O momento é tenso na América do Sul. Sob o governo Trump, os Estados Unidos têm apoiado abertamente candidaturas de extrema-direita em várias disputas presidenciais do continente, postura que se soma a uma intervenção militar direta na Venezuela e ao afastamento de Nicolás Maduro do poder, com a submissão do governo de Delcy Rodríguez. Hoje, o Brasil se vê rodeado por países governados pela direita ou extrema-direita, e deverá enfrentar pressões externas e sinais de apoio de Washington ao candidato de extrema-direita nas eleições de outubro.
Para discutir esse cenário, a reportagem conversou com José Luís Fiori, que lança nesta semana (dia 3, das 19h às 21h, na Livraria Janela do Jardim Botânico) o livro Conjuntura e História, dedicado à relação entre os acontecimentos recentes e a trajetória histórica do sistema mundial e da América do Sul.
Fiori propõe uma leitura de longo prazo antes de responder diretamente. Para ele, o poder internacional funciona como uma força em movimento contínuo e acelerado, e o sistema interestatal nascido na Europa medieval se comporta como um universo em expansão, movido pela disputa entre grandes potências pelo controle global. Essa disputa produz, periodicamente, um projeto imperial dominante. Foi assim com a Espanha nos séculos XVI e XVII, com a Grã-Bretanha nos séculos XVIII e XIX, e agora é a vez dos Estados Unidos.
Nesse cenário, existiriam sempre duas posições opostas: quem sustenta o projeto imperial e quem defende sua própria autonomia. Segundo Fiori, os impérios não respeitam autonomias nacionais por definição, de modo que a soberania não pode ser vista como algo garantido por direito, ela precisa ser conquistada e reafirmada constantemente por quem está fora do polo imperial.
O intelectual lembra que a formação do poder americano começou no fim do século XIX, ganhou força após a Segunda Guerra Mundial e atingiu seu auge após o fim da Guerra Fria. Segundo ele, os EUA promoveram dezenas de intervenções de mudança de regime ao redor do mundo desde então, incluindo diversos golpes na América Latina entre as décadas de 1950 e 1970, e mantiveram guerras quase ininterruptas nas últimas três décadas, chegando, em certos momentos, a bombardear vários países simultaneamente.
Fiori também atribui a Washington um papel central no financiamento do armamento usado por Israel em Gaza e no apoio inicial à Ucrânia antes das negociações de paz. Já no atual mandato de Trump, aponta bombardeios em sete países, pressão crescente sobre o Mali e o Irã, o assédio a Cuba, ameaças à Groenlândia e interferência direta em eleições sul-americanas, um padrão que, para ele, deve se repetir onde a potência dominante não encontrar resistência.
América do Sul
Fiori atribui esse movimento, em primeiro lugar, à rápida expansão da presença econômica chinesa na região, somada à decisão de Washington de reafirmar seu poder global depois do desgaste das guerras contra o terrorismo islâmico. A diferença em relação a ciclos anteriores, diz ele, é que esse novo intervencionismo vem com discurso agressivo, mas sem qualquer proposta de desenvolvimento para os países da região.
No passado, os EUA sempre ofereceram alguma contrapartida pela lealdade de seus aliados: durante a Guerra Fria, transformaram as Forças Armadas sul-americanas em instrumento de combate ao comunismo em troca da promessa de desenvolvimento; depois, ofereceram a globalização e as reformas neoliberais em troca do combate ao terrorismo.
Hoje, segundo Fiori, a única oferta é o combate ao narcotráfico, sem qualquer projeto econômico regional, o que explicaria, na sua visão, a rápida queda de popularidade dos novos governos de direita e extrema-direita no continente.
Brasil
Fiori destaca que o Brasil é o quinto maior país do mundo, está entre as dez maiores economias do planeta e responde por cerca de metade do PIB sul-americano, além de ser o país mais industrializado da região. Ele vê grande potencial de crescimento à frente, associado ao agronegócio, à matriz energética limpa, às reservas hídricas e minerais, incluindo terras raras, e a uma posição favorável diante da revolução ligada a inteligência artificial e big data.
Apesar dessas condições, o economista afirma que a maior resistência a um projeto brasileiro autônomo vem de dentro do próprio país, das elites civis e militares que, segundo ele, historicamente se mostraram alinhadas ao poder americano, tanto a antiga burguesia associada quanto a atual burguesia financeira internacionalizada. Cita especificamente as Forças Armadas, que teriam sido influenciadas ideologicamente pelos militares dos EUA desde o acordo bilateral de 1952.
Na política externa, Fiori reconhece mudanças de rumo ao longo do tempo, mas nota que o país manteve por muito tempo alinhamento próximo a Washington. Já nos governos de Lula e Dilma, aponta uma diplomacia mais autônoma, sem alinhamento automático às disputas entre grandes potências, exemplificada pela participação na fundação do BRICS e pela busca de relações com diferentes blocos geopolíticos, sem discriminação ideológica.
Venezuela
Fiori afirma não acompanhar de perto a situação, mas descreve o país, na prática, como uma espécie de território sob controle petrolífero dos Estados Unidos, com um governo local de esquerda mantido à parte. Segundo ele, isso evidenciaria o desinteresse de Washington por questões de democracia ou bem-estar da população, já que os EUA teriam se apropriado de recursos do petróleo venezuelano, cifra estimada pelo Financial Times em cerca de US$ 13 bilhões, sem transparência sobre seu destino. P
ara Fiori, dificilmente a Venezuela sairá dessa condição sem uma mudança profunda na política americana e no cenário geopolítico global.
Argentina
Fiori recorda que a Argentina começou o século XX entre as economias mais ricas do mundo, com indicadores sociais superiores aos do Brasil por décadas, mas mergulhou em crise entre os anos 1930 e 1950 e nunca mais reencontrou uma estratégia unificada de inserção internacional após a queda de Perón, em 1955.
Segundo ele, o país alternou entre tentativas de industrialização (nos anos 1950 e 60), ditadura e ultraliberalismo econômico (com Martínez de Hoz nos anos 1970 e Cavallo nos anos 1990), sempre revertendo ao peronismo depois de cada fracasso.
Fiori vê no atual governo de Milei mais uma tentativa de ultraliberalismo radical apoiada pelo FMI e pela banca privada americana, mas acredita que o padrão histórico deve se repetir. Para ele, a Argentina dificilmente encontrará um caminho autônomo e sustentável sem uma aliança estratégica de longo prazo com o Brasil, algo dificultado pela histórica disputa entre os dois países pela liderança regional, decidida a favor do Brasil ainda no século passado.
Cuba
Fiori sublinha que a pressão americana sobre Cuba não é recente: já no século XIX, os fundadores dos Estados Unidos viam a ilha, então colônia espanhola, como destino natural da expansão americana. Após a vitória na Guerra Hispano-Americana, os EUA passaram a controlar a ilha por meio da Base Naval de Guantánamo e da influência sobre sua política externa e econômica, incluindo o apoio à ditadura de Fulgêncio Batista até a Revolução de 1959.
Desde então, o país viveu mais de seis décadas de embargo e sanções, incluindo o rompimento diplomático de 1964, num esforço contínuo para enfraquecer o governo cubano. Fiori recupera uma reflexão sua de 2008, na qual descrevia Cuba como símbolo de resistência incômodo para os EUA, e mantém a avaliação de que Washington continuará buscando fragilizar o núcleo do poder cubano, enquanto a ilha seguirá na defensiva para preservar sua soberania.
Peru
Fiori observa que o candidato apoiado pelo trumpismo nas eleições peruanas foi Rafael López Aliaga, e não Keiko Fujimori, paralelo ao caso boliviano, em que a extrema-direita apoiou Jorge Quiroga, derrotado pelo centrista Rodrigo Paz.
Por isso, segundo ele, não chega a surpreender que a nova presidente peruana busque manter relações econômicas simultâneas com EUA e China.
Na sua leitura, a China não tem pretensões militares na região e sua presença econômica é hoje indispensável para o Peru, enquanto os Estados Unidos, além de não oferecerem alternativa equivalente, ainda impõem tarifas a seus próprios aliados, inclusive à Argentina de Milei, que segundo Fiori depende da China para honrar compromissos com o FMI e com bancos privados americanos, apesar do alinhamento político do governo argentino a Washington e Israel.
EUA
Fiori reafirma que Trump enfrenta impopularidade crescente dentro e fora dos Estados Unidos, o que tornaria plausível uma derrota expressiva nas eleições legislativas de 3 de novembro. Ainda assim, ele acredita que uma eventual perda de maioria no Congresso enfraqueceria Trump internamente sem necessariamente conter seu ímpeto expansionista no plano internacional, podendo até intensificá-lo.
Para Fiori, os democratas seguem divididos e sem um projeto alternativo claro de política externa, podendo inclusive adotar posturas tão ou mais assertivas que as do próprio Trump, já que, historicamente, os dois partidos dividiram entre si a autoria das intervenções e guerras americanas ao longo dos séculos XX e XXI.
Novo livro
Conjuntura e História reúne 97 dos cerca de 450 artigos que Fiori publicou em jornais, revistas e veículos eletrônicos ao longo de três décadas, analisando sucessivas conjunturas internacionais. A obra complementa seu livro anterior, Uma Teoria do Poder Global, também pela Editora Vozes.
Para o autor, toda leitura de conjuntura pressupõe uma visão teórica sobre a dinâmica do sistema político e econômico mundial, e é essa teoria que permite identificar crises e inflexões de longo prazo por trás dos acontecimentos do dia a dia.
Ao mesmo tempo, afirma que essa teoria precisa ser constantemente testada pela própria análise conjuntural, num processo inacabado. Segundo Fiori, esse foi justamente o propósito do livro: reconstruir o percurso pelo qual foi testando e ajustando suas próprias hipóteses sobre o poder e a disputa histórica dentro do sistema mundial.
*Com informações do Brasil 247.
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