4 de junho de 2026

PIM-PF: a atividade industrial cede ao forte ciclo de alta da SELIC

O tímido início da recuperação da indústria, não resistiu ao forte ciclo de alta da Selic, seundo a BPCT Consultoria Econômica
José Paulo Lacerda - CNI - Reprodução

PIM-PF: a atividade industrial cede ao forte ciclo de alta da SELIC

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por Luiz Gonzaga Belluzzo, André Passos Santos, Nathan Caixeta e Murilo Tambasco

Nos últimos dias, o IBGE divulgou as estatísticas da produção industrial do país relativas ao mês de maio. A tradicional Pesquisa Indústrial Mensal (PIM-PF), responsável por avaliar a evolução da produção física da indústria brasileira, revelou um desempenho preocupante: uma acentuada queda de 0,5% em relação ao mês anterior, marcando o pior resultado desde novembro de 2024.

Este recuo aprofunda a trajetória negativa iniciada em abril, quando foi registrado uma retração de 0,2%,  e elimina  parte do ganho de 1,5% acumulado no primeiro trimestre de 2025, em comparação com os níveis observados no mesmo período do ano passado.

O tímido início da recuperação da indústria, celebrado pela imprensa pelo destaque de seu desempenho no cenário global, não resistiu ao forte ciclo de alta da taxa básica de juros (SELIC), iniciado em setembro de 2024. Em maio, os segmentos de bens de capital e bens de consumo duráveis, que exigem maiores volumes de investimentos e são especialmente sensíveis ao encarecimento do crédito, foram os mais impactados dentre as grandes categorias econômicas, com retrações de 2,1% e 2,9%, respectivamente.

Este panorama também se reflete no desempenho de outras atividades industriais. Destacam-se o recuo de 0,4% da indústria de transformação, a retração de 0,2% na fabricação de máquinas e equipamentos, a  menor produção de bens duráveis como automóveis (-3,9%) e eletrodomésticos da linha marrom e a recuperação ainda insuficiente da metalurgia. Além disso, nos últimos meses, setores de alto valor agregado e intensivos em capital, como a fabricação de equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos, máquinas, aparelhos e materiais elétricos, bem como produtos químicos e farmoquímicos, apresentaram um baixíssimo desempenho.

A estagnação destas atividades industriais é particularmente preocupante, considerando a exigência de elevados investimentos em infraestrutura, pesquisa e desenvolvimento, emprego de mão de obra qualificada e utilização de tecnologias de ponta. Estes são setores estratégicos para o aumento da produtividade e o crescimento sustentado da economia, na medida em que promovem o avanço tecnológico, integração de cadeias industriais complexas, estímulo à inovação e fortalecimento da competitividade da indústria nacional.

O destaque positivo ficou por conta da indústria extrativa, que registrou crescimento de 0,8%, impulsionada por conta da maior extração de minérios de ferro, seguindo em sua recuperação e expansão desde o mês de fevereiro.

Dados do IBGE sugerem que o setor extrativo multiplicou por seis a sua participação no valor adicionado ao PIB brasileiro nas últimas três décadas partindo de um patamar de 0,7% em 1995, para 4,2% em 2024, enquanto a indústria de transformação perdeu espaço, saindo de 16,4% para 14,4%.Essa tendência histórica não apenas continua a ser observada, como sugere sua futura intensificação, com o crescente descolamento entre as linhas de desempenho entre os dois setores, que são impactados de diferentes formas pelo ciclo econômico.

Cabe avaliar que os impactos do aperto monetário na economia real apresentam uma defasagem de 6 a 9 meses, assim como defendido pelo Banco Central do Brasil. Desta forma, o aumento da taxa SELIC ainda exercerá um grande impacto na economia real nos próximos meses, com o encarecimento do crédito ao empresariado, redução das expectativas de demanda e, consequentemente, postergação das decisões de investimento, o que potencialmente pode significar reversão de todo o crescimento acumulado da indústria brasileira neste ano.

Mesmo com resultado negativo deste mês, a indústria brasileira ainda apresenta um avanço de 1,8%  nos primeiros 5 meses de 2025 e 2,1% no acumulado em 12 meses.

Luiz Gonzaga Belluzzo – Sócio da BPCT Consultoria Econômica

André Passos Santos – Sócio da BPCT Consultoria Econômica

Nathan Caixeta – Sócio da BPCT Consultoria Econômica

Murilo Tambasco – Sócio da BPCT Consultoria Econômica

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  1. José Carvalho

    17 de julho de 2025 5:34 pm

    O que falta ao Brasil é procurar medir o quanto ele quer a sua transformação. O País aceitou que não teria a necessidade de ter indústria para atender apenas a parcialidade da população que encaixasse ao pensamento então assumido em relação ao crescimento. Diante do cenário sem maiores perspectivas, o País abriu mão de muita coisa, desde o abandono do seu processo de industrialização, de realizar o estabelecimento na infraestrutura das diversas áreas, etc. A lógica de que atrair grandes volumes de dólares para uma boa flutuação cambial, à base de juros e o rebaixamento da inflação, não levou em consideração que tudo está em constante movimento. A diversificação do setor financeiro , mesmo com a SELIC mantendo patamar alto durante praticamente todo o tempo, apesar do custo elevado permitiu ainda que de maneira lenta a incorporação de consumidores nas etapas da economia. Na ausência de objetivos de longo prazo, esses investimentos que precisam de bastante dinheiro são preteridos. Isso também afeta a Indústria que acaba não podendo arriscar passos com alguma segurança de manter a sustentação. Sem essa conclusão sobre a transformação que quer, não vai acontecer nada diferente.

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