6 de junho de 2026

“China e Europa são Parceiras, não Rivais”, por Samuel Spellmann

A Visita de Wang Yi no Marco dos 50 Anos de Relações China–União Europeia
Reprodução Reuters - Jason Lee

“China e Europa são Parceiras, não Rivais”: A Visita de Wang Yi no Marco dos 50 Anos de Relações China–União Europeia

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por Samuel Spellmann

Em paralelo à cúpula dos BRICS, a China realiza um giro diplomático pelo continente europeu no mês de julho em comemoração aos 50 anos do estabelecimento das relações diplomáticas entre China e União Europeia. Chefiada por Wang Yi, Ministro das Relações Exteriores da República Popular da China e Diretor do Escritório da Comissão de Assuntos Exteriores do Comitê Central do Partido Comunista da China, a visita teve início com encontros realizados na última semana em Bruxelas – 2 e 3 de julho – e Paris – 5 de julho.

O tour diplomático europeu, iniciado por uma recepção dos principais líderes do continente, encaminhou-se no final de semana para uma visita de Estado junto ao Presidente francês, Emmanuel Macron. 

Durante a visita, o Ministro Wang buscou reposicionar a China não como antagonista, mas como parceiro legítimo da Europa em um mundo que se reconfigura entre os limites do unilateralismo ocidental e os ensaios de uma nova multipolaridade.

O movimento representa mais do que um gesto simbólico. Foi uma afirmação estratégica da disposição chinesa em reforçar os vínculos com o continente europeu, à luz da crescente fragmentação da ordem internacional e do deslocamento das tensões hegemônicas para o eixo euroasiático.

O tom acertadamente interpretado como direto, assertivo e programático foi visto por parte da comunidade internacional como uma marca da visita de Wang Yi ao continente europeu. Ele também condiz com o seu papel único como Diretor do Escritório da Comissão de Assuntos Exteriores do Comitê Central, cargo de posição distinta à de Ministro das Relações Exteriores, a qual cumula.

Com firmeza, Wang Yi afirmou: “China e Europa são parceiras, não rivais. Não representamos uma ameaça mútua e não devemos nos tratar como adversários”[1]. Ao rejeitar as tentativas de enquadramento da China como ameaça sistêmica, Wang ressaltou que os desafios enfrentados pela Europa “não vêm, e não virão, da China”[2]. Essa formulação assume densidade política significativa: ela não apenas contesta o discurso securitário promovido por segmentos do establishment europeu, como também sugere uma inflexão de fundo – a aposta na autonomia estratégica da UE e no enfraquecimento do alinhamento automático com os Estados Unidos.

O Ministro enfatizou ainda que não há antagonismo de interesses fundamentais entre os blocos. “Não há conflito de interesses fundamentais entre a China e a União Europeia. A cooperação supera a competição, e o consenso supera as diferenças”[3].

Essa lógica de complementaridade retoma a linha tradicional da diplomacia chinesa pós-reforma: a valorização da estabilidade internacional como pré-condição para o desenvolvimento. Wang propôs, nesse sentido, a intensificação do diálogo político, a ampliação da coordenação multilateral e a rejeição das “narrativas de confronto artificial” que têm contaminado as relações sino-europeias.

No campo econômico, contudo, persistem divergências estruturais. A União Europeia expressou preocupação com o superávit comercial chinês, os subsídios industriais e as restrições à exportação de minerais estratégicos. Wang Yi respondeu com a reafirmação do compromisso chinês com a abertura de mercado e com a instalação de um “canal rápido” para atender às empresas europeias na China[4]. Argumentou ainda que as medidas de controle sobre exportações de terras raras são compatíveis com o direito soberano de regulação estatal e não configuram prática hostil[5].

A guerra na Ucrânia emergiu como ponto sensível. De acordo com o South China Morning Post, Wang Yi teria reiterado que a posição chinesa de não alinhamento e mediação pacífica. Aqui, entretanto, merece destaque ímpar a declaração de Wang sobre a questão. Em lição descrita como aula de realpolitik, o chefe da diplomacia chinesa teria afirmado que a China não deseja a derrota da Rússia, pois isso redirecionaria a atenção estratégica dos Estados Unidos ainda mais ao leste[6].

A China defende, assim, uma solução política para o conflito, sem adesão automática às sanções unilaterais ocidentais. Essa postura, criticada por setores europeus, está ancorada na lógica de contenção geoestratégica: uma Europa enfraquecida e atrelada a Washington não interessa à arquitetura multipolar defendida por Pequim. Ao mesmo tempo, ela oferece um posicionamento claro da China em relação à Europa: tal qual a China, a Europa também deveria buscar não se tornar parte do conflito.

A visita não foi bem recebida por parte da comunidade jornalística europeia. O jornal Le Monde qualificou como “impossível” o aquecimento das relações sino-europeias[7], apontando múltiplas controvérsias: dos veículos elétricos aos minerais estratégicos e à guerra na Ucrânia.

Publicamente, o porta-voz chinês Wang Yi, em Bruxelas, afirmou que “Terras raras não tem sido, não são, e não serão um problema entre China e Europa”, e que dúvidas europeias quanto ao controle de terras raras poderiam ser resolvidas por via legal e regulatória.

Fica clara a sinalização para uma tentativa de minimizar os atritos da parte dos chineses, trazendo-os para um âmbito jurídico-comercial, evitando, ainda que não sutilmente, o campo geopolítico. Caberia à Europa tomar também a iniciativa para a construção de uma harmonia de interesses estratégicos. Trabalhar para a evolução do conflito implica, na verdade, no atendimento de interesses outros que não os europeus.

Ao mesmo tempo, fica claro o entendimento chinês de que sua iniciativa de aproximação diplomática pode muito bem ser peremptória. Para Javier Vadell, a captura dos interesses regionais europeus sugere uma periferização progressiva do continente, tornado ano após ano satélite da economia dos Estados Unidos[8].

Por fim, Wang defendeu o aprofundamento de laços educacionais, culturais e tecnológicos, com ênfase em programas de mobilidade estudantil e cooperação em inteligência artificial. Os 50 anos de relações China–UE são interpretados não como comemoração retrospectiva, mas como ponto de inflexão para a construção de uma nova gramática de coexistência entre as partes. A ver os próximos passos da investida diplomática chinesa.

A cúpula bilateral prevista para 24 e 25 de julho poderia servir como espaço de consolidação de um novo pacto civilizacional, orientado pela racionalidade diplomática, pela simetria institucional e pela recusa à lógica de blocos. Uma aresta também poderia ser aberta para a reindustrialização do continente europeu, política pública sonhada por seus líderes. Nada, na atual composição do acerto europeu ocidental, parece sugerir tal entendimento, à despeito do prejuízo europeu evidente e progressivo, tanto economicamente, quanto à sua independência geoestratégica.

Samuel Spellmann – Doutorando em Relações Internacionais pela PUC Minas, professor e Coordenador do Curso de Especialização em China Contemporânea, na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). É pesquisador do China Working Group – International Initiative for Promoting Political Economy (IIPPE), School of African and Oriental Studies, University of London (IIPPE, SOAS).


[1] Ministry of Foreign Affairs of the PRC. Wang Yi Meets the Press with French FM Stéphane Séjourné. 5 jul. 2025. Disponível em: https://www.fmprc.gov.cn/mfa_eng/wjbzhd/202507/t20250705_11666227.html

[2] South China Morning Post. China ‘not a challenge’ to EU, Wang Yi says, adding that Europe’s troubles are not Beijing’s doing. 3 jul. 2025

[3] Ministry of Foreign Affairs of the PRC. Wang Yi Holds Talks with Josep Borrell in Brussels. 3 jul. 2025. Disponível em: https://www.fmprc.gov.cn/mfa_eng/wjbzhd/202507/t20250703_11664496.html

[4] China Daily. China, EU make efforts to stabilize ties amid challenges. 7 jul. 2025.

[5] Reuters. China’s foreign minister dismisses European worries over rare earths. 3 jul. 2025. Disponível em: https://www.reuters.com/sustainability/cop/eu-holds-back-signing-climate-action-pledge-with-china-ft-says-2025-07-07/

[6] South China Morning Post. China tells EU it does not want to see Russia lose its war in Ukraine: sources. Disponível em: https://www.scmp.com/news/china/diplomacy/article/3316875/china-tells-eu-it-cannot-afford-russian-loss-ukraine-war-sources-say

[7] Le Monde. The impossible warming of China-EU relations. Disponível em: https://www.lemonde.fr/en/international/article/2025/07/05/the-impossible-warming-of-china-eu-relations_6743065_4.html

[8] Trktónikos. De cara a la cumbre de Río: Brasil y el BRICS bajo ataque. Disponível em:  https://tektonikos.website/de-cara-a-la-cumbre-de-rio-brasil-y-el-brics-bajo-ataque/

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