Criação de uma moeda lastreada em commodities – I
por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva
Nesta coluna, publicou-se uma série de matérias denominada “Elocubrações Sobre a Natureza da Moeda”. Ali, discutia-se o assunto sob o ponto de vista histórico e filosófico, posicionando a moeda no ambiente econômico em geral e no capitalista em particular. Também se discutiu a interpretação de a moeda ser uma confissão de dívida do Estado perante os cidadãos, ou mesmo perante o resto do mundo. Seria possível criar uma moeda lastreada em uma commodity para fins de comércio internacional, ocupando o lugar do dólar como reserva internacional de valor?
Esse assunto é discutido desde o “bancor” proposto por Keynes durante a reunião de Bretton Woods. A intenção era usar uma cesta de commodities, incluindo o ouro e o petróleo como lastro. Ela esbarrou em três problemas. O primeiro era a volatilidade das commodities entre si e em relação ao ouro, que já era o padrão mundialmente aceito na época. O segundo problema é o fato de as jazidas, exceto a água, não serem evidentes. A prospecção é feita em três etapas. Na primeira, observam-se as condições geológicas para a existência de uma dada substância. No caso do petróleo, são as bacias sedimentares entre outras condições. Essas reservas são chamadas de inferidas ou possíveis. Na segunda etapa, investiga-se o subsolo, geralmente perfurando-o para verificar a presença da substância. O resultado, caso ela seja encontrada, é a reserva estimada ou provável, geralmente, com 50% de probabilidade. Na terceira etapa, intensificando as perfurações e usando modelos matemáticos, mapeia-se a jazida, o que resulta na jazida medida ou provada, que tem 90% de probabilidade de ter uma dada quantidade da substância recuperada de forma economicamente viável. Em 1944, não havia condições para determinar o tamanho das reservas medidas como temos hoje. Assim, isso não foi debatido por Keynes. O terceiro problema é que os Estados Unidos declaram-se vencedores da II Guerra, mesmo que o real vitorioso tenha sido a União Soviética. Assim, eles se apropriaram do padrão ouro, impulsionando a hegemonia do dólar.
Durante a crise do petróleo, mais propriamente depois de Nixon ter anunciado o fim do padrão ouro, a ideia de se criar uma moeda tendo o petróleo como lastro voltou à baila. Em 1973, os países da Opep chegaram a discutir essa ideia. Foram as condições geopolíticas que impediram, especialmente o acordo entre Estados Unidos e Arábia Saudita em que o petróleo seria negociado somente em dólares. Não se pode dizer que o petróleo tivesse tomado o lugar do ouro como lastro do dólar mas que houvesse uma garantia fiduciária de que, na posse de dólares, seria possível comprar petróleo. A isso deu-se o nome de petrodólar, que manteve a hegemonia monetária dos Estados Unidos. Com ela, dólares poderiam ser emitidos sem lastro que o mundo os absorveria avidamente, resguardando o país contra a inflação.
No início dos anos 2000, Mahathir Mohamad, pela Malásia, e Hugo Chávez, pela Venezuela, tentaram criar moedas lastreadas em petróleo. A Venezuela avançou na ideia, criando o petrogold que não atiçou o interesse do resto do mundo e serviu como motivo para o agravamento das sanções dos Estados Unidos ao país. Em 2018, Maduro criou o “petro” como criptomoeda lastreada em petróleo, o que foi visto pelo resto do mundo como uma forma de a Venezuela dar a volta nas sanções dos Estados Unidos, não como algo que se pudesse transformar em moeda para o comércio internacional. Além disso, a moeda considerava as reservas estimadas, não as medidas, o que ajudou a moeda a ser ignorada pelo mercado.
Hoje, estima-se que os dólares em circulação no mundo dividam-se como se segue:
• M1 (dinheiro imediatamente disponível): ~US$ 18 trilhões.
• M2 (inclui poupanças e fundos a curto prazo): ~US$ 21 trilhões.
• M3 (oferta ampla, incluindo grandes depósitos): ~US$ 23 trilhões.
• Eurodólares (Dólares Fora dos EUA Estimados em ~US$ 13 trilhões[1].
• Títulos do Tesouro em posse estrangeira: ~US$ 7,6 trilhões.
• Reservas internacionais em dólares: ~60% do total global (US$ 6,8 trilhões, FMI, 2024).
Somando-se M3 com o que se encontra fora dos Estados Unidos, a estimativa é que haja algo como US$ 50,4 trilhões. É possível que haja mais, pois somente em Forex, altamente alavancado, pode existir uma cifra ao redor dos US$ 17 trilhões. Tudo isso para um PIB mundial de US$130 trilhões em paridade do poder de compra.
A dolarização do mundo, feita pela força das armas é tão bem estruturada que a desdolarização e a adoção de uma nova moeda, principalmente lastreada em commodity, será uma tarefa hercúlea como se verá no próximo capitulo.
[1] BIS, 2023
Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.
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Lênin and The Ulianovs
25 de abril de 2025 6:54 amNão há, salvo engano, “lastro” que substitua o poder militar.
É essa a chave da hegemonia do dólar.
O resto é distração.
Por isso o Brasil só vai trocar de dono.
É um país fraco, sem peso ou dimensão militar alguma.
Esse bolo pós dólar vai ser dividido entre gente grande.
antonio carlos demanboro
25 de abril de 2025 8:43 amPrezado Luiz
Fundamental sua contribuição. Sem querer me adiantar ao próximo capítulo, propus em 2001 que as quatro principais commodities agrícolas – soja, trigo, milho, arroz – fossem usadas como padrão monetário. Se a produção subir, o mundo poderia se tornar mais sustentável. Se cair, todos entraríamos em recessão. A água, energia e NPK estão embutidos nas commodities agrícolas, evidentemente. O quadro da produção agrícola em 2000 não mudaria muito a distribuição da riqueza mundial se essas commodities fossem usadas como padrão monetário. Talvez seja algo para se pensar em mundo pós apocalíptico, quando a oferta de alimentos se tornar muito mais escassa.
Ficaria muito grato se você pudesse me dizer quais os vieses econômicos dessa ideia.
Luiz Alberto M C Silva
25 de abril de 2025 6:38 pmNão sei se você leu minha série “ntre milho esoja, onde vai parar o Brasil”. Ali eu proponho que se usem as substâncias, não os produtos, como commodities. Assim, garntimos que os produtos agrícolas sejam diversificados consoante as especificidades das regiões. Acho que essa matéria vai ajudar basstante a pensar sobre o assunto. Quanto aos autores, o principal foi Keynes, que foi acompanhado por Kaleki na reuniõ de Bretton Woods. As propostas decorrentes não foram exploradas academicamente, pelo menos, não com a determinação de modelos de grande difusão.
Lênin and The Ulianovs
25 de abril de 2025 10:17 pmNão se gira a roda da história ao contrário.
Nem a pulverização dos padrões de troca soberanos (moedas nacionais) em cripto moedas, que muitos reivindicam ser o retorno do feudalismo (neste caso, um tecnofeudalismo) pode assim ser considerada, isto é, como uma repetição, ainda que atualizada, uma volta a fase pré capitalista ou de acumulação primitiva (a história se repete só como tragédia ou farsa, não esqueçamos).
A proposta de vinculação a produtos não se sustenta.
Seria um novo escambo, um retorno moderno a fase pré moeda.
Isso não existe.
A moeda está derretendo (na sua função intrínseca) porque sua razão de existir também está acabando: o valor, e o mais valor.
Sem esse arranjo, moedas e soberania deixam de ter sentido, porque tais circunstâncias são atributos inerentes ao modo de produção capitalista, que está no fim.
Qual vai ser a forma definitiva de simbolização e troca?
Não sei, sinceramente não sei se haverá tal necessidade.
Luiz Alberto M C Silva
26 de abril de 2025 7:46 amQual dos irmãos Ulianof é você? Pergunto porque Lenin concordava com Marx em que a História nunca se repete. Em “O 18 de Brumário de Luís Napoleão”, ele disse que “Da primeira vez é tragédia; da segunda, é farsa”. Farsa no sentido de jocoso, de comédia, de saltimbanco. Citações à parte, não querendo antecipar o próximo capítulo, existe uma tendência ao escambo sim. Produtores de soja cotam tudo em sacas de soja independentemente de em que país estejam. Assim, fazem os produtores de petróleo, que reduzem os valores a barris e isso acontece setorialmente dentro das economias mais complexas e diversificadas. O que acontece é o distanciamento entre a ideia de moeda e a ideia de capital, mas isso será discutido oportunamente.
Trotsky & os picaretas
26 de abril de 2025 11:29 amNão confundamos a “mercadorização” do valor(riqueza), em “moedas-produtos”, com o fim da ideia de universalização desse valor, justamente pelo fim do valor em si.
Não sei se me fiz entender.
Antonio Carlos Demanboro
30 de abril de 2025 2:24 pmGrato pelo retorno Luiz.