O H do Homem Ney
por Marcelo Henrique e Júlia Schultz
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Ney transgride, porque efetua a completa desconstrução: identitária, de gênero, sexual; mas, se permite ser decifrado, em cada refrão, no balançar de sua pélvis, no olhar lancinante que nos atravessa, ao vê-lo no palco ou nos clipes, assim como nas entrevistas; e, ainda que, em sendo “alvos” de sua mirada, não sintamos qualquer ardor ou dormência, tal é a afetuosidade que exala de sua íris castanha.
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“Sou um homem, sou um bicho, sou uma mulher
Sou a mesa e as cadeiras deste cabaré
Sou o seu amor profundo, sou o seu lugar no mundo
Sou a febre que lhe queima mas você não deixa
Sou a sua voz que grita mas você não aceita
O ouvido que lhe escuta, quando as vozes se ocultam
Nos bares, nas camas, nos lares, na lama”
(“Mal Necessário”, música de Mauro Kwitko, gravada por Ney Matogrosso, em 1978, no álbum “Feitiço”).
Nosso coração transborda de emoções, verdadeiras. Bem possível porque da tela exalam sentimentos que foram vividos, no tempo e no espaço da nossa trajetória humano-espiritual nesta transição de séculos, entre o 20 e o 21. Personagens, situações, diálogos e – é claro poesias-canções – escreveram (e continuam escrevendo) a história viva e real de todos nós. A tela? “Homem com H”, o filme que retrata Ney Matogrosso, direção de Esmir Filho (maio, 2025), baseado no livro “Ney Matogrosso: a biografia”, de Julio Maria.
Não há como não se emocionar com Ney de Souza Pereira. Nascido em 1941, o menino desenhista (e, tempos depois, estilista de seus próprios figurinos de palco) de Campo Grande – na época em que Mato Grosso ainda era apenas um Estado brasileiro, pois não havia sido dividido ao meio, para se criar o do Sul (1977) – desafiou a rígida educação (e disciplina) paterna (um militar que havia servido na II Guerra), para ser “o que podemos ser”, vivendo “sonhos que podemos ter”, para usar a oportuna letra de Gessinger (1988), a voz dos Engenheiros do Hawaii.
Ney sonhou e foi. É. E será para sempre… Aos 83 anos continua influenciando gerações. Ditando a “moda”. E sendo uma das vozes marcantes no tempo dos reducionismos políticos e culturais-sociais, no pior tempo vivido por este país (1964-1985), que é revisitado nestes tormentosos dias de um Brasil (de 2025) que ainda sucumbe aos insanos desejos de suas viúvas (grande parte que não viveu o cinza-chumbo) deseje seu retorno. Ney é a prova viva da resistência. Sobre ele, disse Caetano Veloso: “um ser humano fascinante, que engrandece a percepção de nossa vida como sociedade” (Belém, 2021:s.p.)
E as lutas e dores não se restringem apenas à conjuntura político-social. Também estão na existencial. Um a um, seus amigos e amantes – não sei se é possível usar um “e” para separar essas “categorias” – na vida intensa de Matogrosso, foram “se indo”. Foram virando estrelas, compondo a constelação de memórias de um dos maiores intérpretes da MPB. Talvez seja melhor utilizar um “hífen”: amigos-amantes. Dos quais, um, em especial, Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza (1958-1990), precocemente levado em função de complicações derivadas da AIDS, igualmente se destaca como portador de uma aura de contestação e de incentivo à mudança (de dentro para fora), tanto individual quanto social.
Voltando à tela emotiva, este ensaio trata do filme “Homem com H” (que alcançou um público de 600 mil pessoas nos cinemas (arrecadando R$ 13 milhões), agora disponível na plataforma Netflix. Nele, Jesuíta Barbosa tem uma performance magnífica – várias vezes, tivemos de esfregar os olhos para ver se era ele, ou se era o Ney real – que nos faria dizer que ele “encarnou” ou “incorporou” de fato o personagem, na cinegrafia. Impressionante!
Introdutoriamente, a licença poética nos permite apontar vários epítetos para Ney, alcunhas que se encaixam perfeitamente em sua ambivalência espiritual, que têm raiz em várias das canções que o imortalizaram: “Homem com H”, “Bandido Corazón”, “Algoritmo Íntimo”, “Inclassificável”, “Pavão Mysteriozo”, “Metamorfose Ambulante”, “Sangue Latino”, “Louco” (da “Balada do Louco”), “Rosa de Hiroshima”.
A filmagem exorbita sensibilidade e impacta pelo realismo, tanto na reprodução de cenas, capas de disco, clipes e gravações de shows, assim como na maquiagem que vem dos “Secos & Molhados (S&M)” – banda de rock e MPB (“glam rock”) formada por Ney, João Ricardo e Gerson Conrad –, em seu álbum de estreia, com o nome da banda, “Secos & Molhados”. Como a TV era, numa época sem internet, a forma mais popular e ampla de difusão das artes – e, nesse caso, com Ney e sua banda, há que se usar o plural – o videoclipe da música que dá nome ao disco tem a “marca” da plenitude existencial do intérprete: a hipersensualidade ou o megaerotismo, na transformação de sua aparência fisionômica masculina em um ser andrógino e sexy, outra evidência do substrato contracultural diante da repressão militar ditatorial. Por vezes, inédito até então, S&M tinha o estilo de rock pesado e essa combinação rítmico-lírica o levou a alcançar estrondoso e célere sucesso – sendo aclamado pela crítica especializada até hoje. O álbum “Secos & Molhados II” (1974) encerra a fase com a formação original – Ney nos vocais principais – com a provocante “Flores Astrais” (1974): “O verme passeia na lua cheia”.
O próprio “glam rock” foi um movimento vinculado a um gênero musical criado no Reino Unido (1970), no uso de roupas extravagantes e penteado e maquiagem nitidamente ousados, assumindo a forma estética da androginia. Especialistas destacam que surgiu como oposição ao movimento hippie, calcado no exagero e no brilho, sendo uma válvula de escape para a arte. Marc Bolan (do grupo T. Rex) foi o seu pioneiro expoente, depois seguido por Slade e Mott the Hoople, com seguidores posteriores como Def Leppard, Cheap Trick, Poison, Kiss e Quiet Riot. Individualmente, seu principal expoente foi David Bowie, no que foi seguido por Lou Reed, Iggy Pop, New York Dolls e Jobriath. E, até mesmo, mais recentemente Boy George e Culture Club podem ser “encaixados” neste segmento. Mas o pioneirismo latino-americano de Ney, Ricardo e Conrad esteve sempre à frente!
E a pintura no corpo? Ah, você vai nos falar que se lembra da lendária banda Kiss – citada acima. Pois muito antes do Kiss, havia Secos & Molhados. Com suas “pinturas faciais, as danças sensuais, os adereços, o torço nu de Ney Matogrosso, a voz “feminina”, a androginia: tudo contestava os padrões estabelecidos ligados não apenas a comportamento de gênero e sexual, mas aos próprios limites da expressão humana como um todo” (Bahia, 2009:21). Tudo para ir além e contra os “bons costumes” e as “cárceres simbólicas e reais”, numa atitude consciente e politizada, dando voz ao coletivo (Fonteles, 2002), rompendo com o status quo dependente do viés patriarcal e conservador daquele regime autoritário que todos vivemos (e do qual não nos esqueceremos jamais! – e é essencial que não esqueçamos, pois seguem as sobras à espreita…).
O que dizer, então, do rosto pintado de Ney? Ah, esse, como destaca Fonteles (2002:39), “não fingia ser uma máscara”, revelando “dezenas de personagens que exalavam do corpo inteiro que cantava”. E, sem medo de sermos considerados hereges ou blasfemos, Matogrosso era (é) a própria encarnação do Pentecostes, onde línguas e seres distintos ganham voz – e vez!
Todo esse conjunto: figurino, pintura, dança, expressão, canto é uma fonte de inspiração para toda mulher e todo homem que percorrem o (nosso) solo terreno: romper com os padrões de uma sociedade hipócrita e asfixiante, por quem deseja viver sem medo, sem julgamento e sem a necessidade de provar nada para ninguém, em qualquer circunstância. Expressa, pois, o grito de liberdade que há em cada ser humano! Sobre ela, confidencia o nosso Bandido Corazón: “Eu persigo a liberdade o tempo todo. Ela é só o que me interessa” (Casaletti, 2021:s.p.).
Irrequieto, provocador, contestador, em 1976 protagonizou um show épico na Penitenciária Lemos de Brito (RJ), já que tinha sido unanimemente escolhido pelos detentos, para abrilhantar o Festival de Música. Nele, foi aclamado e “beliscado” por muitos deles, com marcas que fizeram a revista “Veja” depreciar o evento, para depois retratar-se. Para Nogueira (2016:s.p.), Ney, “Num momento em que as identidades sexuais e os comportamentos estavam marcados pela ordem normativa imposta pela ditadura, não só política, mas também de gênero, a erotização do corpo oferecia uma ideia alternativa de liberdade para aqueles que estavam reclusos”.
Ney dava o claro recado: – Todos podemos! Dizendo: “Careta é querer regular o comportamento. Se vamos lutar contra o preconceito, deve ser contra todos eles. […] O poder de me manifestar. Isso é o que eu quero. Mas o poder de controlar as pessoas não me interessa” (Playboy, 1981:30).
Voltando à banda, ela musicou poemas de Cassiano Ricardo, Vinicius de Moraes, Oswald de Andrade, Fernando Pessoa e João Apolinário (pai de João Ricardo). Seus principais sucessos, neste particular foram: “Rosa de Hiroshima”, “O Vira”, “Sangue Latino”, “Assim Assado”, “Primavera nos dentes”, “Mulher barriguda” e “O patrão nosso de cada dia”. Em menos de 18 meses, o grupo vendeu 1 milhão de cópias – um fenômeno para a época e para a discografia brasileira, sendo, Matogrosso, a voz do S&M.
Voz essa, aliás, que Belém (2021:s.p.) bem configura: “Ney Matogrosso canta muitíssimo bem, com uma voz que, sem deixar de ser masculina, aproxima-se da feminina. Mas o que importa mesmo é que, quando canta, a música passa a ser sua, porque a interpreta de modo diferente da versão convencional. Não há um Ney Matogrosso “standard”. Música, quando passa pela sua boca, deixa em parte de ser de quem a fez e passa a ser também do artista. Ele a recria. Pode-se dizer que, de algum modo, o intérprete “recompõe” a música – criando uma espécie de autoria, ou, mais precisamente, de coautoria”.
Em carreira solo, Ney gravou seu primeiro disco “Água do Céu – Pássaro” (também conhecido como “O homem de Neanderthal”, 1975), ousado, com sonoridade vanguardista e com a presença da natureza em seu corpo (tintas feitas com materiais do solo e vegetais), suas vestes (pelos de macaco, chifres, dentes de boi) e nos sons (macacos, ventos, pássaros e água corrente). Considerado extravagante (talvez, demais), teve pouca vendagem, apesar de um rico repertório, com canções de Milton Nascimento/Rui Guerra, João Bosco/Adir Blanc. Destacam-se, nele, “Coubanacan”, um mambo, “Barco Negro”, um lindíssimo fado da magistral Amália Rodrigues. Junto a esse disco havia um compacto gravado na Itália com o grande instrumentista portenho Astor Piazzola – duas músicas, “As Ilhas” e “1964 (II)”.
O reconhecimento de público e crítica – similar ao do S&M – veio no álbum seguinte “Bandido”, com a icônica “Bandido Corazón” (de Rita Lee), além de “Pra não morrer de tristeza” (João Silva e Caboclinho”, “Trepa no coqueiro” (Ari Kerner), “Gaivota (Gilberto Gil) e a atemporal “Mulheres de Atenas” (Chico Buarque/Augusto Boal). Este disco e os shows e clipes são considerados, até hoje, como os mais ousados de toda a sua carreira.
Com “Pecado” (1977), Ney consagra sua polifonia e polissonoridade estilísticas, desfilando entre o rock (“Metamorfose Ambulante”, de Raul Seixas e “Com a Boca no Mundo”, de Rita Lee/Luís Sérgio/Lee Marcucci), a bossa nova (“Desafinado”, de Tom Jobim/Newton Mendonça), o tango (“Retrato Marrom”, de Fausto Nilo/Rodger Rogério), o jazz (“San Vicente”, de Milton nascimento/Fernando Brandt), o choro (“Da Cor do Pecado”, de Bororó, célebre na voz do gigante Silvio Caldas, em 1939) e o rock balada (“Sangue Latino”, de João Ricardo e Paulinho Mendonça, que havia sido um sucesso no primeiro disco do S&M).
Sua discografia, completa, segue ao final deste ensaio lítero-poético-musical, que homenageia o grande “showman” nacional – a expressão perfeita para identificar o artista, como destaca sua biógrafa.
Sua voz – ímpar – um contratenor que alia as competências das vozes femininas e masculinas (e, aí, estamos diante de uma androginia biológica verossímil) permitia tessituras amplas e facilmente executadas, sem trinados nem desafino. Quando eu, Júlia, ouvi pela primeira vez a música “A Rosa de Hiroshima”, na sua voz, contava com cerca de 13 anos de idade, emocionada chorei a música inteira e ao final desejava saber quem era aquela mulher que cantava daquela forma tão intensa e envolvente? E, para a minha surpresa, me disseram que era um homem, lembro de ter ficado estupefata e pensar no quão especial devia ser alguém tão diferente assim. E, como a grande paixão de Ney sempre foi o teatro, sua expressão facial e corporal, os movimentos de dança e a interpretação permanente deram-lhe ontem e hoje uma presença de palco marcante. Para mim, Marcelo Henrique, em especial, desde a primeira vez em que o vi, ao vivo: era 28 de abril de 1982, e Matogrosso foi a estrela da inauguração do maior shopping center de Santa Catarina, o Itaguaçu, em São José, na Grande Florianópolis. Mesmo sendo, eu, um adolescente, não havia como “desgrudar” dos movimentos de seu corpo, embalados por uma voz “ácida e doce”, outra marca de sua ambiguidade poética. Ficou e está na minha tela mental, até hoje…
Seco ou Molhado? Os dois! E permanentemente. Ou seja, de uma aparente ambiguidade que poderia ser, a priori, contraditória, Ney foi o dois-em-um da arte e da sexualidade. E, por isso, talvez escandalize tanto, porque é impossível (exteriormente, para quase todos), gostar, como Manfredini (o Russo) “de meninos e meninas” (Legião Urbana, 1989). Por quê? O que (nos) impede? A moral judaico-cristã e suas “amarras” (sacramentos, castigos, dores e penitências). Viva e deixe morrer (viver), como escreveu e cantou McCartney.
E o Amor? Ah, o amor… Não há como não identificar um amor multidimensional e perfeccionista como o de Ney por sua mãe Beita. Era ela o seu refúgio, o seu bálsamo, a sua seiva de espiritualidade. Diversas cenas retratadas na película mostram a presença materna em shows e outros eventos, assim como nos diálogos em diferentes fases da vida. Protegendo-o do trogloditismo do pai, Antônio Mattogrosso, no lar dos Pereira, para que o menino pudesse desenhar, pintar, criar, em paz, aliás, a paz que sempre procurava manter, evitando aborrecer os outros, mas se impondo pouco a pouco para ser quem ele queria ser… Havia, no contexto familiar e na relação pai e filho a busca incessante desse último em alcançar o reconhecimento e o amor (explicitado), por toda a trajetória de vida. Ney amava muito seu pai e queria estar a ele identificado – a ponto de se alistar também na aeronáutica, onde o pai era oficial e, estando por lá, ser um exemplo de soldado, um motivo de orgulho para o seu pai. Então, você há de se perguntar: será que pai e filho tiveram tempo para uma reconciliação? Veja o filme ou leia o livro!
O fato é que, entre saltos e sobressaltos, Ney nunca deixou de amar seu pai, porque sabia, no fundo, que havia algo lá dentro do homem fardado que, na rua e em casa, nunca havia beijado qualquer de seus filhos. É Ney, então, quem beija… Como disse Barbosa (2025:s.p.), fundindo sua própria história à de Ney, “não é que nossos pais não tenham tido amor por nós. Eles apenas transmitem aquilo da forma que receberam. Não sabem lidar com o amor, com as possibilidades de um mundo novo que os assusta e que de alguma forma também os aprisiona”.
Mas há o amor carnal, obviamente. Na bissexualidade de Matogrosso, as figuras masculinas despontam e são o destacado enterro da hipocrisia e da sempre presente incapacidade de respeitar o outro – até porque é impossível entender o que não se conhece. Mas não se pede entendimento, se exige respeito. E isto é ausente em todos aqueles que consideram ser possível encaixar o amor em formas exatas – e tradicionais, ortodoxas ou “validadas” pelas religiões humanas. Deus não tem, pois, sexo nem tem quaisquer limites para o amor! Fique isso bem claro…
Então, Ney amou Cazuza, e Cazuza amou Ney, intensamente. Não foi nenhum “até que a morte os separe” – mesmo que ela, lancinante, tenha abreviado a musicalidade e a impetuosidade de Agenor para nós que vivemos a realidade expressa na música “Brasil”, do álbum “Ideologia” (1988): “mostra tua cara, quero ver quem paga pra gente ficar assim”. E Cazuza e Ney “ficaram” – quatro meses de namoro –, sem que ninguém pudesse pagar o que eles (intensamente) viveram! Tanto que nosso ícone de brasilidade, arte e amor intensos a ele se refere: “Depois do Cazuza, eu admiti que poderia me apaixonar por alguém e viver com aquela pessoa”.
E viveu. Pois, depois de Cazuza, veio Marco de Maria, numa história de treze anos: o único com quem morou junto (e que também morreu de complicações da AIDS, em 1990). Marco, a quem Matogrosso definiu como seu “amor e amigo” (Andrade, 2025b). Vale dizer que ambos estavam separados quando houve a descoberta do diagnóstico clínico: negativo para Ney e positivo para Marco. Então, voltam a viver juntos, nos quatro anos de luta contra a doença e, na fase mais aguda, disponibilizou um quarto de hospital em sua casa. O tratamento era caríssimo, mas Ney jamais aceitou um centavo da família de Marco, tendo até que fazer shows especificamente para o custeio das despesas. Isto é lembrado com muito afeto pela família De Marco, até hoje (Andrade, 2025b). Por que não eu? Por que não acontece comigo? – Ney se questionava, ao perder mais um dos seus amores. Possivelmente, por alguma razão que nos seja desconhecida, ele mereceu ficar entre nós, por mais tempo…
Aprendendo, com as duas dolorosas situações, vividas na própria pele, e que deixam marcas espirituais profundas, Ney também se revela um ícone contra o preconceito. Como destaca Barbosa (2025:s.p), com a autoridade de “ter sido” Ney, nas filmagens, o cantor “foi alvo de uma sociedade que olhava e julgava a doença de um jeito violento, cruel e preconceituoso”, como, aliás, todos os que convivem com o HIV, sendo homens ou mulheres, heteros, homo, bissexuais.
Temos, pois, de ser, cada um, aquele que “Oferece a outra face, mas não esquece o que lhe fazem” (Kwitko, 1978), porque o perdão (divino) existe em nós, e é o bálsamo que nos liberta daquilo que nos fazem, mas não anula o dever de lutarmos por um mundo mais “misericordioso, justo e bom”, como dizem ser os atributos da Divindade e que, por ser, o Universo, obra sua, também devam ter, quem sabe, um dia, os mesmos caracteres…
O terceiro maior cantor latino-americano (“Rolling Stone”, revista especializada) é mesmo um personagem camaleônico. Não que nós, “pobres mortais” também não tenhamos nossos momentos furta-cor e multicoloridos (como a linda bandeira arco-íris que representa a comunidade LGBTQIA+). Temos sim! Se permita ser camaleônico, ora pois! Isto não lhe fará menos, pelo contrário, lhe tornará MAIS, porque será a sua essência – e essa, não é preto-e-branco, nem cinza, nem estática, nem estanque: é “mutatis mutandis”!
Ou, em outras palavras, ele sempre foi, é e será alguém que “marca posição tanto contra esquemas sexuais, quanto contra esquemas identitários essencialistas e puristas – raciais, nacionalistas, territorialistas, religiosos, etc. – para oferecer um caminho alternativo de desobediência descarada, muito além da dimensão espetacular frequentemente construída pelos meios de comunicação de massa, o que constitui, sem dúvida, um caso ímpar de inserção e intervenção nos canais midiáticos mainstream”, como ilustra Nogueira (2016).
Bem no “fígado” da gente hipócrita (Gil, 1982), exatamente como ele interpreta a poesia musical de Antunes (1997), “Inclassificáveis”: “Que preto, que branco, que índio o quê? […] Somos o que somos / Inclassificáveis”. E não é? Pra quê rótulos e idiossincrasias, pra quê separar, “nivelar”, desclassificar?
O mais “curioso” nisto tudo, como relata seu biógrafo, é que Ney foi, é e será “um cantor que nunca pensou em ser cantor. Não quis ser nenhum outro artista. Ele tem uma alma livre, o que o torna um artista único” (Casaletti, 2021:s.p.).
Voltando à filmografia, vale lembrar que o próprio Matogrosso atuou como “revisor” do texto, que teve 17 versões. A filmagem e o seu resultado final, que encheu nossos olhos, bocas e Espíritos, como bem pontua Andrade (2025a:s.p.), desnuda o cantor e mostra como “Ney se liberta de opressões e figuras de autoridade, quebra preconceitos e se consagra como um dos artistas mais influentes de sua geração”.
Para terminar, resgatamos a expressão daquele que, nos palcos do filme, lhe deu vida, interpretando-o, Jesuíta Barbosa: “eu sabia que havia um longo caminho a percorrer até chegar na construção adequada de uma das personas mais enigmáticas da música brasileira”. Enigmático, sim, porque “decifrá-lo é impossível. Recriá-lo, não” (Barbosa, 2025:s.p.).
Daí, lembrarmos do bordão: “Decifra-me, ou te devoro”, como a Esfinge de Tebas da mitologia grega. O devorar pode ser sexualmente, com a marca do Eros que há na espécie animal, apesar da perfectibilidade que resulta da expansão dos sentimentos. Pode ser, também, o devorar, o aniquilamento, como faz a serpente mitológica com os incautos, aplicando-se lhe a destrutibilidade (ainda que somente em relação à efemeridade material, subsistindo a essência espiritual).
Não vamos dar “spoilers” sobre o filme – apesar de, talvez, já termos esboçado alguns. Fica o convite para que você corra para assistir, no “Streaming”…
Ney, enfim, transgride, porque efetua a completa desconstrução: identitária, de gênero, sexual; mas, se permite ser decifrado, em cada refrão, no balançar de sua pélvis, no olhar lancinante que nos atravessa, ao vê-lo no palco ou nos clipes, assim como nas entrevistas; e, ainda que, em sendo “alvos” de sua mirada, não sintamos qualquer ardor ou dormência, tal é a afetuosidade que exala de sua íris castanha: “teus olhos castanhos / de encantos tamanhos / são pecados meus, / são estrelas fulgentes, / brilhantes, luzentes, / caídas dos céus, / Teus olhos risonhos / são mundos, são sonhos, / são a minha cruz, / teus olhos castanhos / de encantos tamanhos / são raios de luz” (José, 1951). Ambíguos, antagônicos, antinômicos. Mas, também, circunstantes, retro cognitivos, univitelinos. Necessários, como Ney!
Finalizando, merecemos, nós, contrariar a predição de Ney acerca de si próprio, em “Sangue Latino”: “Jurei mentiras e sigo sozinho”. Não Ney, você não segue sozinho. Segue conosco! Ou nós é que seguimos com você!
Fontes:
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