2 de outubro de 2026

A nova máquina de guerra dos EUA e sua política industrial agressiva, por James Görgen

O pacote que o secretário de Guerra dos Estados Unidos apresentou traduz em memorandos uma doutrina de autonomia tecnológica nacional.
Reprodução imagem do BBC News

Pentágono anuncia AutoWarCom para acelerar uso de drones e robótica, e fortalece controle da cadeia de suprimentos.
Projeto Meridian envolve empresários como Musk na definição das demandas militares futuras do Pentágono.
EUA compram mina de terras raras no Brasil, reforçando controle sobre recursos estratégicos para sua indústria bélica.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

A nova máquina de guerra dos EUA e sua política industrial agressiva

Três iniciativas ambiciosas tentam posicionar o Pentágono no mundo das guerras autônomas e da centralização de capacidades na linha de frente, assegurando recursos naturais e desenvolvimento tecnológico para enfrentar as novas frentes de batalha que Washington vem ampliando.

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por James Görgen

O pacote que o secretário de Guerra dos Estados Unidos, Pete Hegseth, apresentou em 30 de setembro, na base de Quantico, traduz em memorandos uma doutrina de autonomia tecnológica nacional. Controle da cadeia de suprimentos, independência energética das instalações militares, reserva estratégica, proteção de espaço e espectro e participação de empresários na definição do que o Estado vai comprar nas próximas décadas compõem o núcleo de três das seis iniciativas anunciadas. São os mesmos instrumentos que Washington trata como prática comercial desleal ou ameaça à circulação de dados quando aparecem na agenda do Brasil e de outros países do Sul Global.

As outras 3 iniciativas, sobre assuntos religiosos, formação de cadetes e uma nova base militar, falam à política doméstica americana. As 3 tecnológicas, lidas ao lado da política externa dos últimos 20 meses, descrevem um regime em que a autonomia é prerrogativa de quem está no centro e o alinhamento é exigência feita a quem está na periferia.

Do contrato ao comando

O Autonomous Warfare Command, batizado de AutoWarCom, terá autoridades equivalentes às de um serviço militar para acelerar a adoção de drones e sistemas robóticos em toda a força conjunta do Departamento de Guerra. Como a criação formal depende do Congresso, Hegseth instituiu o Project Agincourt para preparar o terreno até outubro de 2027, sob a liderança de Owen West (até então diretor da Defense Innovation Unit) e do suboficial Max Strasiser (SEALs). O modelo funde aquisição e operação em escala, aproxima operadores e empreendedores em ciclos curtos de adaptação e desloca decisões e recursos para perto das unidades de linha de frente.

Comandos novos são raros na estrutura militar americana. O último havia sido o Comando Espacial, recriado em 2019. No fim de fevereiro, Hegseth anunciou que o laboratório de inteligência artificial Anthropic seria designado risco à cadeia de suprimentos por recusar o uso de seus modelos em armas totalmente autônomas e em vigilância doméstica em massa. A designação foi formalizada em março e acabou suspensa por liminar judicial. Em maio, oito empresas aceitaram a fórmula de uso operacional lícito para operar em redes classificadas. O que era cláusula contratual em disputa ganha comando e doutrina próprios agora. A definição dos limites do uso militar da IA sai da mesa de negociação com fornecedores e entra na rotina de uma estrutura permanente do Estado.

A estrutura já tinha ensaio regional. Em abril, o Comando Sul, que desde setembro de 2025 ataca embarcações suspeitas de tráfico na América Latina, criou seu próprio comando de guerra autônoma, com mandato que vai da dissuasão convencional à desarticulação de cartéis. O AutoWarCom dá escala nacional a um arranjo que já tinha na América Latina uma de suas primeiras expressões operacionais.

Fornecedor na sala

O Project Meridian cuida da demanda. Elon Musk, Palmer Luckey e Newt Gingrich terão 120 dias, sob coordenação do diretor de tecnologia do Departamento, Emil Michael, para mapear os domínios e as capacidades de que as forças estadunidenses precisarão nas próximas décadas, num escopo que vai de cenários subterrâneos ao espaço cislunar. A SpaceX, de Musk, e a Anduril, de Luckey, mantêm contratos bilionários com o Pentágono, o que levou veículos como The War Zone e New Republic a apontar conflito de interesse.

Hegseth disse que o projeto não se destina a produzir novas estratégias ou políticas. Em defesa, quem mapeia as capacidades necessárias define a demanda de compra. Num orçamento militar dessa escala, essa demanda funciona como política industrial em sua forma mais direta. O Meridian oficializa a presença de donos de empresas que disputarão os contratos na redação da própria encomenda como tem sido a praxe do Pentágono.

A fortaleza

O FORTRESS America cuida da retaguarda para isolar as estruturas da ponta de ameaças a infraestruturas críticas que mantêm a engrenagem funcionando. O programa se organiza em cinco pilares, que são a independência energética, a resiliência da cadeia de suprimentos e da base industrial de defesa, uma reserva estratégica de defesa, o endurecimento das instalações com resiliência cibernética e a resiliência no espaço e no espectro. O memorando apresenta o programa como apólice de seguro da nação, determina a criação em 30 dias de um escritório subordinado à subsecretaria de Aquisição e Sustentação e cobra resultados em semanas. O texto não traz valor de financiamento nem lista de projetos.

O discurso público foi mais explícito do que o memorando. Hegseth prometeu repatriar terras raras, metais especiais, semicondutores e propelentes, que passariam a ser extraídos, refinados e fabricados nos Estados Unidos. Energia, materiais, capacidade produtiva, espectro e órbita passam a ser tratados como condição de existência do poder militar dos EUA e, portanto, como matéria de segurança nacional subtraída à lógica de mercado.

Autonomia para dentro, alinhamento para fora

Lido ao lado da política externa estadunidense recente, o pacote completa um regime em dois níveis, com autonomia tecnológica declarada como defesa para dentro e exigência de alinhamento para fora. A investigação aberta pelo USTR contra o Brasil em julho de 2025, com base na Seção 301 da Lei de Comércio, incluiu entre seus alvos o Pix. Nas contribuições ao processo, entidades da indústria americana de tecnologia atacaram a Resolução 780/2025 da Anatel, que estabeleceu requisitos de conformidade para data centers. Em agosto, a Reuters revelou a minuta de uma carta do Departamento de Estado aos 35 signatários da declaração conjunta sobre oportunidade em IA, associada à Pax Silica, segundo a qual a adesão não pode coexistir com iniciativas concorrentes. De acordo com a agência de notícias, o alvo é a WAICO, a organização de cooperação em IA criada pela China. Não há confirmação de que a carta tenha sido enviada.

Nas Américas, a divisão já tem contorno. Argentina, Chile, Costa Rica, El Salvador e Panamá assinaram a declaração da Pax Silica em junho e integram o Escudo das Américas, a coalizão militar contra cartéis articulada por Washington. Brasil, Cuba e Venezuela estão entre os 29 fundadores da WAICO e fora da Pax Silica e do Escudo das Américas.

Requisitos sobre infraestrutura crítica, controle de espectro e órbita, reserva de capacidade energética e uso do poder de compra do Estado para orientar a indústria são os instrumentos que o FORTRESS e o Meridian consagram. Quando aparecem na agenda brasileira, como no Pix ou na regulação de plataformas, viram em Washington prática discriminatória contra empresas americanas. A Pax Silica oferece aos parceiros um lugar na cadeia de valor como fonte de minerais críticos e energia. A minuta revelada em agosto sugere que esse lugar vem com cláusula de exclusividade.

Esse lugar já tem endereço no Brasil. Em 3 de setembro, a USA Rare Earth concluiu a compra da Serra Verde, dona da mina Pela Ema, em Minaçu (GO), única operação brasileira que produz terras raras em escala comercial, numa transação avaliada em cerca de US$ 2,8 bilhões. O governo dos EUA é acionista da compradora e participa do financiamento e da destinação da produção. A mina tem um offtake de 15 anos[1] que destina 100% da produção da primeira fase a um veículo de propósito específico capitalizado pela administração Trump. O negócio foi fechado um dia depois de o Senado aprovar a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. Os minerais que Hegseth promete extrair, refinar e produzir em solo americano dividem a cadeia com uma jazida brasileira sob controle de capital americano com participação estatal. Provavelmente, Washington vai sustentar que decidir o que produzir continuará sendo atributo do centro mesmo que o Palácio do Planalto discorde.

A presença australiana não altera o quadro. Em 30 de setembro, mesmo dia do discurso em Quantico, a Lynas Rare Earths anunciou acordo vinculante para comprar a Meteoric Resources, dona do Projeto Caldeira, em Caldas (MG), numa operação em ações avaliada em cerca de US$ 672 milhões e ainda sujeita a aprovações. O Ministério de Minas e Energia celebrou o negócio como alinhado aos objetivos do governo para o setor. A Lynas é a maior produtora de terras raras fora da China e, em março, fechou com o Departamento de Guerra um offtake de óxidos de terras raras leves e pesadas por quatro anos, com US$ 96 milhões em compras do governo americano e preço mínimo de US$ 110 por quilo para o óxido de neodímio-praseodímio. O compromisso foi firmado em carta de intenções vinculante e ainda aguarda contrato definitivo. Concluída a segunda aquisição, a única mina de terras raras em operação no Brasil e o maior recurso conhecido em argilas iônicas fora da China ficarão sob controle de empresas que têm o governo americano como comprador.

Genebra fica longe

A consequência mais imediata para o Sul Global está em Genebra. Em 4 de setembro, o Grupo de Peritos Governamentais sobre sistemas de armas letais autônomas da Convenção sobre Certas Armas Convencionais encerrou seu mandato de 3 anos. Ao todo, 76 Estados já apoiam negociar um instrumento com base no texto produzido pelo grupo, posição defendida pelo Brasil desde a declaração conjunta de setembro de 2025 e endossada pelo Grupo Africano na sessão final. A Conferência de Revisão decidirá em novembro se haverá mandato negocial.

O AutoWarCom foi anunciado 26 dias depois do encerramento dos trabalhos em Genebra e a menos de dois meses da Conferência de Revisão. Quando a maior potência militar institucionaliza a guerra autônoma em comando próprio antes de qualquer regra multilateral, o futuro instrumento passa a ser negociado diante de fato consumado. O projeto de lei de defesa do Senado americano exige supervisão humana sobre sistemas de IA e um processo de revisão que inclui usos proibidos e registro centralizado de incidentes.

O Congresso tenta fixar limites para o próprio comando enquanto o governo resiste a assumi-los em tratado. Países que não produzem esses sistemas e têm maior probabilidade de servir de teatro para seu uso perdem margem para definir regras antes da consolidação doutrinária. Nas Américas, a defesa de regras vinculantes tem raiz regional desde o comunicado de Belén, adotado em fevereiro de 2023 por 33 países latino-americanos e caribenhos reunidos na Costa Rica.

O argumento possível

O pacote de Hegseth oferece ao Brasil um argumento que dispensa adesão a qualquer bloco. Se energia, espectro, órbita, cadeia de suprimentos e poder de compra do Estado são instrumentos legítimos de segurança nacional em Washington, também o são em Brasília. O raciocínio cabe na resposta à investigação da Seção 301, nos fóruns comerciais em que a regulação digital brasileira é tratada como barreira e na coordenação com países submetidos à mesma pressão.

O argumento só ganha densidade com capacidade correspondente. Isso inclui perícia técnica própria para avaliar sistemas de uso dual que entram no país por contratos civis, uso deliberado do poder de compra do Estado em setores com base nacional a desenvolver e uma posição ativa na Conferência de Revisão pela abertura de negociações sobre um instrumento vinculante, em coordenação com o Grupo Africano e os demais signatários da declaração conjunta. O prazo para esta última tarefa termina em novembro.


[1]Offtake é um contrato de compra antecipada em que o comprador se compromete a adquirir parte ou toda a produção futura de um projeto, geralmente por prazo longo e com preço ou volume definidos. Na mineração, é o que dá ao produtor uma demanda garantida e costuma viabilizar o financiamento da mina.

James Görgen é Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental e Assessor no Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços

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James Görgen

Servidor público federal da carreira de Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, assessor para temas digitais e agenda internacional do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Foi Assessor Especial de Ministros e Diretor de Gestão Estratégica do Ministério das Comunicações. É membro suplente do Comitê Gestor da Internet no Brasil. http://florestadigital.tec.br

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