Caindo o dólar, como ficam os rankings?
por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva
Quem me lê sabe que tenho uma verdadeira ojeriza aos rankings. Sobre isso já escrevi diversas matérias neste e em outros espaços. Sobre isso, sugiro ler a série “Economia comparada e a epidemia dos rankings”. Mesmo assim, defendo a inclusão de uma disciplina de Economia Comparada em todas as escolas de ciências econômicas. Medir performance é uma dificuldade em todas elas. Na Contabilidade, é a mutabilidade dos índices na análise de balanço, sempre na tentativa de alinhar a interpretação dos resultados às tendências da teoria econômica. Os exemplos mais recentes são a tentativa de medir o grau de conflito de agência sob o enfoque da Teoria Institucional, estimar good will, principalmente em empresas de capital fechado, e os riscos. Na administração, é adoção de mandracarias como balance score cards e Theory of Constraints. Na Economia, são estultices como metas de inflação, bandas cambiais e os rankings de desempenho econômicos. Tudo isso depende, direta ou indiretamente, da hegemonia do dólar.
O PIB, para efeito de comparação, é medido em dólar e, mesmo assim, há uma discussão acerca de usarem-se valores nominais ou ajustados à paridade de poder de compra. Essa unificação norteia, inclusive, a decisão por investir fora do país de origem do capital ou, como dizem os economistas, no resto do mundo.
A hegemonia do dólar recai sobre as empresas transnacionais, cujos balanços precisam ser traduzidos em dólares para que os resultados possam ser conciliados. Nisso, até a taxa histórica de câmbio é alvo de discussão. Vamos descer do pedestal e eliminar o economês. Imaginemos uma empresa brasileira que opere em mais de cem países, como é o caso da Petrobras. Como se não bastasse, essa empresa tem capital aberto em mais de um país e precisa publicar resultados em todos eles. Não há outra forma de isso funcionar se não traduzir todos os valores para uma só moeda. É então que entra um complicador. Como ela opera em países com taxas diferentes de inflação e preços relativos diversos, mesmo usando uma só moeda como o dólar, os números ainda podem ficar distorcidos porque a moeda estadunidense poderá estar supervalorizada em um local e artificialmente desvalorizada em outro. É que a taxa de câmbio depende de variáveis objetivas, mas também de subjetivas inerentes à política econômica de cada país.
Imaginemos agora que o dólar deixe de ser referência, como ficam os rankings? Como se processaria a decisão por investir?
Hoje, dizer-se que um país é rico ou pobre, importante ou irrelevante, justo ou injusto é muito fácil. Basta recorrer ao Banco Mundial, ao FMI ou mesmo à CIA e os números estão na cara do pesquisador com pequenas variações metodológicas. Tudo é muito rotulável, o que não significa que seja comparável. Melhor, os rótulos advindos de comparações pretensamente objetivas dificilmente são desmascaradas. A verdade é que hoje não se medem as diferenças entre países, mas as diferenças entre cada país e os Estados Unidos. Se quisermos comparar a economia brasileira com a angolana pelos métodos atuais, basta comparar o PIB de cada um deles em paridade do poder de compra, ou seja, fazendo uma avaliação triangular com os Estados Unidos como vértice de referência, num pretexto bastante questionável de reduzirem-se todos os números a um denominador comum. Num mundo multipolar, os bens que são considerados hoje como não comerciáveis podem passar à categoria de comerciáveis, enquanto outros que hoje se consideram comerciáveis podem passar a não ser. Um bom exemplo disso é a carne de porco, pois é adicionada ao grupo das proteínas animais e tida como negociável mundialmente. Ocorre que ela é negociável no Brasil, mas não é na Arábia Saudita. Assim, eliminando-se o dólar ajustado como padrão de comparação, a ideia de riqueza da Arábia Saudita em relação ao Brasil passa a ser vista sob uma nova perspectiva.
Como ficariam as demonstrações de resultados nas mais diversas bolsas de valores em que as ações são negociadas? Só que não são somente ações que se negociam no mercado. São também títulos de dívida como os debêntures e todos os derivativos adjacentes.
Se, como se pretende, as transações internacionais forem liquidadas diretamente nas moedas dos países envolvidos, como estudado na série “Uma moeda lastreada em commodities”, avaliar as transações será um verdadeiro quebra-cabeças a ser destrinchado. Como se fará isso?
Trump afirmou que perder a hegemonia do dólar é o mesmo que perder uma guerra, ou o mesmo que os Estados Unidos poderão passar a ser um país de terceiro mundo. Mas, sem o dólar, tendo todos os países a obrigação de pagar suas próprias contas, coisa que hoje os Estados Unidos não se veem obrigados a fazer, o epíteto de “terceiro mundo” continuará fazendo sentido. Quem viver verá.
Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.
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Lênin and The Ulianovs
17 de julho de 2025 8:03 amInteressante.
Primeiro disse o óbvio, mas que nunca é dito, portanto, parabéns.
Um dos grandes problemas dos rankings é o problema crucial de toda a ciência:
Desconsiderar que a simples observação altera o objeto observado, e aí, ciência vira religião, como aconteceu na análise comparativa econômica.
Voltando ao problema principal, que é um exercício teórico interessante, porém, de natureza prática impossível.
Mercadorias ou bens e serviços de uma economia são impossíveis de se tornarem referências-padrões-troca.
Simplesmente, porque o valor intrínseco e o valor relativo sempre podem ser manipulados (tal qual a moeda), por incidentes físicos (climáticos, por exemplo) e artificiais (estocagem, destruição proposital, como se fez com café em 1929), o que torna o objetivo da experiência, isto é, tornar a troca internacional mais próxima da realidade, improvável.
A outra questão foi brilhantemente apontada no texto: roupas de neve não valem nada no Congo, ou no Brasil (talvez em alguns pontos do Sul).
No mundo capitalista ou pós capitalista, esse sistema é impossível.
Em um mundo onde os meios de produção não sejam da classe proprietária, talvez.
Luiz Alberto M C Silva
17 de julho de 2025 7:27 pmPois é, como disse Caetano Veloso em “O Índio”: “E o que ele fará, dirá, será surpreendente por ter sido o óbvio”.
Lênin and The Ulianovs
17 de julho de 2025 8:07 amEm complemento ao comentário anterior:
O pós capitalismo iminente já achou o padrão de troca ideal:
Gente, humanos, que são referenciados por dados e metadados.
Bem vindo a Matrix.
Luiz Alberto M C Silva
17 de julho de 2025 7:29 pmVocê leu a matéria do Prof. Belluzzo? Nâo houve nada de combinado, pura coincidência.