos de capitais que foram recentemente a Israel para adquirir a tecnologia militar utilizada para exterminar palestinos, iranianos, libaneses, iemenitas, sírios etc. Álvaro Damião (União Brasil), prefeito de Belo Horizonte, foi o vice na chapa de Fuad Noman (PSD), apoiada pelo PT nas eleições de 2024, e Cícero Lucena (PP), prefeito de João Pessoa, também recebeu o apoio do PT nas últimas eleições.

Também podemos lembrar que os partidos de direita com ministérios no governo Lula, considerados pelo PT como seus aliados, são todos alinhados com o sionismo. Para não dizer que os próprios senadores do PT votaram a favor da criação de um dia da “amizade” entre Brasil e Israel quando mais de 53 mil palestinos já haviam sido dizimados pelos “amigos” de tais senadores.

A dependência, no entanto, não é de Israel. Israel não passa de uma base militar do imperialismo americano e internacional para melhor dominar o Oriente Médio. O amo de Israel são os Estados Unidos. E os partidos e políticos que o PT pensa serem seus aliados estão às ordens do imperialismo americano. União Brasil, Republicanos, PP, PSD e MDB são representantes dos interesses imperialistas no Brasil.

Pertencem ao União Brasil Sérgio Moro (dispensa apresentações), Kim Kataguiri (cria dos magnatas do petróleo, os irmãos Koch) e Ronaldo Caiado (elogiado pelos banqueiros na Brazil Week em Nova Iorque). O Republicanos é o partido de Tarcísio de Freitas (ainda mais elogiado que Caiado na Brazil Week) e de Hamilton Mourão (com vínculos antigos com os militares americanos). Michel Temer, uma das principais lideranças do MDB, era informante da embaixada dos Estados Unidos e entregou o Brasil ao saque imperialista.

Esses partidos, os quais o PT acredita serem seus aliados e que na verdade estão sabotando o governo desde o primeiro dia, estão entre os principais instrumentos de dominação da burguesia nacional e internacional sobre a política brasileira. E claro, como uma típica burguesia nacional, a burguesia brasileira atua em função da burguesia imperialista – assim como seus veículos de comunicação. Todos, portanto, são fortes propagandistas e agentes dos interesses dos Estados Unidos – o que inclui a defesa dos crimes de Israel.

Nesse cenário, como Lula poderia romper com Israel? O rompimento com Israel significa o rompimento, ao menos parcial, com a burguesia brasileira, com os Estados Unidos e com a burguesia internacional, que tem Israel como seu testa de ferro na região mais importante do mundo do ponto de vista do comércio internacional e da extração de recursos naturais.

Em outras palavras: o que prende Lula e o PT e os impede de romper com Israel é precisamente a sua relação (de submissão) com os partidos da direita brasileira, a burguesia nacional e o imperialismo. Lula não romperá efetivamente com Israel se não romper com seus “aliados” internos – embora tenha ainda mais motivos para romper com estes, uma vez que se passam por aliados ao mesmo tempo que fazem uma campanha crescente de desestabilização e golpe contra o governo. E esses “aliados” compõem com o PT uma frente tão ampla que chega a englobar até mesmo o PL de Bolsonaro em diversos municípios Brasil afora.

E por que Lula e o PT não rompem com aqueles que eles mesmos sabem que os estão sabotando? Por medo de confrontar a burguesia e o imperialismo dentro do Brasil. Por medo de se desfazer das relações que mantiveram há décadas com os seus representantes. Porque muitos políticos do próprio PT dependem dessas relações.

A militância que exige nas ruas e tem realizado campanhas pelo rompimento com Israel, no entanto, não depende dessas relações. Ela deve ter claro o quão importante é aumentar as pressões pelo rompimento com Israel: o tensionamento das relações com Israel tensiona também as relações do PT com a direita, a burguesia e o imperialismo. Romper com Israel não significa apenas um gesto de apoio e solidariedade ao povo palestino, mas desnudará os agentes do imperialismo no Brasil, agudizará a luta de classes e mobilizará os trabalhadores e as massas populares para um grande enfrentamento com a burguesia – o que é necessário para superar todas as desgraças que afligem e oprimem o povo brasileiro, sobretudo em um momento em que quem dá as cartas e coloca toda a esquerda contra a parede é a direita e a burguesia.

Os trabalhadores e movimentos populares precisam ter claro que o grande obstáculo para o rompimento com Israel é a política de conciliação com a burguesia. E que é urgente superar essa política.

Eduardo Vasco – Jornalista especializado em política internacional, foi correspondente na guerra da Ucrânia e escreveu os livros-reportagem “O povo esquecido: uma história de genocídio e resistência no Donbass” e “Bloqueio: a guerra silenciosa contra Cuba”.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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  1. Carlos

    30 de junho de 2025 1:18 pm

    Romper ou não com Israel é irrelevante.
    Como bem definido no artigo, este estado fascista não passa de uma base militar dos eua no Oriente Médio. Um “estica”.
    Agora, quanto se associar a reptilianos, tem muita relevância a pergunta: “E por que Lula e o PT não rompem com aqueles que eles mesmos sabem que os estão sabotando?
    Isso, na minha opinião, já deveria ter ocorrido há muito. Quiçá, nem deveria ter ocorrido.

  2. Fauzi Achoa

    1 de julho de 2025 2:55 am

    O Brasil não rompe com Israel para manter-se coerente com a expulsão do embaixador nicaraguense no Brasil e com o veto do ingresso da Venezuela aos BRICS.

  3. NELSON VIANA DOS SANTOS

    2 de julho de 2025 7:03 am

    O segundo paragrafo do artigo do Eduardo Vasco é a síntese da desgraça que atinge a todos nós, progressistas. O PT há décadas é um elo a mais na corrente de dominação que aperta como um garrote a vida do povo mais pobre. Subserviência, medo, covardia, cinismo: isso é o que caracteriza as lideranças do Partido dos Trabalhadores. A PM da Bahia mata mais do que todas as polícias dos EUA, isso há anos (o PT comanda o estado há quatro mandados, se não me engano); e isso em um partido que na origem defendia os direitos humanos (apenas para citar um exemplo). Não é possível saber. Talvez, haja lideranças decentes e inconformadas com a situação descrita pelo Vasco mas, o que parece, é que o discurso em prol dos mais pobres, assim como as políticas (modestas) de cunho social são apenas instrumentos para obter votos. Nada a ver com um desejo sincero de transformação social. E o pior é que o PT se considera de “esquerda”. Seria cômico se tantos sonhos, esperanças e lutas não tivessem sido deixados para trás; como disse um verdadeiro revolucionário “na lata de lixo da história”.

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