A situação fiscal dos Estados Unidos está se tornando cada vez mais difícil de administrar, segundo o economista Kenneth Rogoff, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Em artigo publicado no site Project Syndicate, Rogoff afirma que o país ainda está longe de uma crise da dívida, mas alerta que a combinação de déficit elevado, aumento dos custos de financiamento e resistência política a cortes de gastos ou aumento de impostos pode ampliar os riscos.
O déficit federal americano está em torno de 6% do Produto Interno Bruto (PIB), mesmo em um cenário de crescimento econômico considerado sólido. Para Rogoff, o problema é agravado pelo aumento dos juros pagos pelo governo.
Os pagamentos de juros, que há seis anos eram uma preocupação secundária no orçamento federal, já se tornaram a segunda maior despesa do governo e devem assumir a primeira posição em breve, segundo o economista.
A dinâmica cria um ciclo difícil de interromper. Com juros maiores, o custo da dívida aumenta e pressiona o déficit. Para compensar, o governo pode elevar impostos, reduzir despesas ou emitir mais dívida. Na avaliação de Rogoff, os Estados Unidos têm optado principalmente pela terceira alternativa.
Crescimento não resolve sozinho o problema
O governo de Donald Trump aposta no crescimento econômico como parte da resposta aos desequilíbrios fiscais. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, tem defendido que uma expansão econômica mais forte aumentaria a arrecadação e ajudaria a reduzir a pressão sobre as contas públicas.
Rogoff considera possível que o crescimento americano supere as expectativas, mas questiona a capacidade de novas tecnologias, especialmente a inteligência artificial, de produzir receitas tributárias suficientes para solucionar o problema fiscal.
O economista também critica a falta de disposição política para enfrentar o déficit, citando como exemplo a promessa de Trump de distribuir um “dividendo” de US$ 5 mil a cada americano caso os republicanos mantenham o controle do Congresso nas eleições de meio de mandato.
Para Rogoff, medidas desse tipo apontam para uma política fiscal que continua priorizando estímulos e benefícios imediatos em vez de uma redução consistente do endividamento.
O que poderia desencadear uma crise
Na avaliação de Rogoff, uma crise da dívida americana dependeria de uma deterioração adicional das condições de financiamento. Uma possibilidade seria a continuidade da alta dos juros dos títulos do Tesouro.
O economista considera que uma eventual prolongação da guerra no Irã, combinada a uma deterioração do ambiente político interno, poderia elevar em mais um ponto percentual a taxa dos títulos do Tesouro americano de dez anos. Isso aumentaria novamente o déficit e poderia iniciar uma dinâmica de retroalimentação.
Se os investidores passarem a exigir prêmios cada vez maiores para financiar o governo, as opções das autoridades se reduziriam. Rogoff cita como possibilidades uma combinação de inflação elevada, repressão financeira, calote ou políticas de austeridade.
Mesmo antes de uma crise propriamente dita, o aumento da dívida poderia limitar a capacidade do governo de reagir a recessões, crises financeiras, guerras, desastres ambientais ou grandes ataques cibernéticos que exigissem novas despesas públicas.
O ponto central, segundo Rogoff, é a confiança dos investidores nos títulos americanos. O país ainda possui recursos para enfrentar seus problemas fiscais e contam com a vantagem de emitir a principal moeda de reserva internacional. O problema, em sua avaliação, é a falta de disposição política para adotar medidas consideradas necessárias.
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